O modus operandis de fuga da realidade do futebol brasileiro
O futebol rasileiro tem muitos clubes grandes, o que faz com que muitas torcidas tenham também grandes esperanças. Isso também leva jogadores e dirigentes a não admitirem que é preciso ajustar expectativa à realidade para de fato poder oferecer algo ao torcedor. Leia mais (09/16/2026 - 21h15)

Jornalista e comentarista da TNT Sports. Viu Messi jogar mais de 100 vezes e há dez anos cobre o dia a dia da Liga dos Campeões
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O futebol rasileiro tem muitos clubes grandes, o que faz com que muitas torcidas tenham também grandes esperanças. Isso também leva jogadores e dirigentes a não admitirem que é preciso ajustar expectativa à realidade para de fato poder oferecer algo ao torcedor.
O São Paulo de 2026 é um ótimo exemplo de como um clube não sabe o que quer, ou o que pode querer, e se afunda devido à dificuldade de olhar-se no espelho.
Em 24 de janeiro, Hernán Crespo olhou para o elenco, para a frágil situação econômica, política e estrutural do clube e disse que a briga seria para fazer 45 pontos e permanecer na primeira divisão. Dois dias depois, o ex-lateral Rafinha assumiu como gerente esportivo e criticou o "discurso de perdedor, de fracassado, de medo" que existia no São Paulo. Em 21 de fevereiro, o time acumulava bons resultados e Lucas Moura completou dizendo que Crespo "sabia que não tinha sido feliz".

A história nem precisava continuar, pois deveria ter sido interrompida aqui. Ou Rafinha não deveria ser contratado ou Crespo deveria ter sido mandado embora no dia 27 de janeiro. Ao contratar um gerente que não está alinhado às expectativas do treinador, o clube fica pequeno demais para os dois e o gerente deveria então dizer que a ambição do São Paulo é outra e que iriam buscar um técnico capaz de atingi-la.
No entanto, isso não foi feito. Crespo ficou no cargo até 9 de março, foi demitido na liderança do Campeonato Brasileiro e, dois técnicos e seis meses depois, o clube está brigando para fazer mais 12 pontos em 12 jogos e chegar aos 45 projetados pelo treinador argentino. Após a eliminação da Sul-Americana, Rafinha justificou-se dizendo que não poderia chegar ao clube e transmitir ao torcedor a luta contra o rebaixamento como meta para o ano.
Pois isso é exatamente o que deveria ter sido feito. Vender realidade, não sonhos. Ao torcedor e aos jogadores, que não gostaram da declaração do então técnico. O passo mais básico para atingir qualquer objetivo é saber qual será ele. Se você está preparado para sofrer na parte de baixo do campeonato, enfrenta a situação com mais resiliência e menos desespero a cada tropeço.

Metaforicamente, é como um corredor de final de semana que fazer 10 km em uma hora tentar correr 20km no mesmo tempo. Ele não vai conseguir, irá acelerar e forçar demais e provavelmente não conseguirá completar aquela meta conservadora que ele estava apto a atingir.
A pressão interna para conseguir melhores resultados pode ter levado os jogadores a entrarem nervosos na partida contra o Boca Jrs. e terem performado pior do que se estivessem com uma temporada considerada dentro das expectativas do clube.
Trabalhar com futebol no Brasil não é fácil. O fato de termos muitos clubes grandes significa que várias instituições já tiveram sua era dourada e possuem grandes torcidas. Essa massa social espera repetir os melhores momentos todos os anos e a imprensa crítica campanhas medianas, com base no peso da camisa, não no potencial atual.

Quem mais precisa ter a cabeça no lugar e não se deixar influenciar por barulho da torcida ou da mídia são os diretores. Crespo foi o único, em todo o ano do São Paulo, a dizer a verdade ao torcedor sobre o momento do clube. E falar a verdade, em um país que gosta mais das narrativas, é um dos maiores erros que uma pessoa pode cometer.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/marcelo-bechler/2026/09/o-modus-operandis-de-fuga-da-realidade-do-futebol-brasileiro.shtml.

Domingos Duarte comemora gol do São Paulo contra o Boca Jrs, no Morumbi - Alex Silva - 15.set.26/Reuters · Alex Silva - 15.set.26/Reuters — Foto: Folha de S.Paulo
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