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    O método 'doloroso' de atuação de Laura Cardoso, que morreu aos 98 anos sem nunca se aposentar

    Laura Cardoso , morta aos 98 anos nesta segunda-feira (17), nunca se aposentou. Leia mais (08/18/2026 - 12h18)

    Folha de S.Paulo
    18 de agosto de 2026 às 15:18
    O método 'doloroso' de atuação de Laura Cardoso, que morreu aos 98 anos sem nunca se aposentar
    Foto: Folha de S.Paulo

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    Laura Cardoso , morta aos 98 anos nesta segunda-feira (17), nunca se aposentou.

    Retrato da atriz Laura Cardoso, aos 96 anos, em seu apartamento em São Paulo, há três anos - Eduardo Knapp/Folhapress · Eduardo Knapp/Folhapress
    Retrato da atriz Laura Cardoso, aos 96 anos, em seu apartamento em São Paulo, há três anos - Eduardo Knapp/Folhapress · Eduardo Knapp/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    "Aposentadoria é quando você morre", costumava dizer em entrevistas ao longo das últimas décadas, quando surgia, inevitavelmente, a pergunta sobre quando pretendia deixar os palcos e se afastar das câmeras.

    Nos últimos anos, a atriz já havia adotado um ritmo mais lento —sua última novela foi "A Dona do Pedaço", de 2019, na qual entrou já na metade da trama. Mas, até o ano passado, ela continuava trabalhando —seu último papel foi o de uma idosa abandonada pela filha em um ponto de ônibus, no curta-metragem "Dona Rosinha".

    Uma de suas últimas aparições públicas, aliás, revelou o que a artista, nascida em 1927, representou para uma geração de atores: uma professora.

    Veja fotos da atriz Laura Cardoso aos 96 anos
    Veja fotos da atriz Laura Cardoso aos 96 anos — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    "É a minha mestra, a minha professora. Só não pegou aula com ela quem é burro", afirmou Susana Vieira , de 83 anos, ao ser homenageada ao lado da atriz em uma calçada da fama montada pela TV Globo em seus estúdios no Rio de Janeiro.

    Vieira não detalhou quais foram as lições que tomou com Cardoso, mas a atriz era lembrada pelos colegas de trabalho, tanto à frente quanto atrás das câmeras, como alguém que encarava a televisão sem vaidades e tratava o ofício artístico como qualquer outro, com dedicação acima de tudo.

    "É uma coisa trabalhosa, que chega a dar canseira física, sabe? Quando você está estudando, fica quase que 24 horas ao redor do texto", contou a atriz em entrevista ao Itaú Cultural para a gravação de vídeos exibidos em uma mostra em sua homenagem, realizada em 2017, em São Paulo.

    Laura Cardoso e Juliana Paes em cena da novela 'A Dona do Pedaço'
    Laura Cardoso e Juliana Paes em cena da novela 'A Dona do Pedaço' — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    "Você não pode largar, se é que você quer fazer um bom trabalho. Se é para decorar e falar o que está escrito, aí tudo bem. Mas, se você quiser realmente formar um personagem, construir um personagem que tenha cara, corpo, alma, aí dá trabalho."

    Na mesma mostra, em vídeos exibidos no espaço da avenida Paulista, colegas lembravam Cardoso como uma atriz que poderia até exagerar no preparo, por ser pouco afeita à improvisação —a ponto de ficar brava quando, não só os colegas, mas ela própria esquecia uma única palavra do roteiro.

    Laura reconhecia as críticas, mas justificava sua postura dizendo que, mesmo naquela altura, depois de mais de seis décadas de carreira, não se sentia confortável em afrouxar seu método de preparo.

    Laura Cardoso em cinco frases
    Laura Cardoso em cinco frases — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    "É meio doloroso, viu? Eu fico muito mal quando vou construir um personagem. Fico no escuro, como se estivesse num breu, aí eu vou lendo, pensando, pesquisando e, aos poucos, vou vendo meu personagem, vendo como é a cara, o corpo", ela explicou.

    "As pessoas dizem: 'Não precisa tanto'. Mas, para mim, precisa, senão vou me sentir insegura. Preciso de tempo para pensar, para ler, para decorar, para tudo."

    Filha de imigrantes portugueses, Laurinda de Jesus Cardoso Balleroni nasceu em 13 de setembro de 1927, em São Paulo, e começou a brincar de representar ainda criança.

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Aos seis anos, ela e uma amiga vestiam as roupas das mães e encenavam teatrinhos na rua. Aos 15, contrariando a resistência dos pais, decidiu tentar a sorte no rádio.

    Em 1942, fez um teste na Rádio São Paulo, mas não chegou a trabalhar na emissora. No mesmo ano, porém, foi à Rádio Cosmos, onde acabou aprovada para atuar em radionovelas.

    "Quase morri de alegria. Comecei assim: fugindo para fazer um teste para trabalhar na rádio", contou a atriz ao documentário "Tributo - Laura Cardoso", produzido pelo Globoplay.

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    Isso aconteceu em uma época em que tudo era feito ao vivo, sem a possibilidade de acumular cortes e regravações até que o trabalho ficasse bom. Além disso, sem a imagem, os atores precisavam construir os personagens pela voz, o que exigia domínio absoluto do texto.

    Foi no rádio, portanto, que a atriz começou a desenvolver a disciplina que marcaria sua carreira. Deu certo: depois de passar por diferentes emissoras ao longo de uma década, ela chegou à televisão em 1952, na TV Tupi, que havia sido inaugurada dois anos antes.

    Estreou em "Tribunal do Coração" —um programa de júri dramatizado e interativo, baseado em histórias enviadas pelos espectadores—, mas para conquistar espaço precisou insistir.

    Estante de madeira escura com uma prateleira contendo 22 livros alinhados, com lombadas coloridas em tons de amarelo, vermelho, azul, verde, preto e branco. Os livros estão organizados principalmente na vertical, exceto cinco empilhados hor
    Estante de madeira escura com uma prateleira contendo 22 livros alinhados, com lombadas coloridas em tons de amarelo, vermelho, azul, verde, preto e branco. Os livros estão organizados principalmente na vertical, exceto cinco empilhados hor — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    "Eu passava pela Vida Alves e dizia: 'Me escala'. Passava pelo Cassiano Gabus Mendes e dizia: 'Me deixa fazer uma vez; se não gostar, não faço mais'", contou Cardoso ao programa Persona em Foco, da TV Cultura, em 2015, lembrando diretores fundamentais da televisão brasileira.

    Aquela ainda era, vale lembrar, uma televisão em que o erro tinha outro peso. O videotape, como era chamada a fita magnética usada para gravar os programas, só chegou ao Brasil no fim dos anos 1950. Cardoso, portanto, passou quase uma década fazendo televisão ao vivo.

    Quando chegou ao teatro , já trazia toda essa experiência. Sua estreia nos palcos foi em 1959, em Plantão 21, de Sidney Kingsley, sob direção de Antunes Filho. Ambientada em uma delegacia de polícia de Nova York, a peça reunia cerca de 40 atores e exigia um trabalho de conjunto intenso.

    "Passávamos 10, 12 horas dentro do teatro, onde ensaiávamos, ouvíamos palestras e exercitávamos nossa expressão corporal", lembrou a atriz em entrevista aos organizadores da mostra no Itaú Cultural.

    Hoje, contadas à nova geração de atores, a quem Cardoso não poupava críticas, essas histórias podem parecer causos de outro mundo. Mas ajudam a entender a formação da atriz que seria reconhecida como uma das maiores intérpretes do país.

    Cardoso deixa duas filhas, três netos e um bisneto. Seu velório acontece nesta terça-feira (18) até as 14h em São Paulo.

    Esta reportagem foi publicada originalmente aqui

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2026/08/o-metodo-doloroso-de-atuacao-de-laura-cardoso-que-morreu-aos-98-anos-sem-nunca-se-aposentar.shtml.

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