O melhor vinho do mundo é aquele que você abre na sexta-feira
Passei décadas ouvindo no rádio o mantra de que " vinho bom é aquele de que você gosta" e, durante muitos anos, acreditei. Mas, hoje, vejo que a verdade está em outro lugar: vinho bom é aquele que você abre na sexta-feira à noite. É aquele que marca o fim do expediente, da semana, das obrigações todas; o que dá as boas-vindas à promessa do fim de semana, o que relaxa o corpo e leva a cabeça para outro lugar. Leia mais (08/28/2026 - 13h55)

Jornalista especializada em vinhos, editora executiva da revista Gama e autora da newsletter Saca Essa Rolha
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Passei décadas ouvindo no rádio o mantra de que " vinho bom é aquele de que você gosta" e, durante muitos anos, acreditei. Mas, hoje, vejo que a verdade está em outro lugar: vinho bom é aquele que você abre na sexta-feira à noite. É aquele que marca o fim do expediente, da semana, das obrigações todas; o que dá as boas-vindas à promessa do fim de semana, o que relaxa o corpo e leva a cabeça para outro lugar.
Ele é capaz de te tirar de casa, mesmo que você siga na sua cozinha, preparando o jantar. Como mãe de crianças, situação que deixa os vale-nights escassos, entendi rapidamente que o vinho da sexta à noite era um portal: viajo aos primeiros goles, ao sacar o celular para checar alguma informação sobre ele, onde é feito, o solo de onde cresce, o clima, dados históricos ou culturais.
Mesmo que não seja um vinho complexo ou caro, se casar bem com a sua comida, um sanduíche que seja, transforma os sabores e dá o clima de comida de restaurante bom. Se você tiver um acompanhante à mesa, o que seria só mais uma refeição é transformado em date. Listo, então, cinco vinhos que são dignos de um bom sextou —todos ótimos para acompanhar comida.

Na última sexta-feira, viajei a Mendoza ao provar um dos brancos refrescantes feitos lá nos últimos anos. Por eles (e outros tintos leves) é que há a conversa de uma "nova Argentina ". Produzido por irmãos que herdaram terras ao perder o pai e não sabiam o que fazer, acaba de chegar ao mercado brasileiro o Flor Silvestre Chardonnay (R$ 165 na Caves Santa Cruz), que tem nota de flor branca delicada no nariz e uma acidez cítrica na boca. Elevou meu carbonara caseiro, saído do livro da mestra Marcella Hazan, a um padrão Michelin que eu não esperava. Esmerei-me para enrolar o espaguete no prato e salpicar a salsinha para que parecesse empratado por um profissional.
Também pode ser que o vinho da sexta-feira venha em taça, em um bar. Ao dar um gole no Calcarius Arinto Bucelas Doc Branco 2024 (R$ 110 na Tanyno), da Quinta da Murta, não parecia que estava em Pinheiros, no bar Clementina. Por mais agradável que fosse o ambiente, me transportei na hora para as imediações de Lisboa , em Portugal , onde os solos são calcários, a brisa é marinha e os vinhos são minerais e muito vivazes. Acidez de fazer salivar, num vinho elegante e de bom preço.
Outro dia, um amigo chegou do Uruguai e me trouxe uma garrafa do Castel Pujol Folklore Tinto (R$ 94 na Luna Vino). Ao beber minha tacinha, foi como se eu mesma estivesse visitando Cerro Chapeu — não a trabalho, e sim de férias. Corte de 80% de tannat e 20% de petit manseng (branca), traz muita fruta vermelha fresca e é bem fluido e suculento. Com uma tábua de frios faz qualquer mesinha parecer bar bom.

Para quem sonha em ir ao Jura, na França , a boa notícia é que o J. Arnoux Arbois Nuance, com chardonnay e savagnin, entrou em promoção (R$ 233 na World Wine). Lembra castanha e traz um defumadinho gostoso, ótimo para um sanduíche com gravlax.
Por fim, para quem quer ter essa experiência e não ingerir álcool, a boa notícia é o espumante francês da Famille Febre Le Rendez Vous (R$ 217 na Peso da Régua). Chegou há pouco ao Brasil e foi o primeiro não alcoólico que provei e não me fez torcer o nariz. Ainda falta algo na estrutura (o álcool, claro), mas ele não é enjoativo. Com saladas e outros pratos leves, dá à mesa a carinha de momento especial fundamental para uma noite de sexta.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/isabelle-moreira-lima/2026/08/o-melhor-vinho-do-mundo-e-aquele-que-voce-abre-na-sexta-feira.shtml.

Detalhe de taças no bar de vinhos Clementina, em Pinheiros - Eduardo Knapp/Folhapress · Eduardo Knapp/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo
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