O mais importante é aquilo de que ninguém fala
A campanha mais desanimada desde a redemocratização começou com um debate com apenas três candidatos cujas intenções de voto somadas mal chegam a 10%. É um desrespeito ao eleitor faltar a essa oportunidade de se mostrar sob pressão. Será que Lula e Flávio faltarão a todos? Se faltarem, no entanto, isso cobrará qualquer preço nas urnas? Leia mais (08/24/2026 - 19h36)

Economista, mestre em filosofia pela USP
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A campanha mais desanimada desde a redemocratização começou com um debate com apenas três candidatos cujas intenções de voto somadas mal chegam a 10%. É um desrespeito ao eleitor faltar a essa oportunidade de se mostrar sob pressão. Será que Lula e Flávio faltarão a todos? Se faltarem, no entanto, isso cobrará qualquer preço nas urnas?
O debate não é um bom lugar para expor detalhes de propostas; não se espera grande precisão em falas improvisadas. Por ser um ambiente não controlado e de disputa, é o lugar ideal para ver as pessoas que disputam o poder emergirem, ainda que brevemente, por detrás dos personagens cuidadosamente desenhados pelas peças de campanha.
Ver cada um deles prometendo medidas mais duras contra o crime —popularíssimas— não nos diz nada e não custa nada para eles. Agora, perguntar sobre medidas impopulares que terão de tomar pode nos ensinar um pouco mais. E não há tema mais impopular, nem mais importante, que o ajuste fiscal.

A boa notícia é que não se ouvem mais as vozes que diziam que um Estado com dívida em sua própria moeda não precisa se preocupar com as contas públicas. Todo mundo repete, ao menos da boca para fora, seu compromisso com "o fiscal". A má notícia é que o tema sumiu da campanha, teve no máximo acenos genéricos dos três candidatos no debate de domingo e nada indica que Lula ou Flávio farão diferente.
Lula 3 começou com o reconhecimento da importância do equilíbrio fiscal. Derrubado o teto de gastos, que perdera credibilidade depois de sucessivos furos, implementou-se o novo arcabouço. De exceção em exceção, contudo, aproximamo-nos do fim do governo e a dívida bruta como proporção do PIB está cerca de 10 pontos percentuais acima de onde estava em 2023, batendo 81,9% em junho.
O que eu gostaria de ouvir de cada candidato é quais gastos ele vai cortar, ou quais impostos vai aumentar (espero que não) para frear o endividamento. Todos os incentivos políticos, contudo, vão na direção contrária: o candidato que primeiro mencionar algum corte relevante —seja ele qual for— será trucidado pelos demais e pela opinião pública afetada por aquele corte. Idem para aumento de impostos.
Se estivéssemos no meio de uma crise grave, o incentivo talvez mudasse. Milei se elegeu prometendo cortes duríssimos —e os entregou. Só pôde fazê-lo porque a inflação fora de controle e a miséria galopante acabaram com qualquer ilusão de que desse para continuar sem um ajuste.
O Brasil não vive uma crise dessas. Temos sinais preocupantes, mas não recessão nem inflação galopante. Gasto e crédito não sustentarão mais crescimento. O consumo já dá sinais de desaceleração, o endividamento está nas alturas, as recuperações judiciais aumentaram 65,7% desde 2023. A hora da verdade chegará, mas não antes de irmos às urnas.
Não faltou quem previsse um ajuste fiscal já em Lula 3, que não veio. Virá num possível Lula 4? E com Flávio? Ou algum outro? Podemos apenas especular, vendo sinalizações indiretas em suas falas e nas equipes que reunirem. Assim como não perdem pontos por faltar aos debates, não perderão pontos por serem vagos quanto ao ajuste. O que mais importa é aquilo de que ninguém fala.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/joel-pinheiro-da-fonseca/2026/08/o-mais-importante-e-aquilo-de-que-ninguem-fala.shtml.

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