O legado de Alexei Bueno, o poeta que fez da literatura sua profissão de fé
Há pouco mais de dois meses morreu, aos 63 anos, o poeta carioca Alexei Bueno . Li, por esses dias, o seu monumental " Poesia Completa e Traduzida", publicado pela G. Ermakoff Casa Editorial. Não é o seu livro mais recente, mas é, sobretudo, o que reúne o universo de sua produção poética das últimas quatro décadas de vida, em volume de 1.052 páginas, distribuídas por obras que vão desde "As Escadas da Torre", de 1984, a "A Noite Assediada", de 2022, essa reunindo seus poemas em prosa. Leia mais (09/02/2026 - 17h40)

Jornalista e escritor, é autor de "Carolina, uma Biografia" e do romance "Toda Fúria"
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Há pouco mais de dois meses morreu, aos 63 anos, o poeta carioca Alexei Bueno . Li, por esses dias, o seu monumental " Poesia Completa e Traduzida", publicado pela G. Ermakoff Casa Editorial. Não é o seu livro mais recente, mas é, sobretudo, o que reúne o universo de sua produção poética das últimas quatro décadas de vida, em volume de 1.052 páginas, distribuídas por obras que vão desde "As Escadas da Torre", de 1984, a "A Noite Assediada", de 2022, essa reunindo seus poemas em prosa.
Os dois livros derradeiros que recebi de Bueno foram "Naquele Remoto Agora", de 2024, e "A Chave Quebrada", que saiu em abril deste ano.
Me aproximei de Alexei Bueno no início da década de 1990, quando já era poeta afamado e conhecido por suas calorosas polêmicas, entre as quais a defesa intransigente de suas ideias, o que fez colecionar uma lista de inimigos tão grande quanto sua extensa produção literária.

Conhecedor profundo de arte e literatura , Bueno organizou a obra completa de diversos autores canônicos, especialmente para a Nova Aguilar, onde também foi editor, entre os quais Augusto dos Anjos , Cruz e Sousa , Mário de Sá-Carneiro , Olavo Bilac , Jorge de Lima , Vinicius de Moraes , Almada Negreiros , Gonçalves Dias e Álvares de Azevedo .
Em 2024, esteve envolvido nas comemorações pelo quinto centenário do nascimento de Luís de Camões , proferindo magna palestra no Real Gabinete Português de Leitura, "Camões, 500 Anos, o Tempo Acorrentado", e lançou "Camões, Além do Desconcerto", pequena relíquia de 66 páginas, certamente uma das mais belas palavras escritas sobre a vida e a obra do autor de "Os Lusíadas".
Trabalhamos juntos na Fundação Biblioteca Nacional , na gestão do professor Eduardo Portella, período em que organizamos a exposição do centenário de Cruz e Sousa, poeta simbolista negro catarinense. Para a ocasião, Bueno publicou o catálogo "Cruz e Sousa, 110 Anos de Morte – 1898-1998", tendo eu cedido algumas peças raras do meu acervo pessoal, entre imagens e objetos.

Esta parceria rendeu artigos, entre os quais a colaboração na revista "Estudos Afro-Asiáticos", de 2008, da Universidade Cândido Mendes, editada por mim.
Inventivo e laborioso, Alexei Bueno era uma personalidade múltipla, genial, algumas vezes explosiva e, por conta disso, imensamente incompreendida. Pensava e vivia como poeta —que mais lembrava os tempos passados.
Escreveu sonetos, odes e elegias. O crítico Ruy Espinheira Filho resumiu bem seu perfil disruptivo, ao dizer que o "caminho da vida, no caso de Alexei Bueno, é o caminho da poesia".
Diante da leitura de "Poesia Completa e Traduzida", volume cuidadosamente impresso, dada a sensibilidade do editor George Ermakoff, nos deparamos com um autor entregue, na totalidade, a seu ofício de escritor, pesquisador e tradutor —sua verdadeira profissão de fé.
Fizemos juntos uma viagem a João Pessoa, na Paraíba, quando lembramos da obra completa de Augusto dos Anjos, editada por ele, para a qual dedicou exaustivamente 31 anos. "Nunca parei de trabalhar", me disse. Para concluir o livro, chegou a fazer 800 páginas de prova, com cerca de 20 marcações de revisão por página, totalizando umas 16 mil marcações, como declarou.
Traduziu autores clássicos universais, como Poe, Mallarmé, Leopardi e Shakespeare —com uma versão de "O Corvo" rivalizando com a de Machado de Assis no século 19.
Perco um amigo das horas mortas nos bares da Lapa, berço da boemia tão cara a Bueno, e companheiro de conversas intermináveis sobre literatura, em que partilhávamos o mesmo incômodo com os modismos literários e com a decadência da crítica no Brasil.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/tom-farias/2026/09/o-legado-de-alexei-bueno-o-poeta-que-fez-da-literatura-sua-profissao-de-fe.shtml.

O poeta Alexei Bueno - Divulgação · Divulgação — Foto: Folha de S.Paulo
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