O jogador cresceu; Neymar, ainda continua júnior
O festival de ofensas de Neymar à árbitra Edina Alves

Advogada, escritora e dramaturga, é autora de 'Caos e Amor'
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"Você é horrorosa. Ó, eu tô falando na boa com você. Tu é muito ruim, p*rra... Boa, Edina, c***lho. Vai tomar no **, p*rra. Vai se f**er, c***lho! Dá p*rra da falta...É uma vergonha. E a Edina vem fazer isso aqui. Pô, vai se f**er."
Foi assim que Neymar teria se dirigido à árbitra Edina Alves no último domingo (23), durante a partida entre Santos e Mirassol, segundo leitura labial feita por Gabriel Velloso .
Neymar contestou a interpretação. Velloso reconheceu que leitura labial não é ciência exata. O jogador, porém, não explicou exatamente onde estaria o erro.

Torço para que Velloso tenha errado feio.
Gosto de imaginar que, em vez de "horrorosa", Neymar tivesse dito "honrosa"; que "c***lho" fosse uma leitura errada de "espantalho"; e que "vai se f**er" fosse, na verdade, um respeitosíssimo "Pai, se puder".
Teríamos julgado mal Neymar. Onde vimos grosseria, havia gentileza —e um pouco de nonsense, normal.
"Você é honrosa. Ó, eu tô falando na boa com você. Tu é muito da hora, corra. Boa, Edina, espantalho. Vai, tomate cru, corra. Pai, se puder, dá a bola da falta. É uma cegonha. E a Edina vem fazer isso aqui. Pô, vai, se puder."
Mas suponhamos o óbvio: que a leitura labial esteja essencialmente correta.
Seria mais fácil decifrar os enigmas das frases do que explicar para meu filho porque o seu ídolo tratou daquela forma uma mulher que está —bem ou mal, tanto faz— fazendo o seu trabalho.
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Palavrão em futebol não é novidade. Jogadores xingam árbitros desde que o futebol aprendeu a xingar. Quando o alvo é uma mulher, o repertório é diferente. Fico imaginando se Neymar teria agido igual se fosse Anderson Daronco, com seus 1m88 de altura e imponência.
Uma mulher que exerce autoridade num ambiente considerado masculino não entra em campo só como árbitra. Ela é quase uma impostora e tem que provar que merece estar ali. Ainda me surpreende que Edina não expulsou o jogador. Desconfio que, por ser Neymar, alguma aura de imunidade paire ao redor dele.
Não teria sido a primeira vez que o menino Ney escorregou. Em abril, irritado com o árbitro Sávio Pereira Sampaio, disse que ele tinha acordado "meio de chico". Depois uma amiga precisou explicar por que aquilo era machista.
Não acho que Neymar acorde pela manhã planejando misoginia. O problema é justamente esse: o que sai da boca sem pensar. São coisas que já estão prontas, que fazem parte de um repertório antigo, enraizado.
É nessa machosfera que certas violências sobrevivem: nas pequenas permissões e nos grandes perdões. E se reproduzem na cultura, na linguagem, nos modelos de masculinidade, na infinidade de pequenas autorizações que ensinam, desde cedo, a um menino que frustração autoriza agressividade —e que a mulher está ali para suportar.
Ao homem, o descomedimento costuma encontrar atenuantes. Se trai, é mulherengo. Se explode, é esquentado. Se humilha, foi sem intenção. Se abusa, foi provocado. À mulher, comportamentos muito menores bastam para que ela seja chamada de geniosa, louca, vulgar, desequilibrada... e horrorosa.
Neymar encarnou uma ideia muito brasileira de futebol: improviso, arte, mágica, atrevimento. Ele não é só um grande jogador, é sonho de milhares de meninos imitam seus dribles, e absorvem, junto, o que ele faz fora do campo. Não dá para separar o jogador do homem.
O jogador cresceu. Neymar, ainda continua Junior.
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Publicado originalmente por UOL. Leia a matéria completa em https://www1.folha.uol.com.br/colunas/becky-korich/2026/08/o-jogador-cresceu-neymar-ainda-continua-junior.shtml.

Árbitra Edina Alves mostra cartão amarelo para Neymar em jogo contra o Mirassol, no Estadio Urbano Caldeira, em Santos (SP) - Thiago Bernardes - 23.ago.26/Reuters · Thiago Bernardes - 23.ago.26/Reuters — Foto: UOL
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