O imponderável, as omissões, as baixezas e os azares que podem definir a eleição acirrada
distância de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para Flávio Bolsonaro (PL) ficou na mesma desde o início de setembro, praticamente desde o início da campanha em rádio e TV. Pela aritmética dos dados da ...

Jornalista, foi secretário de Redação da Folha. É mestre em administração pública pela Universidade Harvard (EUA)
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A distância de Luiz Inácio Lula da Silva ( PT ) para Flávio Bolsonaro ( PL ) ficou na mesma desde o início de setembro, praticamente desde o início da campanha em rádio e TV. Pela aritmética dos dados da pesquisa Datafolha , haveria segundo turno. Se a votação ocorresse nesta quinta, resultados diferentes desses da pesquisa dependeriam do Imponderável da Silva, primo do Sobrenatural de Almeida de Nelson Rodrigues, o responsável pelas derrotas do Fluminense (o time do escritor).
Em suma, campanha corpo a corpo, um evento digital viral ou alguma maluquice extra dos tribunais ditos superiores podem render décimos relevantes. Mais sobre isso mais adiante. O que se pode dizer com certeza é o que não será relevante, pois não vai acontecer.
Não haverá manifestos indignados, "canseis" e outras cartas santarronas contra um candidato que promete seguir as diretrizes do governo do pai, que vem a ser o capitão das trevas Jair Bolsonaro . O candidato tem como ponto forte do programa a libertação do pai, Jair, e de seus amigos de quadrilha, que organizaram uma tentativa de golpe, que contava até com uma célula de militares terroristas para matar autoridades . Se não conseguem refrescar a memória sobre o passado recentíssimo, não teriam condições de lembrar a história do filho de Jair, a ficha corrida de Flávio Bolsonaro.

Isto posto, trate-se do que ainda pode acontecer.
O Imponderável da Silva pode se encarnar na forma de abstenção em tamanho relevante para prejudicar esse ou aquele candidato. Não foi por acaso que a polícia de Jair Bolsonaro parava ônibus no Nordeste no dia da eleição de 2022.
Para quem vive em cidade com transporte público em tese regular, muita vez é difícil ir ao lugar em que se vota, pelo transtorno ou mesmo pelo dinheirinho miúdo. Imagine-se em lugares do país ainda mais abandonados do que as periferias. Muitas dessas pessoas que moram longe, muito longe, têm de andar por horas; outras têm a sorte mais duvidosa de viajar por horas de barco, pelos rios dos fundões florestais do Brasil. Sim, aqueles fundões destruídos por políticos preferidos pelos adeptos do liberalismo (com benefício fiscal) e do ajuste fiscal (no couro dos outros apenas). O resultado da eleição pode depender, de modo deplorável, também dessas pobrezas e dessas misérias, de gente que não vai votar.
Pode ser também, de novo, que eleitores camuflados se revelem no domingo da votação ou no sábado, quando sai o derradeiro Datafolha antes do primeiro turno.
A parcela do eleitorado que não vota em Lula ou Flávio é muito semelhante à da penúltima pesquisa de 2022. Mas, a esta altura da eleição, a diferença entre Lula e o candidato da extrema direita era muito maior em 2022 (mais que o dobro) . Também em 2022 a distância entre os candidatos ficou quase na mesma no mês anterior à primeira rodada de votação.
Nesta quinta-feira, o noticiário político-judiciário ficou ainda mais frenético . A esta altura da anomia e do arbítrio, não se sabe o que se pode esperar até o domingo da eleição. Espera-se que não sobrevenha alguma chicana maior, um golpe ainda mais baixo.
A isto chegamos. Ao vale-tudo. À omissão republicana, disfarçada de manifestos santarrões em "defesa das instituições". Não houve debate político , que dirá de alguma ideia do que fazer deste país que, como se vê por esta eleição e muito mais, já não deu certo.
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Publicado originalmente por UOL. Leia a matéria completa em https://www1.folha.uol.com.br/colunas/viniciustorres/2026/10/o-imponderavel-as-omissoes-as-baixezas-e-os-azares-que-podem-definir-a-eleicao-acirrada.shtml.

Lula e Flávio Bolsonaro durante eventos de campanha em Belo Horizonte - Douglas Magno e Gledston Tavares - 21.ago.26 e 17.ago.26/AFP · Douglas Magno e Gledston Tavares - 21.ago.26 e 17.ago.26/AFP — Foto: UOL
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