O futebol veio antes das bets
Na última quinta-feira (17), clubes de futebol , entre eles os maiores da Série A, publicaram um manifesto contra a medida provisória que o governo prepara para proibir jogos online e restringir as apostas esportivas . O título já dá o tom: "O fim do futebol brasileiro". Celebridades e influenciadores patrocinados por casas de apostas engrossaram o coro nas redes. O recado é o mesmo em todas as vozes pagas. Sem as bets, quem acaba é o futebol. Leia mais (09/22/2026 - 08h00)

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Antropólogo da tecnologia e professor na Universidade da Virginia (EUA)
Na última quinta-feira (17), clubes de futebol , entre eles os maiores da Série A, publicaram um manifesto contra a medida provisória que o governo prepara para proibir jogos online e restringir as apostas esportivas . O título já dá o tom: "O fim do futebol brasileiro". Celebridades e influenciadores patrocinados por casas de apostas engrossaram o coro nas redes. O recado é o mesmo em todas as vozes pagas. Sem as bets, quem acaba é o futebol.
O futebol brasileiro tem mais de um século, cinco Copas do Mundo, uma coleção de Libertadores e Mundiais de Clubes e uma linhagem que vai de Pelé a Ronaldo. Tudo isso aconteceu muito antes de dezembro de 2018, quando a lei 13.756 legalizou as apostas de quota fixa . Há mais de cem anos, ninguém precisou de uma casa de apostas na camisa para que o jogo existisse.

Se hoje o futebol diz que não sobrevive sem as bets , o manifesto confessa mais do que pretende. Um esporte que só se sustenta com o dinheiro da aposta deixou de ser esporte e virou mais um produto de apostar, como o "tigrinho" . Escanteio, cartão, lateral e acréscimo passam a ser rodadas de um caça-níquel com gramado. As bets sabem disso há tempo. Por dentro, esporte e cassino rodam o mesmo motor, e o futebol vira o horário em que a máquina liga.
O sequestro começou por uma brecha. A legalização de 2018 veio como um penduricalho numa lei sobre um fundo de segurança pública, sem regras de fato para o mercado que criava, e, por seis anos, as bets fizeram o que quiseram. Encontraram clubes endividados e uma audiência de milhões de homens jovens, o público que a aposta mais quer. Compraram a camisa, as placas do estádio, o intervalo da transmissão e o próprio nome do Brasileirão. Quando a regulação chegou, em 2025, a aposta já estava dentro do jogo.
É assim que o refém passa a defender o sequestrador. Estima-se em R$ 1 bilhão por ano o que as bets pagam aos clubes da Série A, e o manifesto admite que, para muitos clubes, não existe hoje outro setor capaz de substituir esse dinheiro. Um esporte centenário entregou o orçamento a um único tipo de anunciante e agora avisa que morre se ele sair. A dependência que os clubes apresentam como argumento é a prova do sequestro.

O patrocínio é só o elo de cima de uma cadeia que desce até a favela, onde foco a minha pesquisa de campo . A bet paga o clube; o clube veste a marca no ídolo; a transmissão anuncia a cota no intervalo; o ex-jogador grava o comercial; a influenciadora mostra o saque no story. Mais abaixo, o afiliado do bairro divulga o link no WhatsApp e ganha por cadastro, e o vizinho que "entende de tecnologia " instala o aplicativo para os outros. Chamo isso de Infraestrutura Humana das Bets: uma cadeia em que cada elo é pago para passar a aposta adiante, e o último elo paga com o dinheiro da feira. É por ela que o cassino entra na casa com a autoridade de quem a família admira e a promessa de renda ocupa o lugar do salário.
O Pix leva o depósito em segundos; a perda vira dívida com agiota e briga em casa.
O manifesto avisa que a proibição empurrará os apostadores para plataformas clandestinas . O argumento inverte a história. Foram as bets legalizadas que criaram a cultura da aposta no Brasil, com a camisa e o influenciador ensinando o país a apostar em cada escanteio. As ilegais pegam carona nessa cultura, e quem aposta hoje aposta nas duas. Cortar a publicidade e o patrocínio ataca a fonte, e fiscalizar as clandestinas nunca dependeu de manter uma bet na camisa.

Sete em cada dez brasileiros querem as bets proibidas . Quem mais pede a proibição é quem mais aposta e mais perde. Do outro lado, assinam o manifesto os que recebem o dinheiro. "O torcedor não pode pagar essa conta", dizem os clubes. O torcedor já paga, com o dinheiro do aluguel e da feira.
O futebol veio antes das bets e ficará depois delas. A camisa aguenta ficar sem patrocinador; as famílias já não aguentam.
TENDÊNCIAS / DEBATES Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo. v

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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2026/09/o-futebol-veio-antes-das-bets.shtml.

Propaganda de sites de apostas na beira do gramado durante partida no Nubank Parque, em São Paulo - Rubens Cavallari - 9.dez.24/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo
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