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    O espectro que ronda a eleição de 2026

    Um espectro ronda a eleição presidencial de 2026. Aliás, não um, dois. O primeiro vem do escândalo dos descontos ilegais do INSS . O segundo, das investigações sobre Daniel Vorcaro e o Banco Master . Ambos continuam em desenvolvimento e já alcançaram as duas principais candidaturas. Num país em que a prova de corrupção continua a ser uma arma letal na disputa pelo Executivo, todos sabem que, a qualquer momento, um dos dois escândalos pode desferir o golpe fatal. Leia mais (08/11/2026 - 19h15)

    Folha de S.Paulo
    11 de agosto de 2026 às 22:15
    O espectro que ronda a eleição de 2026
    Ilustração em estilo geométrico, com fundo cinza texturizado e desfocado. No centro, há uma urna eletrônica, representada em azul-claro, com teclado numérico e três botões coloridos na parte inferior. De dentro e de trás da urna surgem duas — Foto: Folha de S.Paulo

    Professor titular da UFBA, doutor em filosofia e autor de “Transformações da Política na Era Digital”, “A Democracia no Mundo Digital” e “A Tirania da Virtude”

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    Ilustração de Ariel Severino para coluna de Wilson Gomes de 12 de agosto de 2026 - Ariel Severino/Folhapress · Ariel Severino/Folhapress
    Ilustração de Ariel Severino para coluna de Wilson Gomes de 12 de agosto de 2026 - Ariel Severino/Folhapress · Ariel Severino/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Um espectro ronda a eleição presidencial de 2026. Aliás, não um, dois. O primeiro vem do escândalo dos descontos ilegais do INSS . O segundo, das investigações sobre Daniel Vorcaro e o Banco Master . Ambos continuam em desenvolvimento e já alcançaram as duas principais candidaturas. Num país em que a prova de corrupção continua a ser uma arma letal na disputa pelo Executivo, todos sabem que, a qualquer momento, um dos dois escândalos pode desferir o golpe fatal.

    A circunstância torna-se especialmente explosiva porque esta não é uma eleição normal de conquistar. O país chega à disputa partido ao meio, com Lula e Flávio Bolsonaro tecnicamente empatados em levantamentos recentes de segundo turno e rejeitados por parcelas enormes do eleitorado. Numa eleição assim, o veto pode importar mais do que o voto. Na impossibilidade de ampliar o próprio eleitorado, as campanhas passam a torcer —e, quando podem, a trabalhar— para que o outro lado seja o mais rejeitado. Uma revelação devastadora de última hora, a associação ao personagem errado e a vaca vai para o brejo.

    É nesse terreno que entram os dois escândalos. O dos descontos ilegais do INSS já alcançou o entorno de Lula, com investigações envolvendo Lulinha e integrantes do governo e da campanha. O Banco Master, por sua vez, aproximou-se diretamente de Flávio Bolsonaro, que confirmou ter solicitado a Vorcaro financiamento para um filme sobre o pai. Ambos possuem ramificações que atravessam partidos e campos políticos. Para a eleição, porém, importa menos reconstituir aqui cada episódio do que perceber que os dois casos já chegaram suficientemente perto das candidaturas para permanecerem como ameaças reais até outubro.

    Os pré-candidatos à Presidência em 2026
    Os pré-candidatos à Presidência em 2026 — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Nenhum de nós, cidadãos comuns, é capaz de saber o que ainda falta aparecer, embora alimentemos a suspeita de que tem gente que não só sabe o que ignoramos como está cuidadosamente reservando coisas para revelar no momento que considerar conveniente. É este o suspense que as campanhas e os candidatos adorariam evitar e que vai tornar essa disputa presidencial tensa até o último minuto.

    Ocorre que, na política digital contemporânea, aquilo que não apareceu também circula. Basta alguém anunciar que viu um vídeo, ouviu um áudio ou conhece mensagens comprometedoras para que um conteúdo ainda inexistente para o público comece a produzir efeitos políticos reais. Foi o que ocorreu com boatos sobre gravações das festas de Vorcaro. Planta-se a promessa de que há registro de malfeitos para que se gerem cortes, comentários, buscas, memes, acusações e desmentidos, o que obriga o alvo a responder a uma prova que ninguém pode sequer examinar. Agora imaginem isso num debate ou na propaganda eleitoral.

    Há, depois, a questão do timing. Uma revelação verdadeira divulgada a dois dias da votação pode ser eleitoralmente tão difícil de desmentir de forma convincente quanto uma falsificação. A campanha atingida terá poucas horas para responder. O jornalismo terá poucas horas para verificar contexto, origem e autenticidade. Notem, além disso, que 2026 é a primeira eleição presidencial brasileira realizada sob condições de inteligência artificial generativa madura, em que fabricar áudio, imagem, vídeo, documentos visuais e dezenas de versões adaptadas da mesma acusação se tornou muito mais barato e rápido. Na era do sintético, o desmentido pode chegar quando a urna já estiver fechada.

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Existe, ainda, o carimbo institucional. Uma busca da Polícia Federal , a abertura de um inquérito pelo Supremo, um indiciamento ou um relatório de quebra de sigilo têm natureza e peso jurídicos muito diferentes. Na arena eleitoral, porém, essas distinções tendem a desaparecer. PF e STF não fazem campanha quando cumprem suas funções, mas o que ocorrer nesta seara de agora até outubro, queiram ou não as autoridades, entra imediatamente na campanha. E, se trechos de investigações, mensagens ou depoimentos continuarem sendo vazados seletivamente e revelados deliberadamente em momentos-chave da corrida eleitoral, o efeito sobre uma candidatura pode ser decisivo.

    Nada disso significa que os escândalos do INSS e do Master decidirão a eleição, mas, sim, que ambos permanecerão como reservas de imprevisibilidade até o fim. Significa também que um vídeo, um print ou um áudio com uma revelação decisiva de última hora, se viralizar, pode ser o empurrão que basta para destruir uma campanha inteira. Por enquanto, os dois espectros rondam como uma ameaça à eleição, mas, até outubro, não será surpresa se um deles acabar abatendo uma candidatura.

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/wilson-gomes/2026/08/o-espectro-que-ronda-a-eleicao-de-2026.shtml.

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