O duelo do imaginário na política volta às urnas
O resultado da eleição presidencial de 2026 deixará lições muito claras, seja qual for vencedor: as feridas na sociedade serão aprofundadas e os duelos do cotidiano tendem a ser mais virulentos. Parte significativa da população não quer participar desta discussão e está desalentada. Por isso, mais de 33 milhões de brasileiros se abstiveram de votar . Leia mais (10/14/2026 - 16h12)

Expressa as ideias do autor e defende sua interpretação dos fatos
Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.
Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.

Jornalista, é doutor em filosofia política (PUC- SP) e pós-graduado em economia (Unicamp)
O resultado da eleição presidencial de 2026 deixará lições muito claras, seja qual for vencedor: as feridas na sociedade serão aprofundadas e os duelos do cotidiano tendem a ser mais virulentos. Parte significativa da população não quer participar desta discussão e está desalentada. Por isso, mais de 33 milhões de brasileiros se abstiveram de votar .
É preocupante, mas são eles que podem decidir quem será o futuro líder da República.

Há eleições que terminam com o voto. Esta, não. O Brasil chega a uma década de disputas que não foram resolvidas nas urnas porque, antes de serem políticas, foram disputas pelo imaginário. O que estará em jogo não é apenas a escolha de representantes. É também a permanência, a transformação ou a superação de imagens, medos, ressentimentos, esperanças e certezas que foram se sedimentando na mente dos brasileiros.
É esse o sentido do duelo do imaginário na política.
A expressão, inspirada no filósofo Cornelius Castoriadis , parte de uma constatação simples: ninguém chega à cabine de votação vazio. Cada eleitor carrega consigo uma história. O voto não é apenas racional. O imaginário antecede muitas vezes a explicação que damos para a nossa própria escolha.

Por isso, é preciso perguntar o que os eleitores imaginam.
A advertência de Tom Zé continua extraordinariamente atual. Em 2012, antes das grandes manifestações de 2013, o artista lançou "Não Tenha Ódio no Verão". A música capturava algo que ainda não estava completamente visível: o ódio como força política. A arte percebeu esse movimento antes de boa parte da política. A canção tornou-se a fotografia antecipada de uma sociedade que entraria em combustão. O ódio não ficou restrito às ruas. Entrou nas famílias, nas redes sociais, nas igrejas, nos ambientes de trabalho e, finalmente, nas instituições.
A partir daí, a política descobriu uma matéria-prima poderosa: o ódio.

O reacionarismo, nos duelos, não pertence exclusivamente à direita. Essa é uma das questões incômodas do imaginário. Existe reacionarismo quando setores da direita tentam transformar costumes, religião ou identidade em instrumentos de exclusão. Mas também existe quando setores da esquerda transformam suas próprias verdades em dogmas e perdem a capacidade de reconhecer as mudanças da sociedade. Um lado pode querer conservar o passado; o outro pode conservar suas próprias fórmulas. Em ambos os casos, o resultado é parecido, a política que deixa de escutar.
Também não é possível retirar a economia desse duelo. A experiência brasileira mostra que a economia, sozinha, não explica tudo. Pessoas podem tomar decisões políticas que aparentemente contradizem seus interesses econômicos porque outros elementos simbólicos pesam mais. É nesse ponto que a chamada "mão invisível" do mercado encontra sua versão mais concreta. O mercado produz valores, expectativas e narrativas sobre sucesso, fracasso, mérito, pobreza, riqueza e liberdade. E essas narrativas podem se transformar em convicções políticas.
É por isso que toda eleição merece ser observada para além da disputa entre candidatos. O que interessa, intelectualmente, é compreender quais imagens do Brasil estarão presentes no momento do voto. O país que teme a mudança? O país que deseja vingança? O país que deseja preservar costumes? Ou, ainda, um país cansado de escolher entre extremos imaginários que muitas vezes escondem problemas concretos?
As redes sociais transformaram cada eleitor em potencial produtor, distribuidor e receptor de narrativas. A mentira é ferramenta eficaz para confirmar aquilo que alguém já desejava acreditar. Combater uma narrativa com fatos é insuficiente. É preciso compreender o imaginário que reproduz aquela narrativa.
A eleição pode mudar nomes, partidos e governos. Mas nenhum resultado eleitoral, por si só, dissolve os imaginários que sustentam uma sociedade. Eles permanecem.
Por isso, o duelo continuará depois das eleições.
E, talvez, a pergunta mais importante não seja quem venceu a eleição, mas qual imaginário venceu dentro de nós. TENDÊNCIAS / DEBATES Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.
Você já conhece as vantagens de ser assinante da Folha? Além de ter acesso a reportagens e colunas, você conta com newsletters exclusivas ( conheça aqui ). Também pode baixar nosso aplicativo gratuito na Apple Store ou na Google Play para receber alertas das principais notícias do dia. A sua assinatura nos ajuda a fazer um jornalismo independente e de qualidade. Obrigado!
Mais de 180 reportagens e análises publicadas a cada dia. Um time com mais de 200 colunistas e blogueiros. Um jornalismo profissional que fiscaliza o poder público, veicula notícias proveitosas e inspiradoras, faz contraponto à intolerância das redes sociais e traça uma linha clara entre verdade e mentira. Quanto custa ajudar a produzir esse conteúdo?
Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.
Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2026/10/o-duelo-do-imaginario-na-politica-volta-as-urnas.shtml.

Ilustração de Carvall - Folhapress · Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo
Compartilhe
Espalhe essa notícia

