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    O discurso antissistema sobre o Supremo

    O caso do Banco Master oferece ao bolsonarismo algo que o 8 de janeiro havia enfraquecido: a possibilidade de voltar a atacar o Supremo Tribunal Federal (STF) sob nova legitimidade. As relações de Daniel Vorcaro com integrantes da corte permitem substituir a defesa da ruptura pela acusação de corrupção do sistema. O ministro André Mendonça realiza essa passagem. Indicado por Jair Bolsonaro , fala de dentro do tribunal e empresta autoridade judicial à ofensiva que interessa à candidatura de Flávio Bolsonaro ( PL ). Leia mais (09/02/2026 - 14h52)

    Folha de S.Paulo
    2 de setembro de 2026 às 17:52
    O discurso antissistema sobre o Supremo
    Foto: Folha de S.Paulo

    Expressa as ideias do autor e defende sua interpretação dos fatos​

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    Os ministros do STF Alexandre de Moraes e André Mendonça - Gabriela Biló - 25.set.24/Folhapress
    Os ministros do STF Alexandre de Moraes e André Mendonça - Gabriela Biló - 25.set.24/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Professor de direito público e especialista em direito constitucional

    O caso do Banco Master oferece ao bolsonarismo algo que o 8 de janeiro havia enfraquecido: a possibilidade de voltar a atacar o Supremo Tribunal Federal (STF) sob nova legitimidade. As relações de Daniel Vorcaro com integrantes da corte permitem substituir a defesa da ruptura pela acusação de corrupção do sistema. O ministro André Mendonça realiza essa passagem. Indicado por Jair Bolsonaro , fala de dentro do tribunal e empresta autoridade judicial à ofensiva que interessa à candidatura de Flávio Bolsonaro ( PL ).

    Sua função política decorre sobretudo do controle sobre o ritmo do escândalo. Ao assumir a relatoria, Mendonça reduziu sigilos, cobrou velocidade da Polícia Federal e concentrou no gabinete novas frentes de investigação. Diante das mensagens atribuídas a Alexandre de Moraes , convocou reunião de surpresa, exigiu relatório específico e defendeu a discussão pública no plenário, mesmo sob questionamentos da PGR e da PF. Escolhe quais fatos ingressam na esfera pública, quando aparecem e com que intensidade.

    Filme 'Dark Horse', sobre a eleição de Jair Bolsonaro
    Filme 'Dark Horse', sobre a eleição de Jair Bolsonaro — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Os elementos envolvendo Moraes são graves e precisam ser apurados. Isso não torna neutra a forma como Mendonça os administra. Ao colocar Moraes no centro político do Master, o relator oferece ao bolsonarismo seu antagonista ideal: o ministro associado aos inquéritos sobre desinformação, à condenação de Jair Bolsonaro e à reação ao golpismo. A suspeita individual é convertida em prova retórica de que todo o STF seria parcial e orientado contra a direita. A crítica das ruas bolsonaristas passa a ser autenticada por um integrante da corte.

    A operação se torna eleitoral pela assimetria. Enquanto os capítulos relativos a Moraes e Lulinha avançam sob pressão, vazamentos e cobranças públicas, " Dark Horse " permanece sob sigilo. Nesse inquérito, Flávio aparece negociando com Vorcaro recursos milionários para um filme destinado a reconstruir a imagem heroica do pai. Há áudios, transferências e dúvidas sobre o destino do dinheiro, mas o caso não recebe a mesma urgência pública. Para os adversários, transparência e aceleração; para o aliado, investigação fechada e tempo processual.

    Essa diferença inverte o sentido do escândalo. O Master poderia revelar como Vorcaro comprava acesso em campos diversos, financiando escritórios influentes, relações governistas e projetos bolsonaristas. Sob Mendonça, o banqueiro passa a servir como testemunha contra o "sistema": Moraes simboliza a corte capturada; Paulo Gonet e a direção da PF aparecem como rede de proteção; Lulinha liga o enredo ao governo. O vínculo de Flávio com Vorcaro sai do enquadramento. O candidato deixa de integrar o circuito de poder e reaparece como vítima das instituições.

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    Trata-se de uma antijuristocracia seletiva. O bolsonarismo denuncia o poder excessivo dos juízes quando esse poder o limita, mas o celebra quando um magistrado fragiliza seus adversários. Mendonça transforma a discricionariedade do relator em instrumento de contestação interna ao STF. O paralelo com Sergio Moro está nesse governo judicial do tempo. A Lava Jato interveio na política controlando a sequência das operações e a publicidade das provas. A repercussão antecedia o contraditório e produzia uma realidade que decisões posteriores já não desfaziam.

    Flávio é o principal beneficiário. Sua candidatura precisa conservar a identidade antissistema do pai, embora represente uma família que governou, ocupou as instituições e negociou com o banqueiro que agora acusa. Mendonça resolve a contradição: contém o caso que associa Flávio ao dinheiro de Vorcaro e oferece máxima visibilidade aos fatos que comprometem Moraes, a PGR, a PF e o entorno de Lula . A vulnerabilidade do candidato é guardada; a dos adversários se transforma em espetáculo. O processo deixa de investigar a conjuntura e passa a produzi-la.

    Não há prova pública de coordenação clandestina entre Mendonça e a campanha, mas a hipótese relevante não depende disso. O favorecimento está na função objetiva de suas escolhas: publicidade para o que compromete o adversário, sigilo para o que desgasta Flávio e aceleração sincronizada com a eleição. Em nome da transparência, concentra-se poder; em nome da responsabilização, distribuem-se custos eleitorais de forma desigual.

    ilustração de Daniel Bueno para as páginas do projeto editorial da Folha
    ilustração de Daniel Bueno para as páginas do projeto editorial da Folha — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Mendonça fornece ao bolsonarismo a infraestrutura jurídica para converter suspeitas reais em narrativa geral de perseguição. Tornou novamente rentável atacar o STF —e fez de Flávio o beneficiário desse ataque.

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2026/09/o-discurso-antissistema-sobre-o-supremo.shtml.

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    Os ministros do STF Alexandre de Moraes e André Mendonça - Gabriela Biló - 25.set.24/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo

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