O diploma deve ser obrigatório para o exercício da profissão de jornalista? NÃO
O diploma obrigatório para jornalistas foi instituído em 1969 , durante a ditadura militar , e derrubado pelo Supremo Tribunal Federal ( STF ) em 2009, por 8 votos a 1. O fim da exigência não colapsou nem enfraqueceu os cursos de jornalismo -nem o próprio jornalismo: aboliu uma reserva de mercado baseada na credencial profissional e reconheceu o jornalismo cidadão. Leia mais (08/21/2026 - 22h00)

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Professora e pesquisadora do Programa da Pós-Graduação em Comunicação da UFRJ e pró-reitora de extensão; autora de ‘Mídia-Multidão: Estéticas da Comunicação e Biopolíticas’ (ed. Mauad X)
O diploma obrigatório para jornalistas foi instituído em 1969 , durante a ditadura militar , e derrubado pelo Supremo Tribunal Federal ( STF ) em 2009, por 8 votos a 1. O fim da exigência não colapsou nem enfraqueceu os cursos de jornalismo —nem o próprio jornalismo: aboliu uma reserva de mercado baseada na credencial profissional e reconheceu o jornalismo cidadão.
Defender o fim da obrigatoriedade nunca significou defender jornalistas sem formação . Ao contrário: o diploma vale pela formação que oferece, não pelo privilégio jurídico que concede.

Em uma época de conteúdos manipulados e falta de apuração, devemos tratar a formação profissional como parte da solução
Com o fim da exigência, o que vimos definhar foram os cursos ruins, que viviam de emitir diplomas. Cursos de excelência, como o da UFRJ, continuaram concorridos ao oferecer não apenas técnicas de apuração e investigação jornalística, mas ética, pensamento crítico e humanista e uma ampla educação midiática para o século 21.
Esse foi o primeiro erro: apostar no colapso dos cursos de jornalismo com o fim do diploma obrigatório. O segundo seria ressuscitá-lo como resposta às fake news , errando ao mesmo tempo o diagnóstico e o remédio.

A epidemia de desinformação não nasce do fim do diploma , em 2009, mas do capitalismo de plataforma, que transformou fake news em modelo de negócio, monetizando engajamento, manipulando crenças com publicidade comportamental, usando algoritmos de recomendação e, agora, IA generativa.
A desinformação é um problema do ecossistema informacional. O diploma regula a entrada na profissão de jornalista e não vai impactar nem diminuir a circulação de fake news.
Quem dissemina notícias falsas pode ser um político, influencer, perfil anônimo, robô ou rede coordenada, e continuaria publicando no WhatsApp, TikTok, YouTube, Facebook ou Instagram sem jamais pretender ser jornalista. Restaurar o diploma não alcançaria praticamente nenhum desses agentes. Seria fiscalizar a carteira profissional de uma categoria enquanto algoritmos decidem o que bilhões de pessoas veem, compartilham e acreditam.

É aí que a discussão deveria estar. Como responsabilizar plataformas que lucram com a desinformação? Como tornar transparente a dieta a que os algoritmos nos submetem? Como formar jornalistas para qualificar a produção automatizada de notícias? Como proteger trabalhadores da comunicação da precarização e da automação predatória? Como financiar investigação, jornalismo local e checagem?
Essas são perguntas do século 21. Restaurar o diploma não mitigaria a desinformação nem os crimes digitais contra reputações, que exigem responsabilização jurídica ágil em um sistema analógico de justiça.
As viúvas de Gutenberg choram para restaurar um anacronismo. Se o diploma obrigatório voltasse, iríamos restringir a atuação de comunicadores indígenas, mídias periféricas e redes comunitárias que produzem jornalismo cidadão?

Como não reconhecer como prática jornalística a produção de redes descentralizadas e coletivas como a Mídia Ninja (Narrativas Independentes, Jornalismo e Ação), que impactou o jornalismo tradicional ao produzir apuração, notícias e opinião mescladas em transmissões em tempo real no meio das multidões e manifestações de junho de 2013?
Exigiríamos que uma liderança indígena, um pesquisador, um documentarista ou um comunicador de favela obtivesse um diploma para entrevistar, investigar e reportar seu próprio território?
O jornalismo não será salvo decidindo quem pode entrar nele. O que faz diferença é criar mecanismos para checar e validar a qualidade e a integridade da informação, penalizar a produção deliberada de fake news e enfrentar os negócios que lucram com a desinformação.

Precisamos de mais formação universitária, mais cursos de extensão, mais formação massiva e cidadã para o cognitariado e o precariado da comunicação e mecanismos jurídicos eficazes para enfrentar as novas máquinas e os algoritmos que passaram a organizar a circulação social das notícias e narrativas.
Em uma época em que uma inteligência artificial generativa sem diploma pode produzir milhares de textos por minuto, a solução para a crise de desinformação certamente não será impedir que seres humanos sem diploma façam jornalismo.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2026/08/o-diploma-deve-ser-obrigatorio-para-o-exercicio-da-profissao-de-jornalista-nao.shtml.

O jornalista Rene Silva, que fundou o periódico Voz das Comunidades aos 11 anos; jornal, que completou 21 anos de existência, começou no Complexo do Alemão e hoje, além de também ser um portal de notícias, é distribuído em várias favelas do — Foto: Folha de S.Paulo
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