O diploma ainda basta?
Há uma transformação silenciosa em curso. O mercado, cansado de esperar que a universidade entregue profissionais preparados para seus desafios, passou a formar a mão de obra de que precisa. Leia mais (10/12/2026 - 22h00)

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Advogado, é mestre e doutor em direito (PUC-SP), pesquisador ado CNPq e diretor da Faculdade de Direito da Universidade Presbiteriana Mackenzie
Advogado, é mestre e doutorando em direito (Mackenzie); sócio de Gordilho Napolitano Advogados
Há uma transformação silenciosa em curso. O mercado, cansado de esperar que a universidade entregue profissionais preparados para seus desafios, passou a formar a mão de obra de que precisa.

Não se trata apenas de treinamentos internos. Crescem ecossistemas corporativos de formação , com certificações, academias digitais, "bootcamps" e programas de requalificação voltados ao mercado de trabalho .
Google, Microsoft e IBM oferecem certificações em tecnologia e dados, muitas delas sem diploma. No Brasil, o Mercado Livre vincula contratações ao IT Bootcamp, enquanto as Apple Developer Academies formam estudantes em parceria com universidades.
O movimento já alcança a graduação. O MEC autorizou o grupo J&F a criar uma faculdade em áreas estratégicas para seus negócios. XP e Inteli também disputam espaço com cursos reconhecidos pelo ministério. O sucesso da Faculdade Israelita Albert Einstein mostra que instituições ligadas ao setor privado podem conquistar prestígio acadêmico.

A fronteira entre mercado e academia tornou-se permeável. A Brasil Terminal Portuário formou quase cem profissionais por meio de sua universidade corporativa. Quando empresas estruturam a própria formação, o protagonismo histórico das instituições de ensino superior sofre um abalo.
A questão é saber o que restará da universidade se formação prática, certificação e atualização profissional forem oferecidas com mais velocidade pelo mercado.
Durante décadas, a universidade ocupou posição central na organização do conhecimento. Hoje, empresas identificam competências, desenham cursos, contratam especialistas, certificam e conectam alunos ao emprego. Muitas universidades ainda operam com semestres, grades rígidas e estruturas lentas. Segundo o Censo da Educação Superior de 2024, a rede privada concentra quase 80% das matrículas de graduação. Perder relevância terá consequências financeiras e acadêmicas.

O risco alcança os professores. Se corporações remuneram melhor especialistas em áreas estratégicas, as instituições perdem atratividade para docentes e profissionais de fronteira. O professor não pode continuar sendo tratado apenas como hora-aula.
A universidade, porém, não deve competir com o mercado, imitando-o. Sua missão inclui pensamento crítico, ciência, responsabilidade pública, densidade ética e compreensão histórica. Forma profissionais capazes não apenas de ocupar postos de trabalho, mas de transformá-los.
Essa missão não autoriza imobilismo. É preciso ampliar formação continuada, certificações curtas, projetos aplicados, laboratórios de inovação, pesquisa financiada e integração com empresas, governos e sociedade civil. Empregabilidade e formação humanística podem caminhar juntas.
Aproximar-se do setor produtivo não significa renunciar à autonomia. Isolamento não é independência. Uma universidade isolada não é mais livre, apenas menos relevante.
O mercado forma pessoas. A questão é se a universidade brasileira continuará sendo o lugar em que conhecimento, trabalho, ciência, cultura e desenvolvimento se encontram. Sem uma resposta, poderá ser substituída aos poucos por atores mais ágeis e atentos ao futuro.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2026/10/o-diploma-ainda-basta.shtml.

Wellington Luiz Santos, aluno frequente de cursos da educação corporativa, na biblioteca da Unidon (Centro Universitário Don Domenico), na Vila Maia, Guarujá (SP) - Lucas Seixas - 21.jul.26/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo
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