O dilema das inovações em saúde
Quando os números apareceram no telão do congresso da Sociedade Americana de Oncologia, em 2026, a plateia de especialistas fez o que raramente faz: levantou-se para aplaudir. O motivo era um inimigo conhecido e duro de derrotar. O câncer de pâncreas acabava de recuar diante de um novo remédio. O daraxonrasib dobrou o tempo de vida em pacientes com doença avançada que já haviam falhado a outros tratamentos. Em uma área marcada por décadas de avanços pequenos, ganhar meses de vida é ganhar muito. Havia, de fato, o que comemorar. Leia mais (08/26/2026 - 22h00)

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Coordenador da cirurgia plástica reparadora do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo
Professor livre-docente pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo
Quando os números apareceram no telão do congresso da Sociedade Americana de Oncologia, em 2026, a plateia de especialistas fez o que raramente faz: levantou-se para aplaudir. O motivo era um inimigo conhecido e duro de derrotar. O câncer de pâncreas acabava de recuar diante de um novo remédio. O daraxonrasib dobrou o tempo de vida em pacientes com doença avançada que já haviam falhado a outros tratamentos. Em uma área marcada por décadas de avanços pequenos, ganhar meses de vida é ganhar muito. Havia, de fato, o que comemorar.

Passada a emoção, vem o incômodo. Entre o anúncio triunfal em um palco internacional e a prateleira de uma farmácia do SUS , há um percurso longo e cheio de obstáculos: registros em agências reguladoras, avaliação de incorporação, compra pública e distribuição. Esse caminho costuma ser medido não em semanas, mas em anos ou décadas.
Enquanto a engrenagem gira, a novidade tende a ficar restrita a quem pode pagar. E aí mora a contradição que assombra a medicina atual: a ideia que a inovação que mais entusiasma é, com frequência, a que menos chega à maioria. A ciência avança; o paciente, muitas vezes, espera. O progresso só se completa quando atravessa o muro do acesso .
Entretanto, existe aqui um mal-entendido a desfazer. Quando se fala em inovação em saúde , a imaginação corre para o glamour: terapias-alvo, robôs cirúrgicos , supercomputadores e remédios de preço astronômico. Tudo isso importa —mas é apenas a ponta do iceberg. Inovar é, antes de mais nada, criar valor para o cuidado das pessoas. E isso acontece tanto no laboratório de ponta quanto no balcão da unidade básica. Tornar um processo mais ágil, encurtar uma fila, organizar o atendimento, levar informação a quem nunca a teve: nada disso vira manchete, mas costuma beneficiar milhões de uma só vez. Às vezes, a inovação mais barata é a que muda mais vidas.

Em um país de dimensões continentais, com especialistas concentrados nas grandes cidades, a telemedicina virou ponte. Um município remoto, sem cardiologista fixo, passa a contar com laudos e segundas opiniões emitidos a distância, em tempo real. A inovação, aqui, não é uma molécula: é a engenharia que aproxima o doente do conhecimento médico.
O exemplo mais dramático é o diagnóstico de infarto a distância. Pela telecardiologia, o eletrocardiograma feito numa unidade básica é transmitido para um especialista em uma central remota, permitindo flagrar um infarto agudo e disparar a conduta certa. Numa emergência em que cada minuto pesa, há registros de quedas expressivas na mortalidade onde esses sistemas foram implantados. Custo baixo, retorno altíssimo.
E há a aposta no prontuário eletrônico único. A Rede Nacional de Dados em Saúde e o aplicativo Meu SUS Digital tentam costurar o histórico de cada cidadão entre os serviços públicos e privados. Bem implementada, a integração evita exames repetidos, reduz desperdícios e dá ao médico uma visão completa do paciente. Não é um milagre de bula; é uma mudança na espinha dorsal do sistema.
Os dois mundos, o do remédio revolucionário e o da plataforma que conecta o interior, não disputam o mesmo lugar. São complementares. Um empurra a fronteira do que se pode curar; o outro espalha o que já se sabe fazer. O risco é deixar que o brilho do primeiro ofusque a importância do segundo.
No fim, a inovação ideal é a que faz as duas coisas ao mesmo tempo: melhora o cuidado do paciente e, ainda assim, alcança a todos. De que serve dobrar a sobrevida se o tratamento fica fora do alcance da maioria? E de que serve um sistema universal que não entrega qualidade real? O verdadeiro progresso começa quando excelência e equidade deixam de ser escolhas excludentes e passam a caminhar juntas. Esse é, talvez, o maior desafio, e mais nobre objetivo, da saúde do nosso tempo.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2026/08/o-dilema-das-inovacoes-em-saude.shtml.

Médico atende paciente por meio de telemedicina em UPA em Itaquera (SP) 22.jun.23 - Zanone Fraissat/Folhapress · Zanone Fraissat/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo
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