Brasil

    O dia em que Deus deitou no divã de Augusto Cury

    Augusto Cury , candidato a presidente, escreveu cinco livros sobre Jesus . De início, o autor afirma que sua intenção é estudar o personagem sob a ótica da ciência , valendo-se especialmente da psiquiatria e da psicologia. Entretanto, o que se observa ao longo das obras é uma leitura eminentemente religiosa, em que passagens bíblicas são revestidas de termos científicos como mero recurso retórico. Leia mais (09/10/2026 - 07h00)

    Folha de S.Paulo
    10 de setembro de 2026 às 10:00
    O dia em que Deus deitou no divã de Augusto Cury
    Homem de meia-idade com óculos e camisa azul clara fala ao microfone e aponta com o braço estendido. Ele veste camiseta branca com texto verde parcialmente visível. Pessoas estão ao fundo em ambiente coberto. — Foto: Folha de S.Paulo

    Expressa as ideias do autor e defende sua interpretação dos fatos​

    Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.

    Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.

    Augusto Cury discursa em comício em Copacabana, no Rio de Janeiro, no dia 7 de setembro - Tercio Teixeira - 7.set.26/AFP · Tercio Teixeira - 7.set.26/AFP
    Augusto Cury discursa em comício em Copacabana, no Rio de Janeiro, no dia 7 de setembro - Tercio Teixeira - 7.set.26/AFP · Tercio Teixeira - 7.set.26/AFP — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    É doutor em sociologia pela USP e fundador do Mapa Centrante

    Augusto Cury , candidato a presidente, escreveu cinco livros sobre Jesus . De início, o autor afirma que sua intenção é estudar o personagem sob a ótica da ciência , valendo-se especialmente da psiquiatria e da psicologia. Entretanto, o que se observa ao longo das obras é uma leitura eminentemente religiosa, em que passagens bíblicas são revestidas de termos científicos como mero recurso retórico.

    Qual é o retrato de Jesus que emerge nos livros de Cury? Ao longo da série, o autor examina livremente passagens da vida de Cristo. Os episódios narrados nos evangelhos são comentados de forma arbitrária e constantemente conectados aos conceitos psicológicos criados pelo próprio Cury em obras anteriores.

    Imagem da matéria
    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Nesse processo interpretativo, contudo, o escritor comete erros crassos de análise bíblica que, em certos momentos, resvalam em claros preconceitos. O exemplo mais emblemático ocorre em sua leitura do encontro entre Jesus e a mulher samaritana, narrado no Evangelho de João.

    Ao comentar o trecho, o presidenciável afirma que a "necessidade contínua de mudar de parceiro sexual" da samaritana seria uma "evidência clara da sua dificuldade de sentir prazer", revelando relações interpessoais "frágeis e sem raízes". Essa interpretação carece de qualquer lastro histórico, cultural ou textual, refletindo um anacronismo psicológico aliado a um preconceito de gênero.

    No mundo antigo, as mulheres não tinham o direito de se divorciar ou de escolher seus parceiros. O divórcio era uma prerrogativa estritamente masculina. Logo, uma mulher não acumulava maridos por instabilidade emocional ou busca por prazer; ela simplesmente era repudiada pelo cônjuge ou ficava viúva.

    Mega da Virada: quais as chances de ganhar e outras 7 perguntas sobre sorteio com prêmio recorde
Fotografia colorida mostra mão apostando na mega sena
Prêmio da mega da virada não acumula

Importado Automaticamente de: https://www.bbc.c
    Mega da Virada: quais as chances de ganhar e outras 7 perguntas sobre sorteio com prêmio recorde Fotografia colorida mostra mão apostando na mega sena Prêmio da mega da virada não acumula Importado Automaticamente de: https://www.bbc.c — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Essa mesma fragilidade metodológica se manifesta quando Cury tenta definir as fronteiras de seu trabalho. No primeiro volume da série, ele sustenta que "a ciência foi tímida e omissa em investigar a inteligência de Cristo" e promete realizar uma análise inédita no campo da psicologia . Contudo, poucas páginas adiante, recua ao afirmar que os pensamentos de Cristo extrapolam os parâmetros científicos.

    A construção desse discurso cria uma falsa tensão argumentativa: primeiro acusa-se a ciência de omissão, para em seguida absolvê-la sob o argumento de que o tema transcende a razão. O efeito prático dessa manobra é reforçar a ideia de que apenas a fé pode acessar tais verdades, sem assumir abertamente que a abordagem não possui caráter científico.

    A busca por soar científico atinge momentos quase insólitos na obra. Ao tratar do dogma cristão do nascimento virginal de Jesus, Cury afirma que a ciência não pode comprovar o fato por falta de acesso ao material genético de Maria e de Cristo. Em seguida, porém, argumenta que a ciência tampouco poderia classificar o evento como impossível, afinal, existe a clonagem.

    Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha

    A proposta inicial do autor era investigar cientificamente a inteligência de Cristo a partir dos quatro evangelhos, aos quais se refere como "biografias de Cristo". Todavia, à medida que a reflexão avança, a ambição se expande desmedidamente: Cury deixa de analisar apenas os pensamentos do homem Jesus e passa a pretender examinar a própria mente de Deus.

    O escritor chega a defender que os cursos de psicologia deveriam introduzir o estudo da personalidade de Jesus em seus currículos, de preferência, utilizando sua própria coleção de livros. O resultado final, contudo, passa longe da academia: trata-se de um conjunto de interpretações devocionais maquiadas por um verniz pseudocientífico.

    Em suma, as obras não trazem nenhuma contribuição real ou novidade consistente sobre a inteligência e a mente de Jesus Cristo. Sobre a mente de Augusto Cury, por outro lado, as revelações são cristalinas: sobra pretensão e falta clareza metodológica, dois traços que, convenhamos, talvez sejam pré-requisitos fundamentais para o sucesso político .

    Você já conhece as vantagens de ser assinante da Folha? Além de ter acesso a reportagens e colunas, você conta com newsletters exclusivas ( conheça aqui ). Também pode baixar nosso aplicativo gratuito na Apple Store ou na Google Play para receber alertas das principais notícias do dia. A sua assinatura nos ajuda a fazer um jornalismo independente e de qualidade. Obrigado!

    Mais de 180 reportagens e análises publicadas a cada dia. Um time com mais de 200 colunistas e blogueiros. Um jornalismo profissional que fiscaliza o poder público, veicula notícias proveitosas e inspiradoras, faz contraponto à intolerância das redes sociais e traça uma linha clara entre verdade e mentira. Quanto custa ajudar a produzir esse conteúdo?

    Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.

    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2026/09/o-dia-em-que-deus-deitou-no-diva-de-augusto-cury.shtml.

    Imagem 1
    1 / 3

    Augusto Cury discursa em comício em Copacabana, no Rio de Janeiro, no dia 7 de setembro - Tercio Teixeira - 7.set.26/AFP · Tercio Teixeira - 7.set.26/AFP — Foto: Folha de S.Paulo

    Compartilhe

    Espalhe essa notícia

    Comentários(0)