Brasil

    O dia dos porcos

    O dia do voto deveria ser nosso, dos brasileiros. Será deles, dos porcos. Ganhe um ou outro, eles já triunfaram: lulistas e bolsonaristas decidiram que, no vale tudo, vale brincar com Deus. Leia mais (10/02/2026 - 10h22)

    Folha de S.Paulo
    2 de outubro de 2026 às 13:22
    O dia dos porcos
    Foto: Folha de S.Paulo

    Sociólogo, autor de “Uma Gota de Sangue: História do Pensamento Racial”. É doutor em geografia humana pela USP

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    Manifestante exibe Bíblia durante protesto na Louisiana, nos Estados Unidos - Matthew Hatcher - 13.nov.25/AFP · Matthew Hatcher - 13.nov.25/AFP
    Manifestante exibe Bíblia durante protesto na Louisiana, nos Estados Unidos - Matthew Hatcher - 13.nov.25/AFP · Matthew Hatcher - 13.nov.25/AFP — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    O dia do voto deveria ser nosso, dos brasileiros. Será deles, dos porcos. Ganhe um ou outro, eles já triunfaram: lulistas e bolsonaristas decidiram que, no vale tudo, vale brincar com Deus.

    Na minha juventude, mulheres passeavam de minissaia nas ruas de Cabul e não se imaginava uma polícia religiosa em Teerã. Nenhum republicano atribuía ao presidente dos EUA uma missão divina. Inexistia um partido relevante em Israel que, batizando-se Sionismo Religioso, clamava por limpeza étnica em nome do judaísmo. A explosão mundial do ardor religioso manifesta-se pela infiltração da fé no terreno da política. O Brasil corre o risco de deslizar para esse abismo, empurrado pelos porcos.

    Na França, ao longo de 36 anos, a guerra entre católicos e huguenotes matou cerca de 3 milhões, um quinto da população total. O Edito de Nantes (1598), que encerrou o conflito e garantiu direitos ao que restava dos protestantes, ensaiou implantar no Ocidente o princípio da tolerância religiosa. A secularização do Estado chegaria com as revoluções americana e francesa, no século 18, e o conceito de laicidade estatal, apenas no outono do século 19. São bens preciosos, mas frágeis, como mostram Cabul, Teerã, Jerusalém e Washington.

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Os porcos simulam fé e ardor, na busca por votos. Os bolsonaristas começaram tudo, com as sessões de oração promovidas por Michelle no Planalto, em 2022. A ideia, segundo palavras dela, era purificar um palácio "consagrado a demônios" em governos anteriores. Hoje, diante de uma paisagem eleitoral perigosa, os lulistas seguem o rastro de seus rivais, empatando o jogo da infâmia. Marcham com a mentira numa mão e a imagem de Nossa Senhora na outra.

    O Brasil tornou-se um Estado laico em 1890. O princípio foi inscrito na Constituição de 1988 sob forma dupla e complementar: a proibição de alianças entre Estado e igrejas (artigo 19) e o livre exercício de crença religiosa (artigo 5). Os constituintes sabiam que o único alicerce sólido da liberdade de religião é a separação entre o poder estatal, público, e as igrejas, entidades privadas. Brincando com Deus, misturando fé com política, os porcos chutam a Constituição.

    Não é de agora. As igrejas obtiveram as mais extensas isenções tributárias, fruto de favores de governos e parlamentares às custas do dinheiro de todos. Bispos de negócios converteram seus púlpitos subsidiados em palanques eleitorais. Mas o jogo alcança um ápice quando a campanha petista agarra-se a uma notícia desmentida para atiçar uma guerra de religião. Lula declara não saber se a notícia falsa é verdadeira e, memorioso, encena santa indignação contra um chute na santa ocorrido 31 anos atrás, enquanto sua guerrilha digital assegura que a mentira veicula a verdade.

    Já entraram em campo cabos eleitorais concorrentes, disfarçados atrás das togas ilusórias de ministros do STF . Numa ponta, André Mendonça , paladino da liberdade de expressão, exige censura judicial. Na ponta oposta, Flávio Dino, cavaleiro andante da censura às fake news, clama por respeito à liberdade de expressão. De quebra, em linha com sugestão de Lula, manda a PF investigar indícios de ataques a imagens religiosas. Sob tortura, a mentira tem que ser transformada em verdade.

    Cabul, Teerã, Jerusalém, a Washington de Trump? Os porcos não se importam: querem o teu voto.

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/demetriomagnoli/2026/10/o-dia-dos-porcos.shtml.

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    Manifestante exibe Bíblia durante protesto na Louisiana, nos Estados Unidos - Matthew Hatcher - 13.nov.25/AFP · Matthew Hatcher - 13.nov.25/AFP — Foto: Folha de S.Paulo

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