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    O desastre está nos planos de governo

    Citar risco e desastre no plano de governo virou comum nesta eleição de 2026 . Dos 172 candidatos a governador com candidatura deferida no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que analisei, 128 (74,4%) tocam no assunto. Pelo critério da menção , a política brasileira já teria "feito as pazes" com a agenda climática . Basta, no entanto, ler o que está escrito para ver que a conta é outra. Leia mais (09/30/2026 - 22h00)

    Folha de S.Paulo
    1 de outubro de 2026 às 01:00
    O desastre está nos planos de governo
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    Destruição no cemitério de Muçum, às margens do rio Taquari, após a enchente de 2024 no Rio Grande do Sul - Pedro Ladeira - 9.mai.24/Folhapress
    Destruição no cemitério de Muçum, às margens do rio Taquari, após a enchente de 2024 no Rio Grande do Sul - Pedro Ladeira - 9.mai.24/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Doutor em ciência política (UFPE), é pesquisador de pós-doutorado do Centro de Estudos da Metrópole da Universidade de São Paulo (CEM-USP)

    Citar risco e desastre no plano de governo virou comum nesta eleição de 2026 . Dos 172 candidatos a governador com candidatura deferida no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que analisei, 128 (74,4%) tocam no assunto. Pelo critério da menção , a política brasileira já teria "feito as pazes" com a agenda climática . Basta, no entanto, ler o que está escrito para ver que a conta é outra.

    Dos 172, só 60 candidatos (34,9%) trazem ação concreta em metade ou mais das passagens sobre o tema, e apenas 4 (2,3%) amarram essa ação a meta, prazo, indicador ou orçamento. Expressões genéricas como "resiliência climática" ocupam o lugar do compromisso. Uma promessa sem meta nem prazo pode ser cumprida ou descumprida sem que ninguém consiga dizer qual das duas coisas aconteceu. Como cobrar o que não tem meta?

    Política da Seca
    Política da Seca — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Por sua vez, o dinheiro revela a distância entre o que se promete e o que se pode entregar. Onze candidatos citam valores em reais nas passagens analisadas e só três prometem gasto novo, Tarcísio (Republicanos) e Carlos Machado (PCB), em São Paulo , e Ben Mendes (Missão), em Minas Gerais. O restante aborda balanço de obra já entregue, crítica ao governo atual ou verba de outro assunto.

    Os planos também olham mais para antes do desastre. Entre os 172 candidatos, 71,5% tratam de prevenção e preparação, 34,9% de resposta e 24,4% de recuperação; e cada um pode aparecer em mais de uma fase. Só 27 (15,7%) cobrem o ciclo inteiro. Parte disso pode refletir o papel do governador, que responde mais por obras estruturais e mapeamento de risco. Ainda assim, a recuperação, momento em que a população mais depende do Estado, é a fase que menos aparece.

    Há ainda o problema de quem é mais atingido. Cada estado tem um tipo de desastre que domina seus registros, como seca , enchente ou queimada. No Piauí, 92% dos registros entre 2013 e 2025, feitos pelos municípios no sistema do Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional, são de seca, mas só 17% dos candidatos no estado a mencionam. Em 10 dos 27 estados, metade ou menos dos candidatos cita o tipo de desastre que mais atinge o próprio território.

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Além disso, os estados com mais registros por município não têm planos mais concretos. É possível que a enchente, visível e recente, como no Rio Grande do Sul , onde os seis candidatos a citam, renda mais discurso do que a estiagem, que castiga por anos os vários Brasis sem a mesma atenção. Os dados não testam essa hipótese.

    Vale lembrar os limites. O levantamento é descritivo e não passou por revisão de pares. A classificação foi feita por modelos de linguagem de código aberto.

    Desastres têm dia, hora e endereço, e as promessas para enfrentá-los deveriam ter também. Os planos registrados no TSE são a linha de base para depois da posse. Cabe ao eleitorado, à imprensa e aos tribunais de contas perguntar, diante de cada promessa, qual é a meta, até quando e com que dinheiro. Às candidaturas cabe escrever compromissos que possam ser conferidos ao fim do mandato, pois um plano sem meta, prazo e orçamento nunca fracassa, mas também nunca se cumpre.

    ilustração de Daniel Bueno para as páginas do projeto editorial da Folha
    ilustração de Daniel Bueno para as páginas do projeto editorial da Folha — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2026/09/o-desastre-esta-nos-planos-de-governo.shtml.

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    Destruição no cemitério de Muçum, às margens do rio Taquari, após a enchente de 2024 no Rio Grande do Sul - Pedro Ladeira - 9.mai.24/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo

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