O desabafo de uma crente sensata
A vergonha disputa espaço com a profunda tristeza que habitou meu coração evangélico nestes longos dias de eleição . O voto de mulheres evangélicas, como eu, foi comentado à exaustão. Leia mais (10/12/2026 - 22h00)

Expressa as ideias do autor e defende sua interpretação dos fatos
Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.
Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.

Evangélica, é jornalista, mestre em comunicação e doutora em políticas públicas; autora de ‘Entre a Cruz e o Colapso’ (Thank You Editora)
A vergonha disputa espaço com a profunda tristeza que habitou meu coração evangélico nestes longos dias de eleição . O voto de mulheres evangélicas, como eu, foi comentado à exaustão.
Foram muitas as tentativas racionais de descolar o rótulo que colaram em nós. Pesquisas mostraram que "nem todo evangélico é igual"; que há diversidade entre as mulheres; que elas estão no chão da ação social da igreja; que vivem o feminismo pragmático; que não há lacração que resista à força do tecido social arduamente tricotado por elas.

Se as tentativas de problematização foram muitas , temo constatar que a maior parte foi em vão. Ora a esquerda —investida de sua superioridade intelectual— nos reduz à mera massa de manobra (obviamente não sem uma boa dose de razão), ora os falsos profetas distorcem textos sagrados para se promover. E muitos de nossos irmãos continuam engolindo mentiras e ameaças em nome daquele que é a verdade.
Parte da esquerda escolheu o caminho da rivalidade com esse eleitorado. Outra ficou com o distanciamento. Uma parcela minúscula de lideranças progressistas se dedica a entender de forma sincera os anseios do povo evangélico, que, não por acaso, ocupa a base da sociedade brasileira. Para o mal, o bolsonarismo fez isso muito bem. Ele se apropriou da linguagem das igrejas, explorou o nome de Deus, fortaleceu a lógica do medo e do pânico, sugou pautas de costume e conseguiu capilaridade pelo lado e por dentro das igrejas.
Ainda que seus candidatos tenham relações históricas com corrupção, práticas promíscuas, casos de violência, desprezo às mulheres e vínculos com o crime organizado, uma multidão foi convencida de que é preciso apoiá-los em nome de Jesus .

É o fim dos tempos, e ainda assim o tom destas eleições ignora que vivemos dias sob ameaça do El Niño , que o Rio Grande do Sul foi inundado por uma cheia histórica há dois anos e que isso custou mais de R$ 100 bilhões aos cofres da União. Que negros, pobres, mulheres e crianças estão sob o risco constante em uma emergência climática cuja sirene apitou há tempos. Nem parece que o mundo está colapsando em desastres climáticos , enchentes, ondas de calor, deslizamentos de terra. Pouco se falou de clima , de perda de safras, de falta de alimento, de água, de energia.
A ministra do Meio Ambiente, reconhecida no mundo todo, perdeu a eleição para o Senado . Negacionistas se elegeram em estados gravemente afetados pelas chuvas. Candidaturas sérias que levantaram a bandeira da justiça climática foram praticamente ignoradas pelas urnas.
Muitas das igrejas que decidiram apostar na politização esqueceram do "órfão e da viúva", das famílias que acolhemos quando a tempestade cai, das crianças que têm medo do barulho da chuva, daqueles que moram nas encostas. Ou não sabiam que é dever do Estado protegê-las e preferiram remediar danos, anestesiando a consciência com meia dúzia de doações paliativas.

É inadmissível que o bolsonarismo tenha se tornado sinônimo da nossa fé, qualificando aquilo que pensamos sobre a vida em sociedade, o próximo, as desigualdades e a natureza.
Para evangélicos como eu, sobrou a tristeza. A tristeza de ver gente seduzida por um discurso incoerente e vazio. Pelas instituições que dizem representar os valores cristãos, permitindo que sua estrutura sirva de plataforma para quem faz oposição à essência do Evangelho. Sinto indignação pelo sequestro e pela cegueira. E dor porque, do lado de dentro, a minha voz de denúncia soa à rebeldia. Eu sinto, sinto muito.
A igreja é incoerente ao virar as costas para a política que constrói soluções aos mais necessitados e zela pela Criação. Mas a esquerda também é incoerente sempre que negligencia a estrutura social formada pela igreja evangélica no Brasil. Ela está conectada à vida das pessoas mais marginalizadas. Na convivência semanal, no socorro bem presente nos dias de angústia.

E o bolsonarismo, ah!, ele não quer ajudar. Apenas nos colocou uns contra os outros, desviando nosso olhar do alvo legítimo.
Basta. É tempo de abrir os olhos, se arrepender, pedir perdão e perdoar. É isso que Cristo nos ensina. Examinemos nossa consciência, não nos conformemos. O Brasil precisa de uma metanoia. Esse caminho ainda é solitário, mas precisa ser ocupado. TENDÊNCIAS / DEBATES Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.
Você já conhece as vantagens de ser assinante da Folha? Além de ter acesso a reportagens e colunas, você conta com newsletters exclusivas ( conheça aqui ). Também pode baixar nosso aplicativo gratuito na Apple Store ou na Google Play para receber alertas das principais notícias do dia. A sua assinatura nos ajuda a fazer um jornalismo independente e de qualidade. Obrigado!

Mais de 180 reportagens e análises publicadas a cada dia. Um time com mais de 200 colunistas e blogueiros. Um jornalismo profissional que fiscaliza o poder público, veicula notícias proveitosas e inspiradoras, faz contraponto à intolerância das redes sociais e traça uma linha clara entre verdade e mentira. Quanto custa ajudar a produzir esse conteúdo?
Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.
Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2026/10/o-desabafo-de-uma-crente-sensata.shtml.

O candidato Flávio Bolsonaro (PL) participa de culto religioso da Igreja Assembleia de Deus Vitória em Cristo, no Rio de Janeiro - Renan Areias - 3.mai.26/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo
Compartilhe
Espalhe essa notícia

