Brasil

    O crime nos trinques

    De vez em quando estouram um reduto do PCC ou do CV, apreendem um caminhão de drogas, armas e dinheiro, e o que vemos de material humano? Um brasileiro normal, de seus 30 anos, baixinho, quilos a mais, barba por fazer, camiseta regata, bermuda e de chinelo, num fundo de garagem de bairro pobre ou de comunidade. Se sua aparência reflete seu estilo de vida, parece incompatível com os quilos de pó que ele movimenta ou os milhares de narizes sob seu controle em bairros chiques do Rio ou São Paulo. Eu me pergunto para onde vai o dinheiro que esse sujeito ganha. Leia mais (08/16/2026 - 08h00)

    Folha de S.Paulo
    16 de agosto de 2026 às 11:00
    O crime nos trinques
    0 — Foto: Folha de S.Paulo

    Jornalista e escritor, autor das biografias de Carmen Miranda, Garrincha e Nelson Rodrigues, é membro da Academia Brasileira de Letras

    Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.

    Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.

    Montagem de fotos de fichamento de Al Capone, de frente e de perfil - Biblioteca do Congresso dos EUA · Biblioteca do Congresso dos EUA
    Montagem de fotos de fichamento de Al Capone, de frente e de perfil - Biblioteca do Congresso dos EUA · Biblioteca do Congresso dos EUA — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    De vez em quando estouram um reduto do PCC ou do CV, apreendem um caminhão de drogas, armas e dinheiro, e o que vemos de material humano? Um brasileiro normal, de seus 30 anos, baixinho, quilos a mais, barba por fazer, camiseta regata, bermuda e de chinelo, num fundo de garagem de bairro pobre ou de comunidade. Se sua aparência reflete seu estilo de vida, parece incompatível com os quilos de pó que ele movimenta ou os milhares de narizes sob seu controle em bairros chiques do Rio ou São Paulo. Eu me pergunto para onde vai o dinheiro que esse sujeito ganha.

    A pergunta tem a ver com os filmes americanos, novos ou clássicos, em que os gângsteres dos anos 1920 se vestem bem, moram em belos apartamentos e têm sempre uma loura decotada à mão. E, se você pensa que isso é coisa de cinema, saiba que é verdade —eles gostavam de se tratar.

    É verdade que, no começo, não era assim. Os gângsteres surgiram com a Lei Seca, em 1920, e, enquanto se limitavam a vender gororobas fabricadas em banheiras, eram esculhambados como os nossos. Mas eles logo tomaram também a prostituição, os speakeasies, as casas de jogo e até o show business —cantores, músicos, night-clubs, tudo ficou nas mãos deles. E, então, a começar por Al Capone, vieram os ternos bem cortados, os chapéus de feltro, a pérola na gravata, as abotoaduras de ouro, as metralhadoras último tipo.

    Imagem da matéria
    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Nossos traficantes hoje superam aqueles gângsteres em dinheiro e poder. Por que, então, continuam a parecer pés-de-chinelo? Você dirá que os verdadeiros chefões do crime organizado são os magnatas, que moram nas mansões de luxo e não sabemos quem são. Mas, no americano, era a mesma coisa. Os bacanas não apareciam, e os famosos, como John Dillinger, Pretty Boy Floyd, Baby Face Nelson, Machine Gun Kelly e outros, eram como o nosso segundo escalão, só que nos trinques.

    Nos trinques ou não, não adiantou. Quando o FBI desbaratou o comando, fechando a torneira econômica, eles tiveram de trocar seus ternos risca-de-giz pelo pijama listrado ou de madeira.

    LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

    Você já conhece as vantagens de ser assinante da Folha? Além de ter acesso a reportagens e colunas, você conta com newsletters exclusivas ( conheça aqui ). Também pode baixar nosso aplicativo gratuito na Apple Store ou na Google Play para receber alertas das principais notícias do dia. A sua assinatura nos ajuda a fazer um jornalismo independente e de qualidade. Obrigado!

    Mais de 180 reportagens e análises publicadas a cada dia. Um time com mais de 200 colunistas e blogueiros. Um jornalismo profissional que fiscaliza o poder público, veicula notícias proveitosas e inspiradoras, faz contraponto à intolerância das redes sociais e traça uma linha clara entre verdade e mentira. Quanto custa ajudar a produzir esse conteúdo?

    Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.

    Na página Colunas da Folha você encontra opinião e crônicas de colunistas como Mônica Bergamo , Elio Gaspari , Djamila Ribeiro , Tati Bernardi , Dora Kramer , Ruy Castro , Muniz Sodré , Txai Suruí , José Simão , Thiago Amparo , Antonio Prata e muito mais.

    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/ruycastro/2026/08/o-crime-nos-trinques.shtml.

    Imagem 1
    1 / 2

    Montagem de fotos de fichamento de Al Capone, de frente e de perfil - Biblioteca do Congresso dos EUA · Biblioteca do Congresso dos EUA — Foto: Folha de S.Paulo

    Compartilhe

    Espalhe essa notícia

    Comentários(0)