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    O canto da sereia do ajuste fiscal no próximo mandato

    Em tempos de eleições nas ruas e de "Odisseia" nos cinemas , o ministro da Fazenda foi escalado para atrair o mercado com um canto das sereias. Entoando a sexagenária "daqui para frente, tudo vai ser diferente", de Roberto e Erasmo, prometeu um ajuste fiscal que carece de credibilidade e consistência. Leia mais (08/07/2026 - 17h00)

    Folha de S.Paulo
    7 de agosto de 2026 às 20:00
    O canto da sereia do ajuste fiscal no próximo mandato
    Presidente Lula ao lado do ministro da Fazenda, Dario Durigan, no Palácio do Planalto, em Brasília - Adriano Machado - 6.ago.26/Reuters · Adriano Machado - 6.ago.26/Reuters — Foto: Folha de S.Paulo

    Pesquisador associado do Insper, é organizador do livro 'Para não esquecer: políticas públicas que empobrecem o Brasil'

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    Veja glossário de termos econômicos e fiscais
    Veja glossário de termos econômicos e fiscais — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Em tempos de eleições nas ruas e de "Odisseia" nos cinemas , o ministro da Fazenda foi escalado para atrair o mercado com um canto das sereias. Entoando a sexagenária "daqui para frente, tudo vai ser diferente", de Roberto e Erasmo, prometeu um ajuste fiscal que carece de credibilidade e consistência.

    A falta de credibilidade se constata em atos e falas das autoridades. O presidente da República acaba de prometer mais gastos fora dos limites do arcabouço fiscal, dessa vez para a área de ciência e tecnologia . Os ministros da Fazenda e Planejamento não perdem oportunidade de declarar que os juros altos não são causados pelo desequilíbrio fiscal.

    Publicaram dois documentos frágeis em que tentam provar teses contraditórias: o primeiro estudo defende que as ações eleitoreiras do governo aumentarão a demanda agregada, gerando investimentos, emprego e crescimento; enquanto o segundo diz que as mesmas políticas não impactam a demanda agregada e, por isso, não afetam a inflação .

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Nos últimos dias, o governo editou medidas provisórias para capitalizar fundos garantidores de crédito subsidiado, renovar programa de renegociação de dívidas e distribuir dinheiro barato para diversos setores: companhias aéreas, usineiros, exportadores, estudantes do Fies. Também propôs aumento do subsídio aos microempreendedores.

    Promete-se que depois das eleições "tudo vai ser diferente". O centro da proposta seria reduzir o limite máximo de crescimento das despesas no arcabouço fiscal, que passaria de 2,5% para 1,5%.

    Aqui chegamos na inconsistência. O arcabouço é um navio de casco furado, no qual entra mais água que nas naus do enrascado Ulisses. Desde julho de 2023, a despesa cresce a 3,9% ao ano acima da inflação (8,2% nos 12 meses até julho de 2026). Supera em muito o limite de 2,5%. De que adianta reduzir um limite que não é cumprido? Quantas novas exceções serão criadas depois de reduzido o limite?

    As exceções já são tantas, que a meta do ano é um superávit de R$ 34 bilhões, a previsão é de que haverá um déficit de R$ 52 bilhões e, a despeito dessa insuficiência de R$ 86 bilhões (0,63% do PIB ), a meta será considerada atingida.

    Reduzir o limite de despesa restringe a correção real do salário mínimo , implicando menor reajuste de benefícios previdenciários e assistenciais, o que poderia melhorar o resultado fiscal. Mas sem uma reforma da previdência e das políticas sociais, o crescimento do número de beneficiários vai continuar pressionando a despesa total.

    Ademais, uma eventual redução de gastos com previdência e assistência, em vez de melhorar o resultado fiscal, pode se converter em mais despesa discricionária, seja porque o limite menor esmagaria essas despesas, seja pela alta propensão a gastar do governo e do Congresso.

    Supondo que haja determinação política para melhorar o resultado primário, a tarefa requererá muito mais que mero aperto de parafusos do arcabouço. Os mais otimistas creem que um superávit de 1% do PIB seria suficiente.

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    Como estamos com déficit de 0,4% , precisaríamos, mesmo na ponta otimista, de um ajuste de 1,4%, ou R$ 190 bilhões, em um contexto de economia e arrecadação esfriando. Nada trivial. E ainda será preciso desligar os programas de crédito que, em 2026, devem gerar desembolsos orçamentários na casa de 1,5% do PIB, e não aparecem na conta do déficit primário.

    Ao contrário de Ulisses, o PT parece não ter refletido sobre os seus erros e arrogância nos anos em que perambulou pelo governo.

    Acredite quem quiser, no que ora é prometido.

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/marcos-mendes/2026/08/o-canto-da-sereia-do-ajuste-fiscal-no-proximo-mandato.shtml.

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