Brasil

    O Brasil não aprende

    "Por que a gente não aprende?". O economista Arminio Fraga repetiu angustiado essa indagação ao longo da entrevista recente com o colega Marcos Lisboa. Por que recorrentemente um braço do governo atiça o crédito e expande o gasto enquanto o outro levanta os juros? Por que a teima em desprezar as melhores evidências nos assuntos públicos? Por que tudo para já e para mim se o futuro é logo ali e para todos? Leia mais (08/29/2026 - 14h00)

    Folha de S.Paulo
    29 de agosto de 2026 às 17:00
    O Brasil não aprende
    Máquinas agrícolas colhem uma vasta plantação em fileiras paralelas, com uma densa floresta ao fundo. O campo apresenta áreas já colhidas e outras ainda com plantações, evidenciando o processo de colheita em andamento. — Foto: Folha de S.Paulo

    Editor-executivo, foi antes secretário de Redação e editor de Opinião. É mestre em sociologia pela USP

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    Colheita de milho em Paragominas, no Pará - Danilo Verpa - 25.ago.24/Folhapress · Danilo Verpa - 25.ago.24/Folhapress
    Colheita de milho em Paragominas, no Pará - Danilo Verpa - 25.ago.24/Folhapress · Danilo Verpa - 25.ago.24/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    "Por que a gente não aprende?". O economista Arminio Fraga repetiu angustiado essa indagação ao longo da entrevista recente com o colega Marcos Lisboa. Por que recorrentemente um braço do governo atiça o crédito e expande o gasto enquanto o outro levanta os juros? Por que a teima em desprezar as melhores evidências nos assuntos públicos? Por que tudo para já e para mim se o futuro é logo ali e para todos?

    A capacidade coletiva de aprender parece relacionada ao desenvolvimento das nações. As organizações civis e estatais, que têm pretensão de durar para sempre, chocam-se amiúde com incidentes no curso de sua trajetória secular. Fome, revolta, peste, crise econômica, guerra e mudanças nos hábitos, nas ideias, nas tecnologias ou no clima as desafiam a adaptar-se. Como nem sempre o conjunto de crenças que trazem do passado produz respostas emancipatórias, muitas não escapam da gaiola da estagnação.

    Financiar a guerra ou capturar os ganhos do comércio ultramarino? Conta Thales Zamberlan Pereira em sua tese de doutoramento que, na virada do século 18 para o 19, o algodão plantado no Maranhão e em Pernambuco chegava à Grã Bretanha com bonificação de preço em relação ao produto de outras regiões fornecedoras. A fibra nordestina adaptava-se melhor às máquinas de fiar que impulsionavam a Revolução Industrial. Exportações brasileiras chegaram a representar 40% dos desembarques de algodão pelo porto de Liverpool e seu valor superou por anos o da manufatura têxtil inglesa vendida ao Brasil.

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Diante do choque que propiciou um boom de rendimentos a produtores maranhenses e pernambucanos, a Coroa portuguesa e logo depois o Império brasileiro que a sucedeu não tiveram constrangimentos —como por exemplo o que o Parlamento exercia sobre o monarca inglês— nem instrumentos alternativos —como o que o Banco da Inglaterra oferecia ao governo britânico— para extrair tudo o que podiam e não podiam dos agricultores. A fim de custear suas despesas com guerras e repressão de revoltas na Europa e no Brasil, ordenaram tarifaços sobre a exportação do algodão e confiscos de receitas provinciais.

    A galinha dos ovos de ouro foi assassinada. O aperto nos custos dos exportadores reduziu a sua condição de competir e os expôs ao extermínio com a derrocada dos preços globais da commodity a partir de 1819. A navegação a vapor, que aumentava a eficiência de regiões competidoras como o sul dos Estados Unidos, no caso brasileiro esbarrava nos monopólios, regulamentações e centralizações de decisões. A resposta do Brasil ao choque remeteu-o à gaiola da estagnação. Não houve aprendizado.

    A propósito da dificuldade de aprender, Thales Pereira e seu colega da FGV-SP Leonardo Weller acabam de lançar "Entre Crises", editado pela universidade em que atuam. No livro eles passam em revista as três primeiras décadas da política econômica sob a Nova República, da crise da dívida dos anos 1980 à Grande Recessão de 2014 a 2016. O período foi repleto de choques que desafiaram as organizações civis e estatais brasileiras a adaptar-se —democratização, participação maciça do eleitorado e de movimentos sociais, a Carta de 5 de outubro e uma sequência de crises econômicas e políticas, domésticas e externas.

    Não dá para dizer que foi um experimento perdido. Longe disso. A democracia assentou-se, a duras penas a estabilização dos preços consolidou-se, a seguridade protegeu os mais pobres, a educação básica abrange praticamente o universo das crianças, assim como a cobertura da saúde o dos cidadãos. Mas o aprendizado foi bastante incompleto, custoso e sujeito a retrocessos. O brasileiro empobreceu na comparação com outras populações de nações emergentes. A produtividade tem sido uma catástrofe.

    Não foram superadas as crenças e as práticas que nos aprisionam desde a colônia na gaiola da estagnação. Como mola que se comprime apenas com muita força, o Brasil velho mostra a face ignorante, parasitária, violenta e exclusivista sempre que a pressão esmorece. Ela está esmorecendo.

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/viniciusmota/2026/08/o-brasil-nao-aprende.shtml.

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    Colheita de milho em Paragominas, no Pará - Danilo Verpa - 25.ago.24/Folhapress · Danilo Verpa - 25.ago.24/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo

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