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    O Brasil envelheceu, mas a universidade e o mercado não perceberam

    Em quatro décadas, o Brasil terá mais idosos do que crianças . A pirâmide que sustentou a ideia de nação jovem está virando de cabeça para baixo -e rápido. O que na Europa levou um século, aqui acontece em uma geração. Um levantamento sobre como a universidade brasileira se prepara para isso, feito a partir do mapeamento dos programas de pós-graduação em envelhecimento , chega a um resultado revelador. Leia mais (08/31/2026 - 22h00)

    Folha de S.Paulo
    1 de setembro de 2026 às 01:00
    O Brasil envelheceu, mas a universidade e o mercado não perceberam
    Duas mulheres idosas sentadas em cadeiras, concentradas em atividades de escrita ou desenho. A mulher à esquerda tem cabelo castanho claro e usa óculos escuros, enquanto a mulher à direita tem cabelo grisalho e usa óculos de grau. Ambas est — Foto: Folha de S.Paulo

    Expressa as ideias do autor e defende sua interpretação dos fatos​

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    Aposentados da Fundação Cesp durante atividades de estimulação cognitiva ministradas por Thais Bento Lima da Silva, gerontóloga formada pela EACH-USP - Jardiel Carvalho - 19.set.23/Folhapress
    Aposentados da Fundação Cesp durante atividades de estimulação cognitiva ministradas por Thais Bento Lima da Silva, gerontóloga formada pela EACH-USP - Jardiel Carvalho - 19.set.23/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Mestre e doutorando em ciências do envelhecimento, é consultor de finanças pessoais

    Em quatro décadas, o Brasil terá mais idosos do que crianças . A pirâmide que sustentou a ideia de nação jovem está virando de cabeça para baixo —e rápido. O que na Europa levou um século, aqui acontece em uma geração. Um levantamento sobre como a universidade brasileira se prepara para isso, feito a partir do mapeamento dos programas de pós-graduação em envelhecimento , chega a um resultado revelador.

    Existem hoje 11 programas de mestrado e doutorado no país com foco explícito em envelhecimento, a maioria reunida na rede Reprinte . E isso é um bom sinal, uma vez que o campo existe e tem gente formando gente. Contudo, das 23 linhas de pesquisa que esses programas declaram, mais da metade trata diretamente de saúde e cuidado, com pesquisas em medicina, biologia, funcionalidade, clínica e atenção primária. Nenhuma linha menciona, no nome, finanças, moradia, espaço público, lazer ou sexualidade. Temas centrais em qualquer definição de qualidade de vida viram, quando muito, nota de rodapé.

    Nova geração de idosos reinventa a velhice
    Nova geração de idosos reinventa a velhice — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Fora da gerontologia, o quadro se repete. Em economia , ciências sociais, comunicação e psicologia, campos que deveriam pensar o idoso como cidadão ou corpo desejante, não como paciente , o tema quase não existe como linha de pesquisa. Sobrevive como interesse isolado, caso da antropóloga Guita Debert , da Unicamp, que abriu sozinha um subcampo nos anos 1990 —ou, no máximo, como grupo de pesquisa dentro de um programa maior, caso do Núcleo de Envelhecimento Humano ligado à psicologia da UFRJ. Sociologia e comunicação simplesmente não têm o assunto no radar.

    O mesmo apagamento aparece no mercado, com uma inversão que dói. Quanto maior o poder de compra do público idoso, menor o espaço que ele ocupa nas vitrines. Pessoas com 60 anos ou mais respondem por cerca de 20% do consumo nacional, segundo o Sebrae, mas estão em menos de 3% das propagandas.

    Um estudo da FGV/Eaesp, publicado em 2021, com 626 anúncios analisados, mostra que o espaço para esse público é dominado por produtos que falam sobre remédio, prótese, plano funerário e seguro. Moda, tecnologia, viagem e desejo seguem sendo terreno exclusivamente dos jovens.

    Idosos se reúnem em espaço público para driblar o isolamento social em São Paulo
    Idosos se reúnem em espaço público para driblar o isolamento social em São Paulo — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Um relatório recente da McKinsey Brasil ajuda a entender o tamanho do desencontro. Os chamados "boomers" já dobraram de peso na população e devem dobrar de novo até 2050, quando serão 30% dos brasileiros. Um em cada três usa ferramentas de inteligência artificial, o oposto do estereótipo de desconexão tecnológica, e 77% das decisões de compra são pragmáticas, movidas por custo-benefício.

    A própria consultoria recomenda às empresas aumentar a representatividade desse público nas campanhas publicitárias, um sinal de que a lacuna já incomoda até quem vive de vender.

    Universidade que pouco pesquisa e mercado que não retrata contam a mesma história, em sotaques diferentes. A velhice segue tratada como problema de saúde a administrar e raramente como fase da vida a projetar. Enquanto pesquisa e publicidade não tratarem isso como pergunta séria, o Brasil seguirá escrevendo, às pressas, o roteiro de uma transição demográfica que já começou sem enredo.

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

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    ilustração de Daniel Bueno para as páginas do projeto editorial da Folha — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

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