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    O Brasil aprendeu a rejeitar e a temer em dobro

    Em tempos de incertezas eleitorais, as pesquisas de intenção de voto mostram uma certeza que se consolida ao revelar um resultado comum: a impressionantemente forte rejeição dos principais candidatos presidenciais . Levantamento da Quaest, divulgado em 14 de setembro, apresenta 55% de rejeição para Flávio Bolsonaro ( PL ) e 55% para o presidente Lula ( PT ). Leia mais (09/20/2026 - 22h00)

    Folha de S.Paulo
    21 de setembro de 2026 às 01:00
    O Brasil aprendeu a rejeitar e a temer em dobro
    À esquerda, homem idoso com cabelo e barba grisalhos, vestindo camisa vermelha, fala segurando microfone com a mão direita e gesticulando com a esquerda. À direita, homem de meia-idade com cabelo escuro e óculos, veste terno azul, camisa br — Foto: Folha de S.Paulo

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    Montagem com o presidente Lula (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) - Eduardo Anizelli e Danilo Verpa/Folhapress · Eduardo Anizelli e Danilo Verpa/Folhapress
    Montagem com o presidente Lula (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) - Eduardo Anizelli e Danilo Verpa/Folhapress · Eduardo Anizelli e Danilo Verpa/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Professora do Programa de Pós-Graduação em Ciência Política da UFRGS e conselheira da Abrapel (Associação Brasileira de Estudos Eleitorais)

    Professor do Programa de Pós-Graduação em Políticas Públicas da Unipampa

    Em tempos de incertezas eleitorais, as pesquisas de intenção de voto mostram uma certeza que se consolida ao revelar um resultado comum: a impressionantemente forte rejeição dos principais candidatos presidenciais . Levantamento da Quaest, divulgado em 14 de setembro, apresenta 55% de rejeição para Flávio Bolsonaro ( PL ) e 55% para o presidente Lula ( PT ).

    ilustração de Daniel Bueno para as páginas do projeto editorial da Folha
    ilustração de Daniel Bueno para as páginas do projeto editorial da Folha — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Não é novidade a resistência e desconfiança do eleitor brasileiro a partidos e candidaturas presidenciais. O sentimento antipartidário, bem como a rejeição a candidatos, vem muito antes da transição política para o regime civil e a Constituição de 1988.

    O PT e seus postulantes presidenciais, desde sua entrada na competição, em 1989, enfrentaram o desafio de combater a resistência do eleitor. Entrementes, a legenda também apresenta na sua trajetória uma expressiva identificação com o eleitorado.

    Chama a atenção que, tanto na eleição disruptiva de 2018 quanto na eleição de 2022 , a rejeição aos dois principais candidatos presidenciais não tenha sido diagnosticada nas pesquisas de intenção de voto com percentuais semelhantes e elevados. Esta é a novidade da eleição presidencial deste ano: a forte e semelhante rejeição nas duas principais candidaturas.

    O país aprendeu a rejeitar e temer em dose dupla. A obra "Hate in the Homeland: The New Global Far Right", da professora Cynthia Miller-Idriss (American University), lança luz sobre os mecanismos de mobilização política de sentimentos de traição, raiva, medo, vergonha e desejo de pertencimento que alimentam a orientação da decisão do voto. Em tempos de insegurança, esses sentimentos tornam-se elementos centrais das campanhas mundo afora, inclusive no Brasil

    O que se destaca é a perda do monopólio da forte rejeição : o "empate na antipatia". Rejeitar radicalmente um partido ou candidato e, por essa razão, buscar outra opção é diferente de manifestar rejeição, na mesma intensidade, a outro campo no pleito presidencial. Esse fenômeno não parece ser mero acidente de contexto de uma eleição, sobretudo quando confrontado com os resultados de uma pesquisa acadêmica a ser publicada sob nossa autoria e de João Cardoso L. Camargos, "As Metamorfoses do Antipetismo - Um Partidarismo Negativo Estável?", que reconstrói duas décadas de rejeição afetiva a partidos brasileiros a partir do Estudo Eleitoral Brasileiro (Eseb).

    Em 2002, apenas 11% do eleitorado expressava rejeição ao PT, oscilando até 2014. O ponto de inflexão foi 2018, quando o índice disparou para 34%, recuando ligeiramente em 2022. O antipetismo, sem dúvida, cresceu. É também relevante destacar que a rejeição específica ao partido tende a estar nos mesmos patamares percentuais de rejeição a suas candidaturas nos anos de eleição presidencial da Nova República ( Datafolha ).

    A pesquisa da Atlas/Bloomberg de agosto último traz alguma luz para a compreensão do sentimento que produz a alta rejeição nos dois principais candidatos apontados nas pesquisas. Quando o instituto pergunta ao entrevistado "o que mais teme", o levantamento aponta outro fenômeno espelhado na rejeição, o sentimento de medo : 46,4% dos entrevistados dizem temer mais a reeleição de Lula, e 45,5% mais a eleição de Flávio Bolsonaro. A rejeição similar entre os dois candidatos parece estar sendo mobilizada por um sentimento de medo de intensidade equivalente em relação às duas principais candidaturas em disputa.

    A forte rejeição a partidos e/ou candidaturas indica ter sido impulsionada por afetos negativos. Eles funcionam como um prisma pelo qual parte da sociedade percebe toda a política, canalizando frustrações, expectativas e temores. Se o antipetismo ensinou alguma coisa à política brasileira, foi que uma identidade construída sobre o "contra quem" pode ser tão duradoura e tão decisiva nas urnas quanto qualquer identidade construída sobre o "a favor de quem".

    A diferença, neste 2026, é que esse mecanismo de forte rejeição já não pertence a um só lado. E o crescimento de um eleitorado que teme os dois polos pode ser o dado mais importante para entender não somente a eleição deste ano, mas as que vierem depois dela. Uma governabilidade ainda mais difícil ao próximo presidente eleito? Uma democracia sob mais uma ameaça?

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2026/09/o-brasil-aprendeu-a-rejeitar-e-a-temer-em-dobro.shtml.

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    Montagem com o presidente Lula (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) - Eduardo Anizelli e Danilo Verpa/Folhapress · Eduardo Anizelli e Danilo Verpa/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo

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