Brasil

    O bolsonarismo é uma péssima opção

    Você não precisa ser progressista para votar contra o bolsonarismo. Nem precisa aderir à parcela da direita mais propositiva. Nem ao lulismo ou a qualquer projeto rival para concluir que tal movimento político fez e faz muito mal ao Brasil.

    UOL
    21 de setembro de 2026 às 22:00
    O bolsonarismo é uma péssima opção
    Foto: UOL

    Ciclista, duas vezes vencedor do Prêmio Jabuti Acadêmico e doutor em economia pela USP. Coordenador no Insper, foi visiting scholar em Columbia, Stanford e Oxford

    Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.

    Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.

    Corpos são enterrados à noite em cemitério da zona leste de SP
    Corpos são enterrados à noite em cemitério da zona leste de SP — Foto: UOL · Fonte: UOL

    Você não precisa ser progressista para votar contra o bolsonarismo. Nem precisa aderir à parcela da direita mais propositiva. Nem ao lulismo ou a qualquer projeto rival para concluir que tal movimento político fez e faz muito mal ao Brasil.

    Nos últimos anos, ele sequestrou parte da direita e a empurrou para um projeto menos comprometido com ideias e mais com o envenenamento do debate público e com o processo de apodrecimento da República. No lugar de um campo político orientado por princípios, formou um movimento guiado por uma lógica conspiratória.

    Na pandemia, o país assistiu a uma guerra ideológica invadir um terreno em que deveriam prevalecer evidências. O governo foi amplamente negacionista, espalhou dúvidas sobre vacinas, sabotou medidas de proteção e deu palco a tratamentos sem respaldo científico. A cloroquina virou símbolo dessa tragédia. Máscara, vacina e remédio deixaram de ser assuntos de saúde pública e passaram a funcionar como marcadores de identidade política.

    Vejas cenas de 'Anatomia do Caos', de Dandara Ferreira
    Vejas cenas de 'Anatomia do Caos', de Dandara Ferreira — Foto: UOL · Fonte: UOL

    Esse foi um dos retratos mais cruéis do bolsonarismo. Em vez de liderar o país em um momento de luto e medo, o poder preferiu transformar a dor coletiva em trincheira ideológica. O Brasil viu os mortos se acumularem e se tornou o país com o segundo maior número acumulado de mortes confirmadas por Covid-19 no mundo, atrás apenas dos Estados Unidos.

    Depois, restaram as famílias devastadas e, hoje, os ossos dos mortos. Houve ali mais que incompetência. Houve um projeto político incapaz de reconhecer o valor da vida humana fora de sua própria bolha de fanatismo.

    Além disso, a retórica contra "o sistema" conviveu muito bem com práticas clássicas da velha política. O bolsonarismo prometeu romper com os vícios de Brasília , só que acabou reproduzindo loteamentos, acomodações oportunistas, fisiologismo e uso patrimonial do poder. Apesar do discurso de ruptura, a prática foi de conveniência. O gesto antissistema serviu como cortina para formas bem conhecidas de fazer política.

    Imagem da matéria
    Foto: UOL · Fonte: UOL

    O orçamento secreto, montado para comprar apoio no Congresso sem rastro de autoria, foi uma das versões dessa contradição. Ciro Nogueira figurou entre os principais beneficiados. O senador bolsonarista também manteve uma relação com Daniel Vorcaro , ex-dono do Banco Master , a quem Flávio Bolsonaro chegou a chamar de "irmão".

    O próprio Flávio está sendo investigado por suspeitas de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção relacionadas ao filme do pai, Jair Bolsonaro , preso por uma tentativa de golpe de Estado . Flávio procurou Daniel Vorcaro para negociar R$ 134 milhões para a produção de "Dark Horse".

    Também se propagandeou a ideia de que o bolsonarismo seria uma defesa da liberdade. Só que a liberdade ali quase sempre apareceu de forma seletiva. Valia para atacar a imprensa, ser grosseiro com mulheres e jornalistas, intimidar adversários, espalhar desinformação ou desacreditar as eleições. Já o respeito às instituições ficou em segundo plano. E o respeito ao ser humano foi ignorado.

    Uma direita séria tem muito a agregar ao país. Ela pode defender sua visão de mundo e contribuir, da sua maneira, com avanços na sociedade. O que ela não pode fazer é aceitar como normal o aprofundamento da erosão da República, o flerte com saídas autoritárias, a paranoia e o desprezo à vida humana.

    O texto é uma homenagem à música "Tô", de Tom Zé.

    Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha

    LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

    Você já conhece as vantagens de ser assinante da Folha? Além de ter acesso a reportagens e colunas, você conta com newsletters exclusivas ( conheça aqui ). Também pode baixar nosso aplicativo gratuito na Apple Store ou na Google Play para receber alertas das principais notícias do dia. A sua assinatura nos ajuda a fazer um jornalismo independente e de qualidade. Obrigado!

    Mais de 180 reportagens e análises publicadas a cada dia. Um time com mais de 200 colunistas e blogueiros. Um jornalismo profissional que fiscaliza o poder público, veicula notícias proveitosas e inspiradoras, faz contraponto à intolerância das redes sociais e traça uma linha clara entre verdade e mentira. Quanto custa ajudar a produzir esse conteúdo?

    Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.

    Na página Colunas da Folha você encontra opinião e crônicas de colunistas como Mônica Bergamo , Elio Gaspari , Djamila Ribeiro , Tati Bernardi , Dora Kramer , Ruy Castro , Muniz Sodré , Txai Suruí , José Simão , Thiago Amparo , Antonio Prata e muito mais.

    Publicado originalmente por UOL. Leia a matéria completa em https://www1.folha.uol.com.br/colunas/michael-franca/2026/09/o-bolsonarismo-e-uma-pessima-opcao.shtml.

    Imagem 1
    1 / 3

    Corpos são enterrados à noite em cemitério da zona leste de SP — Foto: UOL

    Compartilhe

    Espalhe essa notícia

    Comentários(0)