Brasil

    O bobo da corte e o freio nos dentes

    Na sabatina da TV Globo , durante a campanha presidencial de 2022, Lula acusou Bolsonaro de ter capitulado: "Bolsonaro não manda em nada. Ele é refém do centrão". Arrematando: "Bolsonaro parece um bobo da corte, não controla o Orçamento". Leia mais (08/30/2026 - 16h00)

    Folha de S.Paulo
    30 de agosto de 2026 às 19:00
    O bobo da corte e o freio nos dentes
    Homem de terno preto, camisa branca e gravata escura, usando chapéu bege, está sentado em cadeira preta atrás de mesa cinza em estúdio com fundo azul. Ao fundo, palavra 'ELEIÇÕES' em letras grandes e logo da emissora. — Foto: Folha de S.Paulo

    Professor da Universidade Federal de Pernambuco e ex-professor visitante do MIT e da Universidade Yale (EUA)

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    Luiz Inácio Lula da Silva (PT) participa da série de entrevistas promovida pela TV Globo com os postulantes ao Palácio do Planalto - Manoella Mello - 27.ago.26/Divulgação TV Globo · Manoella Mello - 27.ago.26/Divulgação TV Globo
    Luiz Inácio Lula da Silva (PT) participa da série de entrevistas promovida pela TV Globo com os postulantes ao Palácio do Planalto - Manoella Mello - 27.ago.26/Divulgação TV Globo · Manoella Mello - 27.ago.26/Divulgação TV Globo — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Na sabatina da TV Globo , durante a campanha presidencial de 2022, Lula acusou Bolsonaro de ter capitulado: "Bolsonaro não manda em nada. Ele é refém do centrão". Arrematando: "Bolsonaro parece um bobo da corte, não controla o Orçamento".

    A frase retornou como um bumerangue. Hoje, é o próprio Lula quem se vitimiza como refém de um Congresso que capturou o Orçamento . O que, sob Bolsonaro, era descrito como incapacidade pessoal passou, sob Lula, a ser apresentado como patologia institucional.

    A revista The Economist acaba de publicar matéria intitulada: A grande democracia em que os parlamentares são mais poderosos que o Executivo. A revista parte de um paradoxo. Na última década, candidatos a autocratas, dos Estados Unidos à Turquia e à Índia, acumularam poder por meio do chamado executive aggrandizement: a expansão unilateral do Executivo em detrimento das instituições encarregadas de controlá-lo, sobretudo o Legislativo.

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Mas isto não é novidade para os leitores desta coluna. Como argumentamos em 2024, em "Por Que a Democracia Brasileira Não Morreu?" (Cia. da Letras) , escrito em coautoria com Carlos Pereira, o Brasil seguiu na direção contrária, o presidente perdeu poder para o Congresso e também para o Judiciário. O desequilíbrio teria chegado a tal ponto que os parlamentares e o mundo dos negócios já não parecem se importar muito com quem vencerá a eleição presidencial: qualquer que seja o eleito, será obrigado a capitular diante dos demais poderes.

    A inversão histórica é extraordinária. O Executivo brasileiro já foi descrito como superpoderoso e majestoso. Em "His Majesty the President of Brazil", publicado em 1936, o diplomata britânico Ernest Hambloch descreveu o Congresso como "destituído de poderes vis-à-vis o Executivo" e os tribunais como "invariavelmente flácidos, dependendo demasiado do Executivo que os nomeia". O presidente da República conservava poderes quase imperiais.

    Mas o poder formal da Presidência nunca contou toda a história. Ao examinar a crise do governo Vargas, em "Razões da Crise", de 1954, Hermes Lima —ex-membro do gabinete presidencial e ex-membro do STF— identificou a condição política da hegemonia presidencial: "Se o presidente é dotado de forte personalidade e seu partido conta com maioria no Congresso, o Executivo, já poderoso pelo seu caráter unipessoal, impõe de forma avassaladora sua vontade. Se o presidente é fraco, o Congresso toma o freio nos dentes".

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    Escasso poder partidário é só parte da explicação, como mostrei aqui. Apoio parlamentar se constrói com liderança e capacidade de gestão. No que chamo de modo sobrevivência, a construção de base parlamentar e a relação com o Judiciário tem sido pouco republicana. O resultado não é a morte da democracia através de autogolpe, mas a deterioração institucional dos três Poderes.

    Isso não torna equivalentes um autocrata que captura as instituições, um Congresso que abocanha o Orçamento, ou tribunais que abusam de poder. O primeiro ameaça a sobrevivência da democracia; o segundo produz corrupção, irresponsabilidade fiscal e paralisia decisória; o terceiro, a perda de legitimidade e degradação institucional.

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/marcus-melo/2026/08/o-bobo-da-corte-e-o-freio-nos-dentes.shtml.

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    Luiz Inácio Lula da Silva (PT) participa da série de entrevistas promovida pela TV Globo com os postulantes ao Palácio do Planalto - Manoella Mello - 27.ago.26/Divulgação TV Globo · Manoella Mello - 27.ago.26/Divulgação TV Globo — Foto: Folha de S.Paulo

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