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    O azarão e a barbada

    Não tenho bola de cristal. Nenhuma funciona, salvo nas mãos de mágicos e ilusionistas. Retrovisores são mais úteis. O primeiro em automóvel é atribuído a Ray Harroun, vencedor das 500 Milhas de 1911 com um espelho preso ao seu Marmon Wasp. Virou indispensável -embora traga no vidro a advertência de que a imagem é distorcida. É com essa cautela que olho para as pesquisas que registram a subida de Augusto Cury , escritor de autoajuda e candidato à Presidência pelo Avante . Leia mais (09/07/2026 - 22h00)

    Folha de S.Paulo
    8 de setembro de 2026 às 01:00
    O azarão e a barbada
    Homem de meia-idade com óculos fala para vários microfones de jornalistas. Mulher segura celular que grava a entrevista, mostrando o rosto do homem na tela. Outro homem observa ao fundo em ambiente interno. — Foto: Folha de S.Paulo

    Expressa as ideias do autor e defende sua interpretação dos fatos​

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    O Candidato a presidente pelo Avante, Augusto Cury, em Curitiba (PR) - Divulgação Avante · Divulgação Avante
    O Candidato a presidente pelo Avante, Augusto Cury, em Curitiba (PR) - Divulgação Avante · Divulgação Avante — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Jornalista e escritor, usa inteligência artificial para produzir seus textos

    Não tenho bola de cristal. Nenhuma funciona, salvo nas mãos de mágicos e ilusionistas. Retrovisores são mais úteis. O primeiro em automóvel é atribuído a Ray Harroun, vencedor das 500 Milhas de 1911 com um espelho preso ao seu Marmon Wasp. Virou indispensável —embora traga no vidro a advertência de que a imagem é distorcida. É com essa cautela que olho para as pesquisas que registram a subida de Augusto Cury , escritor de autoajuda e candidato à Presidência pelo Avante .

    O retrovisor eleitoral está cheio de azarões e terceiras vias.

    Debate com os candidatos à Presidência
    Debate com os candidatos à Presidência — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Em 1950, Cristiano Machado era o candidato oficial do PSD . Quando Getúlio Vargas se mostrou competitivo, caciques do PSD debandaram. Getúlio venceu e Cristiano virou verbo: "cristianizar" um candidato é deixá-lo no papel enquanto seus apoios buscam alguém com chance real.

    Jânio Quadros, dez anos depois, empunhava a vassoura contra a velha política, mas já governara São Paulo e tinha a UDN. Collor saiu de um partido minúsculo, em 1989, e ganhou ao deixar de ser terceira via para encarnar o polo anti- Lula . Jair Bolsonaro repetiu a fórmula em 2018: era azarão partidário, nunca ideológico. Havia um enorme eleitorado antipetista à procura de candidato, e ele ocupou a vaga.

    Talvez interessem mais a Cury os que subiram e caíram. Ciro Gomes disparou em 2002, ameaçou José Serra e parecia capaz de superar Lula no segundo turno. Quando passou a ameaçar a vaga, levou uma raquetada tucana que, somada a erros próprios, o deixou longe do segundo turno. Hoje disputa o governo do Ceará numa aliança com o PL que o aproximou do bolsonarismo e dividiu a família Bolsonaro.

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Marina Silva viveu roteiro parecido em 2014. Empatou com Dilma Rousseff e parecia capaz de vencê-la. A campanha petista tratou de desconstruí-la. Marina terminou em terceiro. Hoje, reconciliada com Lula, é sua ex-ministra e concorre ao Senado por São Paulo com apoio petista.

    A regra é velha: a terceira via só vence quando deixa de ser terceira. Por isso, vale observar Gilberto Kassab , um dos políticos mais sagazes. Enquanto boa parte do centro preferiu não ter candidato, ele lançou Ronaldo Caiado, tornou-se seu vice e passou a afirmar que o PSD não integra o centrão. Recusa até o rótulo de terceira via —chama a chapa de melhor via. Se funcionar, terá criado um polo. Se não, conhece os caminhos de volta.

    E Cury? Pode desidratar quando começar o fogo cerrado e o voto útil convocar seus eleitores. Pode sobreviver e virar fiel da balança no segundo turno. Ou ser o "dark horse" de verdade, o cavalo em que quase ninguém apostava e que, de repente, disputa a chegada.

    ilustração de Daniel Bueno para as páginas do projeto editorial da Folha
    ilustração de Daniel Bueno para as páginas do projeto editorial da Folha — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Há, porém, um ponto em que ela ganha nitidez. Seja quem for o próximo presidente, terá de negociar com um Congresso em que centrão e MDB dispõem de bancadas, orçamento, emendas e governos estaduais.

    Nosso presidencialismo de coalizão ganhou traços de semiparlamentarismo: o eleitor escolhe o Planalto, mas boa parte das condições de governar se decide no Congresso.

    Cury pode cair, arbitrar ou vencer. Lula e Flávio Bolsonaro podem chegar ao segundo turno —ou descobrir que o retrovisor não mostrava a ultrapassagem.

    Na pule presidencial, não arrisco vencedor. No placê, há uma barbada: o centrão. Não vai cruzar o disco em primeiro, mas estará na fotografia da chegada e, no dia seguinte, outra vez, com a faca e o queijo na mão. TENDÊNCIAS / DEBATES Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2026/09/o-azarao-e-a-barbada.shtml.

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    O Candidato a presidente pelo Avante, Augusto Cury, em Curitiba (PR) - Divulgação Avante · Divulgação Avante — Foto: Folha de S.Paulo

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