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    O ator com Alzheimer que agora está à frente de um espetáculo solo

    Durante quatro dias seguidos, Peter Marinker chegou para ensaios que nem sequer estavam acontecendo. A demência havia confundido as datas em sua mente. Leia mais (09/01/2026 - 17h22)

    Folha de S.Paulo
    1 de setembro de 2026 às 20:22
    O ator com Alzheimer que agora está à frente de um espetáculo solo
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    Durante quatro dias seguidos, Peter Marinker chegou para ensaios que nem sequer estavam acontecendo. A demência havia confundido as datas em sua mente.

    Peter Marinker, diagnosticado com Alzheimer há dois anos, começou em junho os ensaios da peça 'A Última Gravação de Krapp', de Samuel Beckett - Stagefright Films · Stagefright Films
    Peter Marinker, diagnosticado com Alzheimer há dois anos, começou em junho os ensaios da peça 'A Última Gravação de Krapp', de Samuel Beckett - Stagefright Films · Stagefright Films — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Ainda assim, ele agora se prepara para fazer algo que a maioria dos atores consideraria intimidador mesmo com a memória em perfeito estado: interpretar sozinho, em um palco de Londres , no Reino Unido , uma peça muito apreciada do dramaturgo irlandês Samuel Beckett .

    Marinker, de 85 anos, é mais conhecido por seus trabalhos de voz, que vão de peças de rádio e videogames a filmes de grande orçamento como "Labirinto: A Magia do Tempo " (1986) e "Paddington: Uma Aventura na Floresta" (2025).

    No cinema, interpretou o assessor do presidente dos Estados Unidos em "Simplesmente Amor" (2003) e um dos passageiros do avião no drama "Vôo United 93" (2006).

    Dave Wybrow, diretor do Cockpit Theatre, convidou Peter Marinker no início deste ano para atuar na peça - Stagefright Films · Stagefright Films
    Dave Wybrow, diretor do Cockpit Theatre, convidou Peter Marinker no início deste ano para atuar na peça - Stagefright Films · Stagefright Films — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Em 2023, Marinker interpretava Gandalf em uma versão teatral de "O Senhor dos Anéis" quando sentiu que estava "se desligando", e um ator substituto teve de assumir o papel pelo restante da temporada.

    Marinker então passou por exames de ressonância magnética e outros testes de saúde . Há dois anos, recebeu o diagnóstico de doença de Alzheimer .

    A América Latina é a região mais afetada pela demência no mundo. Mais da metade dos casos pode ser evitada com o controle de fatores de risco como baixa escolaridade, perda auditiva, hipertensão, obesidade , tabagismo , depressão , isolamento, sedentarismo, diabetes , consumo excessivo de álcool, poluição e traumas na cabeça.

    Taiyaba Zeria, da Alzheimer's Society, afirma que é preciso mudar a percepção sobre o que pessoas com demência são capazes de fazer, à medida que casos se tornam mais frequentes - BBC · BBC
    Taiyaba Zeria, da Alzheimer's Society, afirma que é preciso mudar a percepção sobre o que pessoas com demência são capazes de fazer, à medida que casos se tornam mais frequentes - BBC · BBC — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    "Eu simplesmente tive que aceitar", diz Marinker. "Isso explicou por que eu vivia perdendo coisas, e comecei a rir de mim mesmo, de todas as outras bobagens que faço repetidamente."

    Naquele momento, alguns atores talvez tivessem decidido se afastar da pressão de se apresentar diante de uma plateia ao vivo.

    Mas, "do nada", Marinker recebeu uma ligação de alguém com quem havia trabalhado de perto no passado: Dave Wybrow, diretor do Cockpit Theatre, em Londres.

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    A ideia era encenar um monólogo de Beckett, "A Última Gravação de Krapp", em que um escritor idoso ouve gravações de quando era mais jovem e relembra uma vida de arrependimentos e oportunidades perdidas.

    "É um espetáculo explosivo e um texto explosivo", diz Wybrow, cuja mãe também teve problemas de memória no fim da vida.

    Os ensaios acontecem desde o fim de junho para que Marinker tenha mais tempo para praticar, e uma equipe inteira foi reunida para tornar a montagem possível.

    Mulher com cabelo cacheado e escuro, usando blusa branca de crochê, está em ambiente interno com iluminação quente e fundo desfocado.
    Mulher com cabelo cacheado e escuro, usando blusa branca de crochê, está em ambiente interno com iluminação quente e fundo desfocado. — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Um diretor de palco ficará ao lado do cenário durante as apresentações, haverá telas de teleprompter em diferentes pontos do teatro , e Marinker usará um pequeno ponto eletrônico para receber uma ajuda rapidamente caso se esqueça de alguma fala.

    Wybrow é categórico ao dizer que a ideia não é "esconder" a doença de Marinker, mas mostrar que o trabalho criativo e colaborativo continua perfeitamente possível depois de um diagnóstico de demência.

    Desde o primeiro dia, Marinker diz que não teve nenhuma preocupação.

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    "Dave [Wybrow] perguntou se eu gostaria de fazer, e eu só respondi: 'Sim. Ah, sim, sim, sim, sim!'", diz Marinker.

    "Vou ficar nervoso [na noite de estreia], mas sei lidar com isso. É só a adrenalina."

    Esta não é a primeira vez que Marinker interpreta a peça. Ele assumiu o mesmo papel pela primeira vez em 1983.

    A equipe da produção encontrou gravações em fita daquela montagem, feita há mais de 40 anos, e elas serão incorporadas ao novo espetáculo enquanto o personagem ouve ecos de seu eu mais jovem.

    Uma das características do Alzheimer é que a perda de memória pode ser seletiva, e não uniforme.

    No início da doença, regiões ao redor do hipocampo, localizado nos lobos temporais do cérebro, estão entre as primeiras a ser afetadas.

    Essa região desempenha um papel fundamental na formação e na recuperação do que os cientistas chamam de memórias episódicas: lembranças de acontecimentos e experiências específicas da vida de uma pessoa.

    É por isso que pessoas com Alzheimer podem ter dificuldade, por exemplo, para se lembrar de férias em família , de uma conversa com um amigo ou do nome de alguém.

    Mas outras memórias ligadas a habilidades e rotinas praticadas muitas vezes, podem permanecer preservadas por mais tempo.

    "Algo armazenado na memória consolidada de longo prazo costuma ser mais fácil de acessar do que memórias novas, que acabaram de ser formadas", diz Tara Spires-Jones, professora de Neurodegeneração da Universidade de Edimburgo, no Reino Unido, e autora do livro "Fighting for Our Minds" (Lutando por nossas mentes, em tradução livre).

    Isso ajuda a explicar por que algumas pessoas com Alzheimer ainda conseguem preparar uma xícara de chá, lembrar letras de músicas ou até tocar uma música ou interpretar um texto teatral ensaiado muitas vezes depois que outras memórias já começaram a desaparecer.

    Todo o lucro da temporada de quatro dias será destinado à Alzheimer's Society, organização que ajudou Marinker após o diagnóstico.

    Uma pesquisa realizada para a organização em 2025 indicou que 42% das pessoas que vivem com demência sentiam vergonha de seus sintomas.

    Uma em cada cinco pessoas com problemas de memória afirmou não ter procurado um médico para obter um diagnóstico por receio da reação de amigos e familiares.

    O estigma "ainda é muito presente", diz Taiyaba Zeria, que coordena serviços de apoio a pessoas com demência da Alzheimer's Society em Londres.

    "O que Peter [Marinker] está fazendo mostra claramente que um diagnóstico não é o fim e que uma pessoa que vive com demência ainda pode fazer muitas coisas de que gosta e pelas quais é apaixonada."

    Marinker, por sua vez, descreve o projeto como seu "maravilhoso canto do cisne".

    "Estou no estágio inicial [da doença], então preciso aproveitar ao máximo essa fase e me preparar da melhor maneira possível para o estágio intermediário", diz Marinker, com uma risada irônica.

    "Talvez eu consiga chegar ao fim desta [apresentação], ou talvez simplesmente caia duro!"

    Este texto foi publicado originalmente aqui .

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/equilibrio/2026/09/o-ator-com-alzheimer-e-que-agora-esta-a-frente-de-um-espetaculo-solo.shtml.

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