Brasil

    Novo governo terá desafio de recuperar planejamento do setor de energia e deter escalada de preços

    Abundância de fontes renováveis convive com desperdício de produção e conta de luz mais alta para famílias e empresas

    UOL
    23 de setembro de 2026 às 03:00
    Novo governo terá desafio de recuperar planejamento do setor de energia e deter escalada de preços
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    O próximo presidente vai precisar resolver um paradoxo no setor de energia. O Brasil avança na transição e ampliou fortemente a oferta de renováveis, que têm custos cada vez mais baixos. No entanto, convive com cortes de produção de eletricidade e aumentos na conta de luz .

    Presidente da Abividro, Lucien Belmonte, em linha de produção de fabricante de embalagens de vidro; setores intensivos em energia estão entre os mais afetados pela alta dos custos - Karime Xavier/Folhapress · Karime Xavier/Folhapress
    Presidente da Abividro, Lucien Belmonte, em linha de produção de fabricante de embalagens de vidro; setores intensivos em energia estão entre os mais afetados pela alta dos custos - Karime Xavier/Folhapress · Karime Xavier/Folhapress — Foto: UOL · Fonte: UOL

    Também não tem infraestrutura para usar gás natural no lugar de fontes mais poluentes, muito menos escalar o consumo de biocombustíveis.

    Especialistas dizem que a situação é crítica em alguns segmentos, e a raiz dessa distorção está na perda da capacidade de planejamento nessa área tão estratégica para o desenvolvimento econômico.

    Há um consenso entre os técnicos de que as decisões na área de energia como um todo —que reúne eletricidade, óleo e gás, biocombustíveis— passaram a ser tomadas de forma fragmentada, fonte a fonte, setor a setor.

    Como funciona a matriz elétrica brasileira
    Como funciona a matriz elétrica brasileira — Foto: UOL · Fonte: UOL

    Também atendem muito mais a lobbies pontuais, sem considerar o efeito sobre o custo para o consumidor, o impacto para o desenvolvimento econômico interno ou a competitividade do Brasil no cenário internacional.

    O desarranjo é generalizado, afirma a diretora-executiva do Instituto E+ Transição Energética, Rosana Santos. Mas, segundo ela, o segmento que mais sofre é o setor elétrico.

    Reportagens mostram os principais gargalos com que o mandatário eleito terá de lidar em sete áreas estratégicas —fiscal, saúde, segurança, Judiciário, relações internacionais, educação e energia— e apresenta as propostas dos principais candidatos para cada tema

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    O país convive diariamente com o curtailment —cortes compulsórios na geração, principalmente de fontes renováveis, quando a produção supera a capacidade de consumo ou de escoamento do sistema. O problema se agravou com a rápida expansão da geração solar distribuída, instalada em telhados e fazendas solares.

    Durante o dia, a oferta solar dá um salto, mas cai rapidamente ao pôr do sol, obrigando o sistema a recorrer a outras fontes para equilibrar oferta e demanda.

    O excesso de geração pode levar a apagões e vem desafiando a gestão do ONS (Operador Nacional do Sistema). O sobe e desce na oferta também faz o preço ter forte oscilação no mercado livre, ambiente onde empresas compram e vendem sem depender da distribuidora local.

    BRASILIA, DF,  BRASIL,  05-07-2024, 12h00: Fachada do Congresso Nacional, em Brasília. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress, PODER)
    BRASILIA, DF, BRASIL, 05-07-2024, 12h00: Fachada do Congresso Nacional, em Brasília. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress, PODER) — Foto: UOL · Fonte: UOL

    Os cortes, por sua vez, afetam o caixa de hidrelétricas, usinas eólicas e solares, que não são pagas quando não produzem. Os prejuízos já levaram a recuperações judiciais e paralisaram investimentos em energia limpa, isso num momento em que o mundo demanda mais dessas fontes.

    Rosana lembra que, para dar segurança ao sistema diante do desequilíbrio entre oferta e demanda, o governo federal fez o Leilão de Reserva de Capacidade, que alimentou muita divergência .

    Térmicas foram contratadas para garantir potência nos momentos de maior necessidade. Mas não houve a devida atenção aos preços, transferindo custos para os consumidores. Segundo ela, estimativas apontam um impacto de US$ 5 a US$ 10 por MWh (megawatt-hora) sobre o setor produtivo, o que ela classifica como gigante.

    "Quando se faz um leilão desse jeito, sem se preocupar com o impacto sobre a economia, com certeza você está fugindo do planejamento e atuando mais setorialmente do que qualquer outra coisa."

    Rosana diz que encarecer a energia é um contrassenso no momento em que o Brasil tenta usar suas renováveis como vantagem industrial —beneficiar minerais estratégicos, produzir fertilizantes, ganhar mercado com combustíveis de baixo carbono e receber grandes data centers.

    Para a especialista, planejar o setor significa ir além de decidir a construção de usinas e linhas de transmissão. Representa estabelecer uma conexão entre o avanço dessa infraestrutura e as atividades que o Brasil quer priorizar para crescer e gerar empregos nas próximas décadas.

    Ela cita como exemplo a exploração de novas reservas de petróleo . Os programas de governo dos candidatos que lideram em intenção de votos, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro ( PL ), por exemplo, defendem ampliar a exploração de petróleo e gás. Nenhum, porém, detalha como a renda gerada pelas novas reservas será usada para preparar a economia para um futuro menos dependente dos combustíveis fósseis.

    A indústria é o setor que há mais tempo alerta para o descontrole nos preços da energia. Grandes consumidores de setores como cimento, alumínio, químicos, vidro e cerâmica sofrem com aumentos acima da inflação, explica o executivo Lucien Belmonte, presidente da Abvidro (Associação Brasileira das Indústrias de Vidro).

    A energia é um insumo relevante mesmo em produtos nos quais esse custo não é evidente. Representa 29,8% do preço final do pão francês e 18,7% do preço do café moído. Em produtos mais intensivos em energia, o peso chega a 43,9% —caso dos revestimentos de pisos e paredes— e 31,6%, no cimento.

    "Inúmeras cadeias estão se tornando inviáveis no Brasil por causa do custo da energia", afirma Belmonte, que também atua como porta-voz da União Pela Energia e coordenador do Fórum do Gás.

    Belmonte aponta a evolução dos preços da energia no Brasil em relação a outros mercados como um sinal da perda de competitividade do país. De 2000 a junho de 2026, considerando valores em dólar, o preço da energia elétrica para o setor produtivo brasileiro acumulou alta de 327,7%. O valor é quase o dobro dos 145,3% de alta registrada nos Estados Unidos e um salto se comparado ao aumento de apenas 12,5% na União Europeia.

    O gás natural ficou 154,5% mais caro no Brasil , enquanto houve queda de 64% no mercado americano. No caso do óleo diesel, o avanço foi de 266,2% no Brasil, frente aos 222,1% dos EUA e os 198,1% da UE. Os comparativos foram feitos pela Ex Ante Consultoria Econômica para a Abrace (Associação Brasileira dos Grandes Consumidores de Energia e Consumidores Livres).

    Na avaliação de Belmonte, a redução do preço da energia deveria estar incluída dentro da política econômica do Estado, dado o peso que tem sobre a inflação. Um ponto de partida seria rever subsídios, que já passaram de R$ 50 bilhões ao ano. "Subsídio não é um direito eterno e irrevogável", afirma.

    O presidente da Frente Nacional dos Consumidores de Energia, Luiz Eduardo Barata , defende ir além. Segundo ele, medidas pontuais já não bastam, e é necessária uma grande reforma do setor elétrico, que reveja toda a sistemática de expansão do sistema e sua governança.

    "A expansão se faz hoje por caneta, movimentos políticos, movimentos de pressão, não por instrumentos técnicos e econômicos", afirma Barata.

    A mudança deveria começar pelo próprio critério usado para definir a política energética. "O foco da reforma tem que ser o consumidor, que paga a conta, não o interesse particular das empresas de cada setor, como tem sido feito", diz o especialista.

    A reforma também terá de preparar o sistema para as mudanças climáticas, afirma Barata. Eventos extremos já afetam reservatórios, rios, linhas de transmissão e redes de distribuição, exigindo que o planejamento incorpore riscos que antes não estavam presentes.

    Barata não prevê uma crise de abastecimento semelhante à de 2001. O país conta hoje com abundância de geração renovável e capacidade térmica. O risco, afirma, é outro: uma crise de sustentabilidade do setor, com empresas em dificuldades financeiras e uma operação cada vez mais delicada e complexa.

    Mesmo com sobra de energia, diz, podem ocorrer apagões pontuais por dificuldades na gestão do sistema.

    Em suas propostas para esse setor considerado estratégico, Lula e Flávio Bolsonaro prometem energia mais barata, expansão da transmissão, armazenamento e uso da matriz renovável para atrair investimentos.

    As estratégias, porém, divergem em pontos importantes: Lula vincula a transição energética à política industrial e atribui papel relevante à Petrobras, enquanto Flávio propõe reduzir gradualmente a CDE (Conta de Desenvolvimento Energético) e os incentivos às fontes de energia, além de enfatizar investimento privado e segurança regulatória.

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    Publicado originalmente por UOL. Leia a matéria completa em https://www1.folha.uol.com.br/poder/2026/09/novo-governo-tera-desafio-de-recuperar-planejamento-do-setor-de-energia-e-deter-escalada-de-precos.shtml.

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    Presidente da Abividro, Lucien Belmonte, em linha de produção de fabricante de embalagens de vidro; setores intensivos em energia estão entre os mais afetados pela alta dos custos - Karime Xavier/Folhapress · Karime Xavier/Folhapress — Foto: UOL

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