Novo Apple Watch ‘ouve’ conversas – e isso pode virar um pesadelo de privacidade
Recursos de “Inteligência de Áudio” dos novos modelos de Apple Watch podem monitorar conversas, o que preocupa especialistas O post Novo Apple Watch ‘ouve’ conversas – e isso pode virar um pesadelo de privacidade apareceu primeiro em Olhar Digital .

Sabe quando você pesquisa algo por meio do Google Lens? Ou quando circula algo numa captura de tela num iPhone para saber mais sobre a coisa em questão? Ao fazer isso, você coloca a inteligência artificial (IA) para “ver” o que você está vendo – seja na tela, seja via câmera do celular. Na quarta-feira (09), a Apple lançou a “Inteligência de Áudio”. É um pacote de recursos que colocam a IA para “ouvir” o que você está ouvindo.
Essa nova, digamos, categoria apareceu na demonstração dos dois novos modelos de Apple Watch: o Apple Watch Series 12 e o Apple Watch Ultra 4. Entre os recursos dessa nova “inteligência” anunciados pela empresa, estão o Live Rewind e o Siri Recap (ainda sem tradução oficial).
A Apple descreve esses dois recursos da seguinte forma:

Ou seja: os novos modelos de Apple Watch conseguem ficar “de ouvido” no que está sendo dito, se o usuário quiser. E isso preocupa especialistas em privacidade consultados pelo Olhar Digital .
A Inteligência de Áudio ( Audio Intelligence ) é uma nova categoria de recursos do conjunto de IA da Apple (Apple Intelligence). Ela foi criada para o Apple Watch Series 12 e Apple Watch Ultra 4.
A categoria combina os microfones do relógio, o processamento do chip do dispositivo e modelos de IA para reconhecer sons do ambiente, identificar músicas e registrar trechos ou resumos de conversas.

Os quatro recursos principais da Inteligência de Áudio são: reconhecimento de som, identificação de música, Live Rewind e Siri Recap. Os dois últimos você já conhece. Os demais funcionam assim:
O áudio captado passa por um compartimento de memória isolado dentro do chip S11 do relógio, chamado Secure Exclave. Esse espaço analisa o som separadamente do resto do sistema e apaga o áudio bruto imediatamente após o processamento, segundo a Apple.
Recursos como o reconhecimento de som e o Live Rewind funcionam no dispositivo de maneira local. Já o Siri Recap envia o texto condensado da conversa (sem o áudio) para o Private Cloud Compute (a nuvem privada de processamento da Apple) para gerar os resumos.

Para Arthur Igreja, especialista em tecnologia e inovação, essa nova capacidade de monitoramento de conversa é “bastante estranha”.
Antes, uma dose de contexto: “O Plaud, aquele dispositivo que vai atrás do smartphone – ou, na versão pin, pode ir na sua roupa – que grava e transcreve com altíssima qualidade anunciou seu primeiro fone justamente para monitorar o ambiente. A Apple está revidando com o seu smartwatch, apresentando um recurso para você fazer resumo de reuniões e de conversas, por exemplo. Ela está entrando nesse campo porque o Plaud fez muito sucesso nos últimos anos”, disse o especialista, em entrevista ao Olhar Digital .
No entanto, para Igreja, o Live Rewind é um recurso “quase bizarro”. “O exemplo que eles mostraram é estranhíssimo: a pessoa entra num restaurante, alguém fala as opções do cardápio, a pessoa não entende ou não escuta, olha no relógio e aperta um recurso para voltar 15 segundos.”

Parece que as pessoas podem estar tão distraídas que é como se o relógio refizesse um TikTok do mundo dos últimos 15 segundos. Achei um exemplo estranhíssimo.
Sobre segurança e privacidade da “Inteligência de Áudio”, a Apple frisou que:
Na sua página sobre os novos recursos, a empresa incluiu a seguinte observação: “Considere as pessoas ao seu redor. Embora o áudio não seja gravado nem armazenado e as falas não sejam atribuídas a falantes específicos, leve em consideração as pessoas próximas caso as conversas sejam privadas ou tratem de assuntos sensíveis.”

Marcelo Cárgano, advogado e coordenador do Japan Desk no escritório Abe Advogados, diz, em entrevista ao Olhar Digital , que essa observação “parece ser uma tentativa da empresa de se isentar de responsabilidade pelo tratamento de dados (um disclaimer), transferindo ao usuário final a responsabilidade legal e ética pelo uso da ferramenta”.
Paulo Henrique Fernandes, advogado e Head de Produtos e Tecnologia na V+ Tech, considera que os novos modelos de Apple Watch, bem como a tal “Inteligência de Áudio”, têm “arquitetura boa”.
“Processa no próprio aparelho, a Apple diz não guardar o áudio bruto, é opcional, tem criptografia, apaga sozinho e ainda avisa quem está por perto no Live Rewind. Isso conversa com o princípio da prevenção e com a ideia de segurança desde a concepção do produto, o tal privacy by design , que é para onde a LGPD empurra”, diz o advogado, em entrevista ao Olhar Digital . “Só que arquitetura boa não encerra a discussão.”

“A proteção de dados não olha para o arquivo de áudio. Olha para informação sobre a pessoa”, explica o especialista. “Quando o relógio transforma o que o outro falou em texto ou num resumo que fica salvo, já existe tratamento de informação de gente identificável, tendo áudio ou não. Esse ‘não grava áudio’ tranquiliza o engenheiro e resolve pouco do lado jurídico.”
O especialista também observa que os dois recursos – o Live Rewind e o Siri Recap – “não pesam igual”.
O Live Rewind é pontual: só funciona quando a pessoa aciona, mostra os últimos 15 segundos e emite sinal sonoro e visual, mesmo com o relógio no silencioso. Já o Siri Recap é mais invasivo por natureza: pode anotar de forma ambiente ao longo do dia, nos horários e lugares que o usuário definir, e vira resumo que fica disponível. É esse, o mais silencioso, que me preocupa.

O advogado também explica como questões de privacidade podem virar problemas na Justiça. “Registrar o que alguém disse, ainda mais em lugar reservado ou quando você nem participa da conversa, pode render dano moral por violação de privacidade, imagem e voz”, diz Fernandes. “E aqui o Siri Recap é o mais exposto, porque, captando o ambiente, acaba pegando conversa da qual o usuário sequer participa. Aí a discussão deixa de ser só sobre a privacidade de quem usa e passa a envolver a de quem está ao redor.”
Por fim, o especialista destaca o seguinte: “Não dá para travar a discussão no ‘não grava áudio’. A proteção jurídica não depende do formato. Estar em áudio, texto ou resumo não elimina, por si só, que ali existe tratamento de dado pessoal.”
“A lei protege a pessoa e a informação sobre ela, não o formato do arquivo”, acrescenta o advogado. “Um texto fiel do que você falou numa conversa privada pode ser tão sensível quanto o áudio, às vezes até mais, porque texto se busca, se resume e se repassa em dois toques.”
Para Cárgano, “o que temos visto neste e em outros recursos tecnológicos é um conflito inerente entre, por um lado, uma maior conveniência do usuário, e, por outro, a expectativa geral de privacidade tanto do próprio usuário quanto de terceiros”.
Além disso, o advogado frisa que questões relacionadas à LGPD estão em apenas uma das camadas do debate sobre o tema. E não são o cerne.
“O cerne da controvérsia apresentada por ferramentas como essa ( bem como os recém-lançados óculos com câmera e microfone embutidos ) não é somente jurídico, mas social”, diz o advogado, que também é mestre em Sociologia pela Universidade de Osaka. Para o especialista, a grande questão é: qual expectativa de privacidade queremos preservar, como sociedade, em espaços privados?
“Tais ferramentas deslocam a decisão sobre privacidade para quem usa o dispositivo e não para quem está sendo captado”, diz o especialista. “Quem veste o relógio ou os óculos decide se ativa o recurso; quem está do outro lado da mesa, da reunião ou da conversa, não tem voz nessa decisão: só descobre depois, se descobrir, que aquele momento foi captado e processado por uma IA.”
“A sociedade deve responder se está confortável com essa inversão, já que o Direito, historicamente, tende a correr atrás da tecnologia”, finaliza Cárgano.
O post Novo Apple Watch ‘ouve’ conversas – e isso pode virar um pesadelo de privacidade apareceu primeiro em Olhar Digital .
Publicado originalmente por Olhar Digital. Leia a matéria completa em https://olhardigital.com.br/2026/09/10/seguranca/novo-apple-watch-ouve-conversas-e-isso-pode-virar-um-pesadelo-de-privacidade/.

Pedro Spadoni — Foto: Olhar Digital
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