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    Nova versão de 'A Leste do Éden' é delicada e subversiva

    Quando se propôs a escrever a versão em minissérie de "A Leste do Éden", saga familiar que atravessa décadas definidoras da história norte-americana, Zoe Kazan sabia ter duas sombras a superar. Leia mais (10/08/2026 - 23h04)

    Folha de S.Paulo
    9 de outubro de 2026 às 02:04
    Nova versão de 'A Leste do Éden' é delicada e subversiva
    Foto: Folha de S.Paulo

    Secretária-assistente de Redação, foi editora do Núcleo de Cidades, correspondente em Nova York, Genebra e Washington e editora de Mundo

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    Veja cenas da série 'A Leste do Éden', de Zoe Kazan
    Veja cenas da série 'A Leste do Éden', de Zoe Kazan — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Quando se propôs a escrever a versão em minissérie de "A Leste do Éden", saga familiar que atravessa décadas definidoras da história norte-americana, Zoe Kazan sabia ter duas sombras a superar.

    A primeira é a do livro de John Steinbeck , lançado em 1952 e considerado pelo autor de "As Vinhas da Ira" sua obra-prima. A segunda é a de Elia Kazan , diretor do clássico de 1955 que lançou James Dean , "Vidas Amargas", adaptado do mesmo romance.

    Elia é avô de Zoe e uma figura divisiva: sua produção, que inclui "Sindicato dos Ladrões" e outros filmes magistrais , foi em parte ofuscada pelo fato de ele ter denunciado colegas ao temível Comitê de Atividades Antiamericanas . Essa terceira sombra, da mácula familiar, é tão discreta quanto incisiva na série.

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Com a minissérie no ar desde o dia 1º, Zoe Kazan superou os três desafios graças a algumas escolhas. Enquanto o avô se concentrou na parte final do livro, sobre os mais jovens da família Trask, a neta deu ênfase à geração anterior —o romance cobre dos anos 1860 até o fim da Primeira Guerra, em 1918.

    Assim, amplificou a personagem Cathy Ames e fez dela objeto central, deslocando a narrativa e suscitando questões.

    É com Cathy, vivida por Florence Pugh com ares de Capitu no início e como uma vilã barroca depois, que Zoe abre a série; quando ela, desfigurada por uma surra, chega se arrastando às portas dos irmãos Adam (Christopher Abbott) e Charles Trask (Mike Faist).

    Descrita como demônio por Steinbeck, trata-se de uma mulher arrivista e pragmática, que usa o sexo para manipular geral e demonstra um tino para negócios incompatível com os papéis de gênero da época. É Cathy, mais que os pares de irmãos Trask, que melhor representa o livre-arbítrio, tema do livro, na nova versão.

    Está aí a reviravolta de Zoe Kazan: encarnado por uma mulher, esse livre-arbítrio se confunde com vilania. Afinal, falamos de alguém que, nos anos 1900, repele a maternidade, abandona os filhos, enriquece na prostituição e comete crimes para driblar obstáculos.

    É como se Cathy precisasse quebrar não só os costumes como as leis e a ética que restringiam suas possibilidades então. Nesse jogo de sombras, Pugh constrói a personagem ora como psicopata, ora como anti-heroína vingadora (há um parentesco acidental com outra grande série recente, "Fúria" ).

    Outro acerto é desenvolver Lee, o erudito empregado chinês dos Trask, cujo passado ganhou peso. Com atuação impecável de Hoon Lee, sua história com os horrores da imigração chinesa para a Califórnia valeria, sozinha, uma série.

    A roteirista decidiu reduzir o espaço dos Hamilton, a outra família que sustenta a trama e é inspirada na história do avô de Steinbeck. Felizmente, há cenas suficientes para a grande atuação de Ciaran Hinds.

    E há, por fim, os irmãos. Adam e Charles, e depois Aron e Cal (Joe Anders e Joseph Zada, este muito bem no papel que foi de Dean). É a eles que se deve o título, alusão ao local para onde a humanidade foi expulsa após Caim matar Abel na história bíblica.

    Zoe Kazan conduz a saga alternando a paisagem vasta do Vale de Salinas com as claustrofóbicas cenas de interior, um reflexo dos dilemas do enredo. E oferece um novelão familiar intenso no qual a conformação aos papéis pré-estabelecidos é a verdadeira tragédia.

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/lucianacoelho/2026/10/nova-versao-de-a-leste-do-eden-e-delicada-e-subversiva.shtml.

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