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    Nova biografia disseca obra e vida de Graciliano Ramos e traz à tona escritor visceral

    Livro de Wander Melo Miranda enfatiza fazer literário e recepção crítica de autor de Vidas Secas

    UOL
    8 de agosto de 2026 às 03:00
    Nova biografia disseca obra e vida de Graciliano Ramos e traz à tona escritor visceral
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    O romancista alagoano Graciliano Ramos - Kurt Klagsbrunn/Divulgação

    O romancista alagoano Graciliano Ramos - Kurt Klagsbrunn/Divulgação · Kurt Klagsbrunn/Divulgação
    O romancista alagoano Graciliano Ramos - Kurt Klagsbrunn/Divulgação · Kurt Klagsbrunn/Divulgação — Foto: UOL · Fonte: UOL

    Wander Melo Miranda era um adolescente de 15 anos na Belo Horizonte do final dos anos 1960, em plena ditadura. Aproveitando que seu pai abrira uma conta numa livraria, passou a ler autores que não leria no Colégio Militar, onde estudava. Um deles foi Graciliano Ramos . Começou por "Vidas Secas".

    "Fiquei muito impressionado e tocado com o livro, atraído pela linguagem que trazia coisas populares, regionais, mas era extremamente elaborada, muito sóbria e, ao mesmo tempo, muito irônica", ele recorda a epifania.

    O mergulho de Miranda no autor alagoano se aprofundou ao longo dos anos, resultando num doutorado, cuja tese seria adaptada para livro em 1992, " Corpos escritos: Graciliano Ramos e Silviano Santiago ", análise conjunta de "Memórias do Cárcere", do primeiro, e "Em Liberdade", do segundo. Depois, o crítico e acadêmico —hoje professor emérito da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais— escreveu " Folha Explica Graciliano ", de 2004, uma introdução à obra do Velho Graça.

    O escritor Graciliano Ramos com a neta em 1953 - Acervo UH/Folhapress · Acervo UH/Folhapress
    O escritor Graciliano Ramos com a neta em 1953 - Acervo UH/Folhapress · Acervo UH/Folhapress — Foto: UOL · Fonte: UOL

    Durante o percurso, se interessou também pela vida do pesquisado. "Até porque a vida dele não se diferencia dos livros que escreve. Não digo que a vida explica os livros e os livros explicam a vida, mas há uma relação tão forte entre uma coisa e outra que ele transforma em ficção", afirma Miranda, citando uma frase do próprio Graciliano: "Nunca pude sair de mim mesmo. Só posso escrever o que sou. E se as personagens se comportam de modos diferentes, é porque não sou um só".

    É da relação entre o autor e sua criação, mas sobretudo desta, os livros, que se ocupa Wander Miranda na biografia "Graciliano Ramos: Vida e Obra", lançada agora pela Companhia das Letras. "É uma espécie de biografia dos livros dele junto com a biografia dele", resume o autor.

    A obra vem à luz 34 anos depois de "O Velho Graça", de Dênis de Moraes, primeira biografia de fôlego do escritor de "São Bernardo" e "Angústia". Lançada no centenário de Graciliano, em 1992, ganhou edição revista e ampliada em 2012 e tinha como maior objetivo, segundo o autor, morto no ano passado, desvendar o homem por trás da obra. É uma biografia mais jornalística, escrita por um jornalista e professor de comunicação.

    Graciliano Ramos
    Graciliano Ramos — Foto: UOL · Fonte: UOL

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    Na de Miranda, o foco está no fazer literário e na recepção crítica da obra de Graciliano. Mas não se espere um ensaio acadêmico: não é esse o propósito declarado do autor, que, ademais, é um admirador visceral do seu biografado —ele também visceral.

    Wander Miranda escreve, na apresentação do volume, que foi uma empreitada difícil, em parte pela admiração e emoção despertadas por Graciliano. Sentiu-se de início "incapaz de tomar a distância necessária para vê‑lo como biografado". Como então tornou-se capaz?

    Ilustração de Aldemir Martins para edição de 1963 de 'Vidas Secas', livro de Graciliano Ramos - Reprodução · Reprodução
    Ilustração de Aldemir Martins para edição de 1963 de 'Vidas Secas', livro de Graciliano Ramos - Reprodução · Reprodução — Foto: UOL · Fonte: UOL

    "Eu falei, tomar distância é bobagem. [O livro] é a minha opinião, a minha versão. Eu dialogo com outros pesquisadores, e há coisas biográficas excelentes escritas sobre ele. Mas me distanciar não teria muito a ver. Não estou escrevendo uma reportagem, em que, de certa forma, tenho de ser isento", afirma.

    "Eu tomo partido, acho um grande escritor e acho que nenhum outro autor brasileiro viveu tão visceralmente o ofício de escritor, e fez isso num país subdesenvolvido, sob um governo extremamente autoritário [a ditadura do Estado Novo e sua preparação]. E o considero um dos mais lúcidos intérpretes do Brasil."

    Um exemplo de como o autor driblou o academicismo: embora a biopolítica –teoria sobre o poder do Estado em controlar a saúde e o corpo das pessoas– seja um dos fundamentos teóricos do trabalho, o tema é tratado sem bacharelismo, como demonstram passagens sobre os suplícios enfrentados por Graciliano durante os dez meses em que ficou preso entre 1936 e 1937 —sem processo, por ser comunista "subversivo".

    Conversas de Graciliano Ramos
    Conversas de Graciliano Ramos — Foto: UOL · Fonte: UOL

    "O corpo físico é sempre um corpo político para Graciliano. Da infância à prisão –onde o desconforto com a perna [afetada por um acidente doméstico anos antes] aparecerá fortemente–, as instâncias repressoras se marcam em carne viva e apontam ao escritor a necessidade imperiosa de resistência. Escrever é, pois, desde o início, traduzir em palavras a dor que a repressão política tinge de cores macabras", escreve o biógrafo.

    Noutro trecho, Miranda conta como a devastação física de Graciliano só aumentou durante a prisão, sequelas que o marcariam para o restante da breve vida —morreu aos 60 anos—, "a ponto de ser dispensado de trabalhos pesados porque o encarregado de seleção dos presos pensa que ele tem 65 anos, quando na verdade tem 43".

    "É um livro para um público maior. As discussões teóricas estão lá, fundamentam o projeto, mas não quis torná-las explícitas porque acho que não interessa ao grande público", comenta.

    Ilustração de Aldemir Martins para edição de 1963 de 'Vidas Secas', livro de Graciliano Ramos - Reprodução · Reprodução
    Ilustração de Aldemir Martins para edição de 1963 de 'Vidas Secas', livro de Graciliano Ramos - Reprodução · Reprodução — Foto: UOL · Fonte: UOL

    Biografar Graciliano —cuja obra entrou em domínio público em 2024 — significa, de algum modo, se lançar à tarefa inglória de concorrer com o autor de "Infância" e "Memórias do Cárcere", dois trabalhos memorialísticos exemplares. Miranda reconhece que o alagoano é "o melhor narrador de si mesmo", e os dois livros e outros textos autobiográficos fundamentam boa parte da biografia, bem como os publicados por Ricardo Ramos e Clara Ramos, filhos do escritor, e Marili Ramos, irmã dele.

    O título agora lançado também recorre com frequência à biografia de Dênis de Moraes —a quem Miranda orientou num pós-doutorado, não sobre Graciliano— e a trabalhos dos "gracianólogos" Moacir Medeiros de Sant’Ana, Valdemar de Souza Lima, Valentim Facioli e, da geração mais recente, Thiago Mio Salla e Ieda Lebensztayn, morta na última semana aos 51 anos .

    Estão bem contados no livro aspectos já conhecidos da vida de Graciliano, como a depressão que se seguiu à morte da primeira esposa, a obsessão com limpeza ou a amizade iniciada na prisão com Nise da Silveira.

    O tour soviético de Graciliano
    O tour soviético de Graciliano — Foto: UOL · Fonte: UOL

    Outros embaralham vida e obra, caso de seu meticuloso processo de corrigir e enxugar à exaustão os escritos, seara em que o biógrafo produz tiradas luminosas: "A preocupação maníaca com a desconstrução da palavra é um ato de anulação do lugar‑comum e dos preciosismos linguísticos, como se Graciliano buscasse impossivelmente o princípio –no sentido de início e de norma– da palavra, do momento em que ela passa pela primeira vez a significar".

    Também na interseção vida-obra estão as dificuldades financeiras enfrentadas pelo escritor, que se desdobra em vários trabalhos, sempre atolado a escrever artigos e crônicas para a imprensa e textos diversos para complementar a renda, sem jamais ter conseguido sobreviver somente dos seus livros.

    Como narra Miranda, entre 1937, ano em que escreve "Vidas Secas", e 1938, quando o romance é publicado, "a situação se torna dramática". Morando com a família num quarto de pensão no Rio, o escritor –àquela altura já consagrado pela crítica por "Caetés", "São Bernardo" e "Angústia"– "às vezes atrasa o aluguel da pensão e Heloísa [sua mulher] se vê impedida de comprar o leite que complementa a alimentação das meninas".

    Homem de terno cinza e óculos escuros está sentado próximo a uma parede branca, ao lado de um retrato em preto e branco de um rosto masculino emoldurado.
    Homem de terno cinza e óculos escuros está sentado próximo a uma parede branca, ao lado de um retrato em preto e branco de um rosto masculino emoldurado. — Foto: UOL · Fonte: UOL

    Abundam episódios sobre a conhecida autodepreciação de Graciliano, que costumava rotular de "droga" ou "porcaria" seus escritos. Para o biógrafo Dênis de Moraes, era tudo da boca para fora. Wander Miranda não vê dessa forma. "Não quis psicanalisar, mas sua autodepreciação vem da infância, né? Ele foi um menino que sofreu violências enormes, apanhou do pai. Graciliano tinha consciência do seu valor, tanto que insiste em escrever, mas não acho que [a autodepreciação] fosse da boca para fora."

    O biógrafo conta que outra preocupação sua foi mostrar a "atualidade impressionante" da obra de Graciliano. Relembra a célebre pergunta que o autor fez em carta a Heloísa, a mulher: "Quem sabe se daqui a trezentos anos eu não serei um clássico?", e reafirma que não foi preciso esperar tanto tempo.

    Observa que a questão central de "Vidas Secas", sobre uma família de retirantes, segue viva nos refugiados, tanto os que ainda precisam emigrar como os refugiados na própria terra. Ou que, no Brasil, a lei continua só valendo para alguns. "Sobretudo se você é preto de periferia, de favela, pode matar, bater, fazer o que quiser, porque é como se essas pessoas estivessem aquém da lei, fora da sociedade", tais quais o Fabiano do maior clássico de seu biografado e outros personagens dele.

    Homem vestido com chapéu e casaco carrega rifle no ombro e saco nas costas, caminhando em terreno aberto com cachorro ao lado. Linhas curvas formam espiral no céu ao fundo.
    Homem vestido com chapéu e casaco carrega rifle no ombro e saco nas costas, caminhando em terreno aberto com cachorro ao lado. Linhas curvas formam espiral no céu ao fundo. — Foto: UOL · Fonte: UOL

    A leitura da nova biografia reforça reflexões recentes sobre o atraso de certas posições de Graciliano, um humanista socialista com preconceitos do século 20 que, para muitos hoje, poderiam torná-lo "cancelável", algo que soa absurdo ao biógrafo.

    Miranda não escamoteia os problemas, mas faz ver suas nuances e situa os casos em seu contexto histórico. "Sua conhecida homofobia, ao ser posta à prova no cárcere, leva‑o a submetê‑la a um exame severo, que, embora não o faça mudar de opinião, torna possível uma compreensão menos preconceituosa do problema", escreve o biógrafo.

    "[O escritor] admite que sua repulsa não é natural, foi‑lhe imposta culturalmente, sendo necessário ‘transpor as barreiras’ que o separam daqueles indivíduos tão diferentes dele, ‘vencer esse nojo exagerado, sondar‑lhes o íntimo, achar lá dentro coisas superiores às combinações frias da inteligência’."

    Desenho em traço preto mostra um cachorro magro, com ossos e músculos evidentes, caminhando sobre um solo com pequenas plantas. Acima, um sol estilizado é representado por linhas retas irradiando em círculo.
    Desenho em traço preto mostra um cachorro magro, com ossos e músculos evidentes, caminhando sobre um solo com pequenas plantas. Acima, um sol estilizado é representado por linhas retas irradiando em círculo. — Foto: UOL · Fonte: UOL

    A admiração fervorosa por Stálin é outra passagem hoje incômoda na trajetória de Graciliano, militante comunista filiado ao PCB —em que pese o partido ter vetado a publicação de "Memórias do Cárcere" e "Viagem" , publicados pela família após sua morte. A posição certamente não resistiria ao tempo, aposta o biógrafo. O escritor morreu em 1953, três anos antes de os crimes do ditador serem denunciados por seu sucessor, Nikita Kruschov.

    Wander Melo Miranda situa Graciliano ao lado de Guimarães Rosa como os dois maiores romancistas brasileiros do século 20. Evita escolher um livro de coração —"o maior é o que eu estiver lendo no momento"—, mas não consegue esconder o trecho que mais o comove. Talvez por revelar "a confissão rara de alguém habituado à contenção extrema dos sentimentos e da linguagem", é o capítulo "Baleia", que narra a morte da cachorra homônima de "Vidas Secas".

    "A ternura do narrador pela cachorra que tem de ser sacrificada por ter contraído hidrofobia", escreve Miranda, "se entrevê por alguns poucos diminutivos, usados, contudo, de forma a não deixar o texto cair num sentimentalismo banal: ‘coitadinha’, ‘quintalzinho’, ‘criaturinha’, entre outros –’Baleia encostava a cabecinha fatigada na pedra’."

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    "É das coisas mais bem escritas em língua portuguesa", derrama-se o biógrafo. "Gosto muito de cachorro, então toda vez que leio isso, e já li umas 50 vezes, eu me emociono profundamente."

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    Estante de madeira escura com uma prateleira contendo 22 livros alinhados, com lombadas coloridas em tons de amarelo, vermelho, azul, verde, preto e branco. Os livros estão organizados principalmente na vertical, exceto cinco empilhados hor
    Estante de madeira escura com uma prateleira contendo 22 livros alinhados, com lombadas coloridas em tons de amarelo, vermelho, azul, verde, preto e branco. Os livros estão organizados principalmente na vertical, exceto cinco empilhados hor — Foto: UOL · Fonte: UOL

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    Publicado originalmente por UOL. Leia a matéria completa em https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2026/08/nova-biografia-disseca-obra-e-vida-de-graciliano-ramos-e-traz-a-tona-escritor-visceral.shtml.

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