Norueguesa expõe a dor das mulheres pobres mesmo se doer a homens
"Ando à procura de uma pessoa. Há treze dias procuro por ela." Assim se abre "Nada Nasce ao Luar " , romance de 1947 da norueguesa Torborg Nedreaas. Leia mais (08/11/2026 - 10h00)

Expressa juízo de valor sobre a obra cultural comentada e destaca seus elementos positivos e negativos
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Escritora, editora e coordenadora do programa de pós-doutorado do Instituto Internacional de Estudos Asiáticos da Universidade de Leiden
"Ando à procura de uma pessoa. Há treze dias procuro por ela." Assim se abre "Nada Nasce ao Luar " , romance de 1947 da norueguesa Torborg Nedreaas.
Um homem percorre a cidade atrás de um rosto. A mulher que procura lhe é desconhecida e, ao mesmo tempo, radicalmente íntima: numa única noite, ela lhe confiou a história mais difícil de sua vida.

É desse homem que o romance recua para a noite do encontro e para o relato da mulher. Num anoitecer chuvoso de março, ele a abordou na saída da estação, caminharam a esmo antes de subir ao apartamento dele e, lá, ela lhe propôs uma escolha. "Pode ter meu corpo ou minha alma." Decidiu ficar com a alma, e passou a noite ouvindo-a.
Nome central da narrativa surgida no pós-guerra norueguês, Nedreaas é redescoberta hoje na esteira de autoras como a dinamarquesa Tove Ditlevsen , da "Trilogia de Copenhagen", e só agora chega ao Brasil.
Premiada e sempre declaradamente à esquerda, Nedreaas fez da vida das mulheres pobres o centro de uma obra que incomodava inclusive os homens de seu próprio campo político.

O que a mulher conta ao protagonista de "Nada Nasce ao Luar" é a história de uma paixão aos 17 anos por um professor casado, e como viveu isso na Noruega pobre do entreguerras.
Gravidez indesejada, aborto autoinduzido , o risco e a vergonha que recaía sobretudo sobre as mulheres proletárias. Fazer um homem escutar o corpo feminino é o gesto político da narradora: "os homens não gostam de ouvir essas coisas", ela diz antes de descrever o aborto. "Vocês têm que saber sobre isso."
Mas o que está em jogo é a verdade de uma experiência como problema de narração: que relato dá conta do vivido? A protagonista sabe que contar deforma, avisa que não é "uma boa contadora de histórias, ao menos não quando estou dizendo a verdade", e prefere a verdade truncada à narrativa bem-feita.

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A narração avança e recua, se interrompe e se retoma. E é nessa forma quebradiça, e não na sucessão ordenada dos fatos, que o livro interessa, nos lances implacáveis de uma vida relembrados para um único ouvinte que sumirá com a manhã.
O real chega pela concretude afetiva das palavras e pelo avançar incerto. A dor narrada não é exibição retórica de sofrimento, e cabe a quem ouve, ou lê, sustentá-la sem o alívio do sentimentalismo.

Nedreaas não quer provar que aquilo aconteceu, mas mostrar como se conta algo que ainda corrói. E o lugar em que põe as leitoras e leitores é o desse homem que escuta, como se fôssemos reféns de uma voz que não podemos consolar. Não por acaso, a mulher já avisara. "Você não sabe no que está se metendo. Porque isso aqui vai te atormentar."
A frase-título, "Nada Nasce ao Luar " , é também a imagem exata de um amor que não tem como vingar numa época arrasada, cínica e estéril, onde a paixão só existe na claridade insuficiente da Lua, sem nunca se converter em outra coisa.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2026/08/norueguesa-expoe-a-dor-das-mulheres-pobres-mesmo-se-doer-a-homens.shtml.

A norueguesa Torborg Nedreaas, autora de 'Nada Nasce ao Luar' - Nedreaas Aschehoug/Divulgação · Nedreaas Aschehoug/Divulgação — Foto: Folha de S.Paulo
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