Nobel Han Kang faz prosa certinha demais no livro 'Lições de Grego'
Um homem que está ficando cego ensina uma língua morta a uma mulher que perdeu a fala. Ele aprendeu grego antigo na Alemanha, para onde emigrou aos 15 anos, e voltou à Coreia quando começava a não enxergar mais. Ela decidiu estudar grego depois de perder a mãe, o casamento, a guarda do filho e, pela segunda vez, a capacidade de falar. Leia mais (09/19/2026 - 13h00)

Expressa juízo de valor sobre a obra cultural comentada e destaca seus elementos positivos e negativos
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Escritora, editora e coordenadora do programa de pós-doutorado do Instituto Internacional de Estudos Asiáticos da Universidade de Leiden
Um homem que está ficando cego ensina uma língua morta a uma mulher que perdeu a fala. Ele aprendeu grego antigo na Alemanha, para onde emigrou aos 15 anos, e voltou à Coreia quando começava a não enxergar mais. Ela decidiu estudar grego depois de perder a mãe, o casamento, a guarda do filho e, pela segunda vez, a capacidade de falar.
Eles se encontram numa escola de idiomas em Seul . Não se pode dizer que conversem, ela não fala, ele mal a vê, mas alguma coisa acontece entre os dois protagonistas —e é dessa coisa quase sem nome que trata "Lições de Grego", romance que Han Kang publicou em 2011, 13 anos antes de receber o Nobel .

Jorge Luis Borges, cujo epitáfio abre o livro, e a filosofia grega definem boa parte da rede de significados do romance. A mulher aprende o idioma debruçada sobre uma edição bilingue de "A República", de Platão, enquanto a "Teoria das Formas" paira ao fundo para dar lastro à verdade, à beleza e ao sofrimento em torno dos quais a história se arma.
O trauma é o material com que Han Kang esculpe suas personagens. Antes de terem uma biografia, elas têm uma ferida.
"Lições de Grego" desloca a poética da violência histórica para a exploração de estados não normativos como formas de habitar o mundo. É um deslocamento fértil, mas aqui o enigma cede lugar à alegoria.

Se o trauma da protagonista se enraíza na perda da mãe e na ruína da maternidade, o professor vive uma degeneração em curso.
A essa mulher emudecida corresponde a distância de uma narração em terceira pessoa, enquanto ao homem que perde a visão, a proximidade da primeira pessoa. As duas vozes se alternam e aos poucos se encontram ao longo do livro.
Borges reaparece no terceiro capítulo numa versão menos frequentada. O professor, aos 15 anos, encontra uma tradução de "O que É o Budismo?", escrita pelo argentino com Alicia Jurado. O livro o faz evocar um festival que celebra o nascimento de Buda , com suas lanternas de papel, imagem de beleza transitória à qual o adolescente se agarra quando sua vida na Coreia começa a se dissolver.

Nada disso é casual —ele absorve na Alemanha os começos da filosofia ocidental e reencontra, via Borges, o substrato budista de sua infância asiática.
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O problema é justamente que todas as peças se encaixam perfeitamente demais. A cegueira do professor rima com a de Borges, que rima com a mudez da mulher, e o grego antigo, língua morta, remete à impermanência budista.

Nada está fora do lugar, e os próprios personagens explicitam as relações quando há algum fio solto. Assim, a flor de lótus do festival reaparece numa capa de livro que o protagonista compra antes de se mudar. "Acho que carregava uma esperança supersticiosa de que o destino de minha família e o meu estariam seguros se eu transportasse esses livros até o outro lado do mundo."
É essa arquitetura sem sobras que incomoda. O leitor, que cedo compreende o desenho da narrativa, continua a ler porque a escrita e a cadência são bem urdidas e porque o livro oferece algumas belas descrições sensoriais.
O romance tem ainda o mérito de não inflar a dor. Há uma leveza discreta na maneira como as perdas atravessam a narrativa, mesmo quando são óbvios os paralelos entre a filosofia, a literatura e o enredo. Essa contenção é mais eficaz que o sistema montado pela autora.

Cabe um reparo à edição brasileira. Na página 22, o professor afirma ter lido "romances" de Borges. O argentino, porém, jamais escreveu um romance, sua obra se concentra deliberadamente em contos, ensaios e poemas. Em outras edições, o termo empregado é "ficções".
Fora esse equívoco, a versão brasileira flui com naturalidade e preserva o ritmo cadenciado da prosa de Han Kang.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2026/09/nobel-han-kang-faz-prosa-certinha-demais-no-livro-licoes-de-grego.shtml.

A escritora sul-coreana Han Kang - Jean Chung/The New York Times · Jean Chung/The New York Times — Foto: Folha de S.Paulo
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