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    Nobel Han Kang faz prosa certinha demais no livro 'Lições de Grego'

    Um homem que está ficando cego ensina uma língua morta a uma mulher que perdeu a fala. Ele aprendeu grego antigo na Alemanha, para onde emigrou aos 15 anos, e voltou à Coreia quando começava a não enxergar mais. Ela decidiu estudar grego depois de perder a mãe, o casamento, a guarda do filho e, pela segunda vez, a capacidade de falar. Leia mais (09/19/2026 - 13h00)

    Folha de S.Paulo
    19 de setembro de 2026 às 16:00
    Nobel Han Kang faz prosa certinha demais no livro 'Lições de Grego'
    A escritora sul-coreana Han Kang em retrato de 2016 — Foto: Folha de S.Paulo

    Expressa juízo de valor sobre a obra cultural comentada e destaca seus elementos positivos e negativos

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    A escritora sul-coreana Han Kang - Jean Chung/The New York Times · Jean Chung/The New York Times
    A escritora sul-coreana Han Kang - Jean Chung/The New York Times · Jean Chung/The New York Times — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Escritora, editora e coordenadora do programa de pós-doutorado do Instituto Internacional de Estudos Asiáticos da Universidade de Leiden

    Um homem que está ficando cego ensina uma língua morta a uma mulher que perdeu a fala. Ele aprendeu grego antigo na Alemanha, para onde emigrou aos 15 anos, e voltou à Coreia quando começava a não enxergar mais. Ela decidiu estudar grego depois de perder a mãe, o casamento, a guarda do filho e, pela segunda vez, a capacidade de falar.

    Eles se encontram numa escola de idiomas em Seul . Não se pode dizer que conversem, ela não fala, ele mal a vê, mas alguma coisa acontece entre os dois protagonistas —e é dessa coisa quase sem nome que trata "Lições de Grego", romance que Han Kang publicou em 2011, 13 anos antes de receber o Nobel .

    Han Kang, primeira sul-coreana a ganhar o Nobel de Literatura
    Han Kang, primeira sul-coreana a ganhar o Nobel de Literatura — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Jorge Luis Borges, cujo epitáfio abre o livro, e a filosofia grega definem boa parte da rede de significados do romance. A mulher aprende o idioma debruçada sobre uma edição bilingue de "A República", de Platão, enquanto a "Teoria das Formas" paira ao fundo para dar lastro à verdade, à beleza e ao sofrimento em torno dos quais a história se arma.

    O trauma é o material com que Han Kang esculpe suas personagens. Antes de terem uma biografia, elas têm uma ferida.

    "Lições de Grego" desloca a poética da violência histórica para a exploração de estados não normativos como formas de habitar o mundo. É um deslocamento fértil, mas aqui o enigma cede lugar à alegoria.

    Capa 'Lições de Grego', da Nobel coreana Han Kang - Divulgação · Divulgação
    Capa 'Lições de Grego', da Nobel coreana Han Kang - Divulgação · Divulgação — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Se o trauma da protagonista se enraíza na perda da mãe e na ruína da maternidade, o professor vive uma degeneração em curso.

    A essa mulher emudecida corresponde a distância de uma narração em terceira pessoa, enquanto ao homem que perde a visão, a proximidade da primeira pessoa. As duas vozes se alternam e aos poucos se encontram ao longo do livro.

    Borges reaparece no terceiro capítulo numa versão menos frequentada. O professor, aos 15 anos, encontra uma tradução de "O que É o Budismo?", escrita pelo argentino com Alicia Jurado. O livro o faz evocar um festival que celebra o nascimento de Buda , com suas lanternas de papel, imagem de beleza transitória à qual o adolescente se agarra quando sua vida na Coreia começa a se dissolver.

    Capa com fundo claro apresenta um padrão circular em espiral formado por formas onduladas em tons de azul e preto. No topo, nome da autora Han Kang com indicação de prêmio Nobel de Literatura. Na parte inferior, título "Lições de grego" em
    Capa com fundo claro apresenta um padrão circular em espiral formado por formas onduladas em tons de azul e preto. No topo, nome da autora Han Kang com indicação de prêmio Nobel de Literatura. Na parte inferior, título "Lições de grego" em — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Nada disso é casual —ele absorve na Alemanha os começos da filosofia ocidental e reencontra, via Borges, o substrato budista de sua infância asiática.

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    O problema é justamente que todas as peças se encaixam perfeitamente demais. A cegueira do professor rima com a de Borges, que rima com a mudez da mulher, e o grego antigo, língua morta, remete à impermanência budista.

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Nada está fora do lugar, e os próprios personagens explicitam as relações quando há algum fio solto. Assim, a flor de lótus do festival reaparece numa capa de livro que o protagonista compra antes de se mudar. "Acho que carregava uma esperança supersticiosa de que o destino de minha família e o meu estariam seguros se eu transportasse esses livros até o outro lado do mundo."

    É essa arquitetura sem sobras que incomoda. O leitor, que cedo compreende o desenho da narrativa, continua a ler porque a escrita e a cadência são bem urdidas e porque o livro oferece algumas belas descrições sensoriais.

    O romance tem ainda o mérito de não inflar a dor. Há uma leveza discreta na maneira como as perdas atravessam a narrativa, mesmo quando são óbvios os paralelos entre a filosofia, a literatura e o enredo. Essa contenção é mais eficaz que o sistema montado pela autora.

    Estante de madeira escura com uma prateleira contendo 22 livros alinhados, com lombadas coloridas em tons de amarelo, vermelho, azul, verde, preto e branco. Os livros estão organizados principalmente na vertical, exceto cinco empilhados hor
    Estante de madeira escura com uma prateleira contendo 22 livros alinhados, com lombadas coloridas em tons de amarelo, vermelho, azul, verde, preto e branco. Os livros estão organizados principalmente na vertical, exceto cinco empilhados hor — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Cabe um reparo à edição brasileira. Na página 22, o professor afirma ter lido "romances" de Borges. O argentino, porém, jamais escreveu um romance, sua obra se concentra deliberadamente em contos, ensaios e poemas. Em outras edições, o termo empregado é "ficções".

    Fora esse equívoco, a versão brasileira flui com naturalidade e preserva o ritmo cadenciado da prosa de Han Kang.

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2026/09/nobel-han-kang-faz-prosa-certinha-demais-no-livro-licoes-de-grego.shtml.

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