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    No casamento, é justo dividir tudo pela metade?

    Imagine um casal saindo em viagem com duas malas. Uma pesa dez quilos e a outra, 20. Uma das pessoas é mais forte que a outra. Seria justo cada um carregar a própria mala ou redistribuir as malas para que ambos carreguem o mesmo peso? Mas se um tem muito mais força, essa é necessariamente a divisão mais equilibrada? Leia mais (09/22/2026 - 18h00)

    Folha de S.Paulo
    22 de setembro de 2026 às 21:00
    No casamento, é justo dividir tudo pela metade?
    Foto: Folha de S.Paulo

    Michael Viriato escreve sobre como cuidar do seu dinheiro, poupar e planejar o futuro

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    Consumidor manuseia e conta o dinheiro, em dólares, disponível - Alexander Grey/Unsplash · Alexander Grey/Unsplash
    Consumidor manuseia e conta o dinheiro, em dólares, disponível - Alexander Grey/Unsplash · Alexander Grey/Unsplash — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Imagine um casal saindo em viagem com duas malas. Uma pesa dez quilos e a outra, 20. Uma das pessoas é mais forte que a outra. Seria justo cada um carregar a própria mala ou redistribuir as malas para que ambos carreguem o mesmo peso? Mas se um tem muito mais força, essa é necessariamente a divisão mais equilibrada?

    Com o dinheiro no casamento acontece algo parecido. Se um ganha R$ 10 mil por mês e o outro, R$ 20 mil, dividir todas as despesas exatamente pela metade parece simples. Mas igualdade e equidade nem sempre são a mesma coisa.

    Quando duas pessoas passam a construir uma vida juntas , precisam decidir também como vão lidar com o dinheiro. Há quem junte tudo. Há quem mantenha contas, investimentos e despesas separados. E há quem escolha uma solução intermediária. O problema é que uma decisão capaz de produzir consequências por décadas muitas vezes nem sequer é planejada.

    Juntar tudo tem uma vantagem evidente. Os R$ 10 mil de um e os R$ 20 mil do outro formam uma renda familiar de R$ 30 mil. Despesas, investimentos e objetivos passam a ser administrados como sendo do casal. Se o objetivo é comprar um imóvel, educar os filhos ou se preparar para a aposentadoria , pouco importa de qual salário saiu cada real.

    Mas esse modelo pode reduzir a autonomia. Um pode ser mais econômico e o outro mais gastador. Uma compra pessoal pode começar a exigir uma espécie de autorização informal. Aos poucos, organização financeira pode virar fiscalização.

    Separar completamente o dinheiro resolve parte desse problema, mas cria outros. Suponha que as despesas da família sejam de R$ 10 mil. Se cada um pagar R$ 5 mil, quem recebe R$ 20 mil compromete 25% da renda. Para quem ganha R$ 10 mil, o esforço é de 50%. Dividir igualmente, portanto, não significa necessariamente dividir de forma equânime.

    Uma alternativa é fazer a divisão proporcionalmente à renda. Quem ganha dois terços da renda familiar paga dois terços das despesas. Parece mais equilibrado. Mas ainda resta uma questão: se um consegue poupar muito mais que o outro, os dois podem chegar ao futuro com patrimônios individuais muito diferentes, embora tenham construído juntos a mesma família. Há ainda outra consequência.

    Recentemente acompanhei a separação de um casal que ilustra outro lado dessa questão. Na compra de um imóvel durante o casamento, um havia colocado aproximadamente 20% dos recursos e o outro, 80%. Seria natural imaginar que essas proporções determinariam quanto caberia a cada um na separação. Não necessariamente.

    No regime de comunhão parcial de bens, em regra, o patrimônio adquirido onerosamente durante o casamento é comum, independentemente de quem colocou mais dinheiro na compra. Assim, dependendo da origem dos recursos e das circunstâncias , uma contribuição de 20% e outra de 80% podem terminar em uma divisão de 50% para cada um. Ou seja, o que cada um pagou, por si só, não determina necessariamente a proporção da partilha.

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    Mas essa divisão seria injusta? A resposta não é tão simples. A contribuição para uma família não acontece apenas por meio do dinheiro. Um dos dois pode reduzir sua carreira para cuidar dos filhos, assumir mais responsabilidades familiares ou permitir que o outro dedique mais tempo ao trabalho. A lógica da comunhão parcial considera que o patrimônio construído durante o casamento resulta, em regra, de um esforço comum.

    Há uma ironia nisso. Casais podem passar horas escolhendo onde investir R$ 100 mil e poucos minutos discutindo o regime de bens. Mas essa escolha pode produzir um impacto patrimonial muito maior do que decidir entre dois investimentos. O regime de bens também deveria fazer parte do planejamento financeiro.

    Talvez a solução esteja em separar duas coisas que costumamos misturar: planejamento familiar e autonomia individual.

    Primeiro, o casal define quanto custa a vida que decidiu ter e quanto precisa poupar para aposentadoria, filhos, imóvel e outros objetivos. Depois, estabelece quanto cabe a cada um contribuir para esse orçamento e para a formação do patrimônio, considerando a renda de cada um. Por fim, define quanto da renda permanecerá sob decisão individual.

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    Esse último dinheiro não precisa ser fiscalizado. Se alguém prefere viajar, comprar roupas, trocar de carro ou simplesmente poupar mais, pode fazê-lo dentro de seu orçamento. O planejamento é conjunto, mas isso não significa que todas as decisões precisem ser.

    Ao mesmo tempo, ambos precisam conhecer a situação financeira da família, seus objetivos e como o patrimônio está organizado. Em muitos casais, apenas um sabe onde estão os investimentos, quanto existe de patrimônio, quais seguros foram contratados e quanto será necessário para a aposentadoria. O dinheiro pode até ser juridicamente dos dois, mas o conhecimento pertence a apenas um.

    Por isso, talvez a pergunta "juntar ou separar o dinheiro?" seja pequena demais. Um casal pode ter uma única conta e nenhum planejamento conjunto. Outro pode manter contas separadas e possuir objetivos, orçamento e patrimônio perfeitamente coordenados.

    No fim, organizar o dinheiro no casamento talvez seja como carregar aquelas malas. Não importa tanto se cada um leva exatamente metade do peso. Importa que os dois tenham combinado quanto cada um pode carregar e, principalmente, para onde querem levar o patrimônio que estão construindo juntos.

    Michael Viriato é planejador patrimonial e sócio fundador da Casa do Investidor .

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/blogs/de-grao-em-grao/2026/09/no-casamento-e-justo-dividir-tudo-pela-metade.shtml.

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