Brasil

    Ninguém quer falar de clima, nem o candidato à Presidência

    Apesar do agravamento da crise, cobertura global sobre a questão climática caiu 38% desde 2021

    UOL
    30 de agosto de 2026 às 03:00
    Ninguém quer falar de clima, nem o candidato à Presidência
    Homem de meia-idade com cabelo curto e escuro veste terno azul e camisa branca, falando e gesticulando com as mãos em estúdio com fundo azul geométrico. Microfone preso à camisa e logo da emissora Globo no canto inferior direito indicam tra — Foto: UOL

    Escritora, roteirista e uma das idealizadoras do movimento Um Grande Dia para as Escritoras

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    Flávio Bolsonaro durante entrevista ao Jornal Nacional na última sexta-feira (28) - Reprodução TV Globo · Reprodução TV Globo
    Flávio Bolsonaro durante entrevista ao Jornal Nacional na última sexta-feira (28) - Reprodução TV Globo · Reprodução TV Globo — Foto: UOL · Fonte: UOL

    Descobri a gravidade da emergência climática em um domingo em 2019, lendo uma matéria na Piauí. Nunca esqueço o impacto: quando levantei da poltrona em que lia a revista foi como se o mundo, tal qual eu conhecia, tivesse acabado de se extinguir.

    A partir desse dia, apavorada com as perspectivas, botei a bíblia do clima debaixo do braço e saí por aí tentando converter e catequizar outros crentes.

    Muita gente já vinha tentando fazer isso, há muito mais tempo e com muito mais impacto ou eloquência. Como o cientista Jimmy Hanson que, em 1988, fez uma fala histórica no Congresso dos Estados Unidos, explicando a um dos países que mais emite carbono a gravidade do que vinha pela frente. Ou como David Buckel que, em 2018, tomou a decisão radical de atear fogo ao próprio corpo com gasolina a fim de chamar a atenção para o poder destrutivo dos combustíveis fósseis.

    Imagem da matéria
    Foto: UOL · Fonte: UOL

    Eu, com meu nanico poder da palavra, também tentei chamar a atenção. Além de importunar amigos em festinhas com essa conversa e parar de comer carne só para me perguntarem "por que parou?", passei a escrever sobre clima em coletâneas, na plataforma Fervura e depois aqui, neste espaço.

    Logo percebi que bastava colocar o termo " mudança climática " no título para que o número de interessados caísse. Por um tempo, fiz como as mães de criança que escondem a verdura dentro de bolinhos para o filho comer: eu botava o brócolis do clima no meio do texto para ver se atraía o leitor.

    Quando aconteceu aquele incêndio em Los Angeles , mostrando que nem as estrelas de cinema estavam salvas, pensei: agora o assunto emplaca. Mas, mesmo com esse episódio lamentável, a conversa não perdurou na mídia, nem nas mesas de bar.

    Logo aceitei que as pessoas preferem falar sobre relacionamentos, futebol ou até mesmo feminismo a falar de clima, mesmo que o mundo lá fora esteja pegando fogo, e este fogo, de uma forma ou de outra, vá atingir a todos.

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    Tentei entender o porquê. Conversando com alguns jornalistas e cientistas, compreendi que o assunto é tão alarmante que a maioria prefere entrar em modo de negação. Outros, se abstém para não se afligirem, já que não sabem o que fazer. Ou não têm paciência para a complexidade do tema. E, no caso do Brasil, a maioria está muito mais preocupada em ganhar o pão de amanhã do que em calcular o que vai acontecer na próxima semana, ano ou década, mesmo que isso vá afetar diretamente as suas vidas.

    Os meios de comunicação também não ajudam. Apesar do agravamento da crise, a cobertura global sobre a questão climática caiu 38% desde 2021. No Brasil, o assunto ainda está longe de ocupar o espaço que merece. Em entrevista ao Jornal Nacional , o candidato à Presidência Flávio Bolsonaro chegou a dizer que eventos extremos são cíclicos e não apresentou nenhum plano de mitigação ou enfrentamento, sugerindo apenas, como solução um tanto disparatada, saneamento básico.

    Para quem leva o assunto a sério, a transição energética pode ser ágil e rentável. Os australianos, por exemplo, já caminham a passos largos para a auto suficiência em energia limpa. E não me deixam perder a esperança. E nem a teimosia: olha eu aqui assando o bolinho de brócolis outra vez.

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    Publicado originalmente por UOL. Leia a matéria completa em https://www1.folha.uol.com.br/colunas/giovana-madalosso/2026/08/ninguem-quer-falar-de-clima-nem-o-candidato-a-presidencia.shtml.

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    Flávio Bolsonaro durante entrevista ao Jornal Nacional na última sexta-feira (28) - Reprodução TV Globo · Reprodução TV Globo — Foto: UOL

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