Nem Nossa Senhora nem Jesus; Flávio e a manipulação eleitoral da fé
As notícias falsas de que Flávio Bolsonaro tiraria de Nossa Senhora o título de padroeira do Brasil ganharam força porque, no final de agosto, o candidato disse que seu primeiro decreto presidencial seria tornar Jesus o Senhor do Brasil. Escrevi, nesta Folha , que a promessa era uma profanação eleitoral da fé. Leia mais (10/01/2026 - 07h00)

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É doutor em sociologia pela USP e fundador do Mapa Centrante
As notícias falsas de que Flávio Bolsonaro tiraria de Nossa Senhora o título de padroeira do Brasil ganharam força porque, no final de agosto, o candidato disse que seu primeiro decreto presidencial seria tornar Jesus o Senhor do Brasil. Escrevi, nesta Folha , que a promessa era uma profanação eleitoral da fé.
A declaração "O Brasil é do Senhor Jesus" , dita por Flávio, funcionava como uma senha que os eleitores evangélicos entenderiam imediatamente e à qual os demais não prestariam atenção.

Na teologia evangélica desenvolvida nos ramos do pentecostalismo e do neopentecostalismo, acredita-se que os territórios são dominados por demônios; assim, essa declaração, "O Brasil é do Senhor Jesus", significa uma transferência "legal" dessas áreas do domínio do mal para o governo do bem.
É cada vez mais comum encontrar, nos acessos às cidades brasileiras, placas nas quais ao nome do município se segue "...é do Senhor Jesus". O que Flávio sinalizava era a transferência dessa lógica de batalha espiritual , que opera no plano municipal, para a esfera federal.
As placas e portais "tal cidade é de Jesus", ao lado do significado religioso atribuído à expressão, funcionam como sinal de presença e força eleitoral das igrejas evangélicas no território. E aqui mora o problema: a expansão evangélica passa a ser representada menos como uma diversificação religiosa possível na democracia laica e mais como conquista de hegemonia por uma nova religião.

A lógica é semelhante à do catolicismo romano quando era a religião oficial, mas isso foi de 1500 até 1889. Com a chegada da República veio a separação entre Igreja e Estado. Feriados nacionais, cidades e estados batizados com nomes de santos católicos são a herança de uma época na qual o território e a nacionalidade eram definidos pelo pertencimento a uma confissão religiosa.
O evangélico pentecostal raiz ouviu na promessa do decreto presidencial de Flávio Bolsonaro que se trata da transferência do domínio territorial, espiritual e simbólico, até então católico , para as igrejas evangélicas.
O candidato não prometeu retirar Nossa Senhora do posto de Padroeira do Brasil, porém, ao legitimar uma visão evangélica de busca de hegemonia territorial e simbólica, tornou plausíveis as suspeitas em torno de suas intenções político-religiosas.
Evangélicos bolsonaristas e setores conservadores do catolicismo operam na lógica de dominação religiosa da cultura nacional. A escolha da esquerda como inimigo comum selou um pacto tácito de não agressão entre os dois grupos religiosos. Flávio, com seu afago ao triunfalismo evangélico, colocou em risco a aliança religiosa conservadora.
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A polêmica possui a virtude de revelar quão anacrônico é o discurso da liberdade religiosa feito pela direita bolsonarista. As religiões de matriz africana conhecem bem a hipocrisia desse discurso sobre liberdade. Michelle Bolsonaro , em 2019, removeu do Salão Nobre do Palácio do Planalto o quadro "Orixás", de Djanira da Motta e Silva. Liberdade religiosa, na versão bolsonarista, significa o direito do vencedor de impor sua religião aos conquistados.
No esforço de reduzir danos, o candidato levantou, em São Paulo, uma imagem da Padroeira do Brasil . É provável que, no dia 12 de outubro, ele vá até o Santuário em Aparecida . Afinal, se Jair Bolsonaro , sendo católico, batizou-se no rio Jordão para ganhar pontos com o eleitorado evangélico, o filho pode assistir a uma missa na Basílica de Aparecida. Ainda mais se valer uma eleição.
Em vez de promover a liberdade religiosa como garantia constitucional de convivência plural para crentes e não crentes, com sua conduta errática Flávio Bolsonaro reduz a fé a um instrumento de cálculo eleitoral, demarcação territorial e tensão institucional. Nada que não tenhamos visto no governo de seu pai. Millôr Fernandes já profetizava: "O Brasil tem um longo passado pela frente".
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2026/10/nem-nossa-senhora-nem-jesus-flavio-e-a-manipulacao-eleitoral-da-fe.shtml.

O candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL) segura imagem de Nossa Senhora Aparecida em visita ao Mercado Municipal de São Paulo - Bruno Santos - 28.set.26/Folhapress · Bruno Santos - 28.set.26/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo
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