Negacionismo eleitoral é pandemia, e Trump é o paciente zero, diz diretor de instituto pró-democracia
O relatório deste ano sobre o estado da democracia no mundo compilado pelo Idea (Instituto Internacional pela Democracia e Auxílio Eleitoral), estabelece uma ligação direta entre a erosão democrática nos Estados Unidos causada por Donald Trump e movimentos autoritários em outros lugares no mundo - inclusive no Brasil . Leia mais (09/26/2026 - 23h00)

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O relatório deste ano sobre o estado da democracia no mundo compilado pelo Idea (Instituto Internacional pela Democracia e Auxílio Eleitoral), estabelece uma ligação direta entre a erosão democrática nos Estados Unidos causada por Donald Trump e movimentos autoritários em outros lugares no mundo — inclusive no Brasil .

De acordo com o documento da organização intergovernamental sediada na Suécia , o ataque do 8 de Janeiro em Brasília só foi possível porque, dois anos antes, trumpistas incentivados pelo presidente americano invadiram o Capitólio com o objetivo de reverter o resultado das eleições, vencidas por Joe Biden .
Para o secretário-geral do Idea, o costarriquenho Kevin Casas-Zamora, Trump é o "paciente zero" da "pandemia de negacionismo eleitoral" que atinge o mundo democrático há pelo menos cinco anos .
Em entrevista à Folha por telefone, Casas-Zamora falou sobre a interferência americana nas eleições brasileiras, sobre eventual erosão democrática em um governo Flávio Bolsonaro , e sobre a situação da democracia nos EUA.

O Idea aponta uma melhora no nível democrático do Brasil, avançando 12 posições na categoria "direitos" de 2025 para 2026. O que explica isso? A razão fundamental é a queda abrupta em muitos indicadores durante o governo anterior , em que houve fortes ataques contra a liberdade de imprensa, a independência judicial e a credibilidade do processo eleitoral. Ou seja, a melhora do Brasil se dá graças a um efeito rebote.
O relatório deste ano também mostra avanços no Estado de Direito brasileiro —o país está na frente de Argentina , Colômbia , Índia e Hungria , por exemplo. Entretanto, críticos de direita afirmam que o Judiciário comete cada vez mais abusos sem respostas institucionais à altura . Como o senhor responderia a essas críticas? Não quero me meter na política brasileira. Eu me limitarei a dizer que, vendo o que acontece nesse momento com o STF , há problemas no Judiciário do Brasil que merecem atenção. Entretanto, é inegável que o Supremo brasileiro teve um papel fundamental na proteção da democracia, garantindo a integridade eleitoral quando o ex-presidente Jair Bolsonaro atacou as eleições. O Brasil é um exemplo nesse sentido: acusações sem provas, que causam danos gratuitos à democracia em um país, devem ter um custo político para quem as levanta .
O Idea traça um paralelo claro entre a deterioração democrática nos EUA e o ataque do 8 de Janeiro no Brasil. Como os dois estão relacionados? Como o declínio americano afeta a América Latina ? No geral, tudo que acontece nos EUA tem impactos globais. Os paralelos entre o que aconteceu em Washington em 6 de janeiro de 2021 e o que houve no Brasil dois anos depois são óbvios, não requer muita explicação.

Existem muitos casos em que os eventos nos EUA acabam adotados por atores políticos em outros países. O mais evidente é o negacionismo eleitoral, que se tornou uma pandemia . No mundo todo vemos políticos que, sem prova alguma, semeiam dúvidas sobre processos e resultados eleitorais críveis. O paciente zero dessa pandemia é o atual ocupante da Casa Branca.
O senhor acha que há hoje uma interferência real e direta do governo Trump nas eleições brasileiras? Não sei, mas vimos em outros casos, como na Colômbia , ou em Honduras ...
Mas quando Trump apoia Flávio Bolsonaro... Nesse caso sim, mas não é o único. Também ocorre na Argentina, onde foi prometido apoio econômico ao governo e ao país se Javier Milei tivesse um bom resultado eleitoral. Ou seja, a forma de intervenção mudou, sobretudo na América Latina. Em alguns casos, funciona. Em outros, não.

A ingerência americana em assuntos internos tornou-se muito mais escancarada, e o Brasil é um exemplo disso. Vemos nas eleições , mas também no processo judicial que resultou na condenação de Bolsonaro . Claramente houve intenção por parte dos EUA de intervir. Isso é realmente incomum.
Dada essa interferência, quando há resultados favoráveis aos EUA, podemos afirmar que as eleições foram justas e competitivas? Acredito que a intervenção estrangeira é um fator deletério, assim como existem outros —por exemplo, o acesso ao dinheiro que diferentes partidos podem ter, que é uma distorção importante do processo eleitoral.
É difícil dizer quando se cruza a linha que nos permite afirmar que determinada eleição não foi justa graças ao papel do dinheiro . Também é muito difícil saber quando declarações públicas de Trump se tornam um fator de distorção tão importante que o pleito deixa de ser equilibrado e transparente.

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A verdade é que a ciência não sabe dizer por que as pessoas votam como votam. Enquanto não houver evidência contundente de que o comportamento eleitoral foi alterado por algum desses fatores, creio que é necessário, no caso de um país como o Brasil, presumir que o processo é suficientemente aberto e transparente para que a eleição seja justa, independentemente do resultado.
Se Flávio Bolsonaro vencer as eleições, o senhor acha que vai haver uma queda na qualidade da democracia no Brasil? Não me atrevo a fazer previsões. Direi o seguinte: o sucesso eleitoral da extrema direita, o fato de que cada vez mais pessoas ao redor do mundo optam por partidos desse campo político, é absolutamente legítimo. É fruto da vontade popular, nada tem de inaceitável, nem mesmo se trata, por si só, de um ataque à democracia .

É muito diferente quando os partidos de extrema direita chegam ao poder. Aí sim temos provas abundantes de que, assim que isso acontece, há um ataque sistemático aos controles sobre o exercício do poder , que são vistos por esses partidos como obstáculos à vontade popular que eles dizem representar.
Isto é, o desempenho eleitoral dos partidos de extrema direita, fruto do jogo democrático, é muito diferente da conduta desses partidos quando chegam ao poder. O perigo está no segundo, não no primeiro.
Mas o primeiro leva ao segundo, não? Não necessariamente . Além disso, as pessoas votam nesses partidos porque não se sentem representadas por outros. Podemos não gostar do populismo autoritário, mas ele é um sintoma de alguma coisa.

Quanto à sua pergunta inicial: não sei como seria um eventual governo Flávio Bolsonaro. Se se portar como seu pai , há razões para temer um retrocesso democrático.
Seu relatório diz que os EUA atravessam um declínio democrático. Como o senhor explica que as instituições americanas tenham se mostrado tão fracas diante de Trump? Em "Como as Democracias Morrem", Steven Levitsky e Daniel Ziblatt escreveram que, em última análise, o funcionamento de um sistema democrático não depende tanto das normas que controlam o exercício do poder, mas sim do comportamento e autocontenção dos atores políticos. Trump é um ator que não respeita as regras do jogo e, assim, elas deixam de funcionar ou se enfraquecem.
Nem todas, porém. Vimos claramente que a independência judicial nos EUA saiu fortalecida, e o que sustentou a democracia americana, tanto no primeiro quanto no atual mandato de Trump, foi a determinação de juízes de primeira instância —mais do que a Suprema Corte— de impor freios à intenção do presidente de atropelar as instituições.
É certo que há um ataque ao Estado de Direito nos EUA. Mas o caso americano oferece um exemplo extraordinário de por que a independência judicial é tão importante na democracia .
Nasceu em 1968 em San José, na Costa Rica . Advogado formado pela Universidade da Costa Rica, possui mestrado em ciência política pela Universidade de Essex, no Reino Unido , e doutorado no mesmo campo pela Universidade de Oxford. Foi eleito vice-presidente da Costa Rica em 2006, na chapa de Óscar Arias Sánchez . Depois, desempenhou cargos na Organização dos Estados Americanos ( OEA ) antes de se tornar secretário-geral do Idea em 2019, cargo que ocupa até hoje.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2026/09/negacionismo-eleitoral-e-pandemia-e-trump-e-o-paciente-zero-diz-diretor-de-instituto-pro-democracia.shtml.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, chega à sede das Nações Unidas, em Nova York, nos EUA - Timothy A. Clary - 22.set.26/AFP · Timothy A. Clary - 22.set.26/AFP — Foto: Folha de S.Paulo
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