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    Navi Pillay e a crise da responsabilidade internacional dos Estados

    Ao premiar uma pessoa, o Nobel da Paz reconhece toda uma trajetória. É esse o caso de Navi Pillay . Poucas figuras do direito internacional contemporâneo reuniram uma carreira tão consistente na defesa da dignidade humana, do combate à impunidade e da afirmação do direito internacional. Leia mais (10/09/2026 - 16h00)

    Folha de S.Paulo
    9 de outubro de 2026 às 19:00
    Navi Pillay e a crise da responsabilidade internacional dos Estados
    Mulher de meia-idade com óculos transparentes e brincos de argola sorri levemente. Fundo azul desfocado sugere ambiente formal. — Foto: Folha de S.Paulo

    Expressa as ideias do autor e defende sua interpretação dos fatos​

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    A jurista Navi Pillay em um evento da ONU na Suíça - Denis Balibouse - 18.out.12/Reuters
    A jurista Navi Pillay em um evento da ONU na Suíça - Denis Balibouse - 18.out.12/Reuters — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Professor titular aposentado de ciência política (USP); é ex-presidente da Comissão Internacional Independente da ONU de Inquérito sobre a República Árabe Síria (2011-26) e ex ministro da Secretaria de de Direitos Humanos (2001-03, governo FHC)

    Ao premiar uma pessoa, o Nobel da Paz reconhece toda uma trajetória. É esse o caso de Navi Pillay . Poucas figuras do direito internacional contemporâneo reuniram uma carreira tão consistente na defesa da dignidade humana, do combate à impunidade e da afirmação do direito internacional.

    Juíza do Tribunal Penal Internacional para Ruanda, presidiu a câmara que proferiu, em 1998, a histórica sentença "Akayesu" , a primeira condenação internacional por genocídio a reconhecer o estupro como instrumento genocida. Mais tarde, integrou o Tribunal Penal Internacional e, entre 2008 e 2014, foi Alta Comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos .

    Veja quem foram os vencedores do prêmio Nobel da Paz no século 21
    Veja quem foram os vencedores do prêmio Nobel da Paz no século 21 — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Como Alta Comissária, exerceu autoridade moral rara no sistema internacional. Diante das violações cometidas por Estados poderosos ou frágeis, aliados ou adversários das grandes potências, Pillay recusou a complacência.

    Criticou Guantánamo , a detenção sem julgamento e os ataques por drones dos Estados Unidos. Condenou os assentamentos israelenses nos territórios palestinos ocupados. Denunciou as graves violações cometidas no final da guerra civil do Sri Lanka e pressionou pela abertura de uma investigação internacional independente.

    Posso testemunhar pessoalmente sua coragem política. Navi Pillay esteve entre as primeiras vozes dentro da ONU a exigir responsabilização pelos crimes cometidos por todas as partes no conflito sírio. Seu apoio firme à Comissão Internacional de Inquérito sobre a Síria, que presidi, foi decisivo num momento em que muitos preferiam o silêncio à verdade.

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Seu legado também inclui a defesa pioneira dos direitos das pessoas LGBTQIA+. Sob sua liderança, o Conselho de Direitos Humanos da ONU adotou sua primeira resolução sobre orientação sexual e identidade de gênero e a ONU lançou sua primeira campanha global contra a homofobia.

    Ao reconhecer a trajetória mais recente de Navi Pillay, o Comitê Nobel lança luz forte sobre um dos mais centrais debates do nosso tempo: o imperativo moral de pôr fim à destruição do povo palestino. Entre 2021 e 2025, Pillay presidiu a Comissão Internacional Independente de Inquérito sobre o território palestino ocupado. Seu relatório concluiu que Israel é responsável pela prática de atos de genocídio em Gaza. Atribuiu a autoridades israelenses do mais alto escalão a intenção de impor condições que provocassem a destruição física dos palestinos, no todo ou em parte.

    A homenagem torna-se ainda mais relevante diante dos crescentes ataques aos mecanismos de proteção internacional dos direitos humanos. Em todos os continentes, Estados ignoram decisões, deslegitimam investigações

    ilustração de Daniel Bueno para as páginas do projeto editorial da Folha
    ilustração de Daniel Bueno para as páginas do projeto editorial da Folha — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Essa tendência converge com a visão da extrema direita internacional, que tem como um de seus principais alvos a própria ideia de cooperação multilateral construída depois de 1945. Direitos humanos universais passam a ser retratados como imposições ideológicas. A igualdade de gênero, os direitos dos povos indígenas e a proteção das minorias não são apresentados como avanços civilizatórios, mas como ameaças à soberania nacional.

    O Nobel para Pillay é uma advertência política. Reafirma que a paz não nasce da força dos Estados, mas da força das normas que limitam seus abusos. Que, sem verdade e sem justiça, a violência ressurge, se perpetua e se propaga. E que a impunidade não apenas nega os direitos das vítimas, mas abre caminho para novas atrocidades.

    Recorda a obrigação que muitos governos procuram esquecer: não existe compromisso com a paz sem aceitação dos limites impostos pelo direito internacional. Estados que sancionam relatores especiais de direitos humanos, ignoram mecanismos de responsabilização e descartam normas comuns quando elas se tornam inconvenientes não estão defendendo sua soberania. Estão reivindicando impunidade.

    A trajetória de Navi Pillay é a prova de que os direitos humanos só avançam quando o poder aceita ser julgado. O verdadeiro significado deste Nobel está justamente aí: lembrar aos Estados que nenhuma autoridade é legítima quando se considera acima das regras que exige dos demais. TENDÊNCIAS / DEBATES Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2026/10/navi-pillay-e-a-crise-da-responsabilidade-internacional-dos-estados.shtml.

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    A jurista Navi Pillay em um evento da ONU na Suíça - Denis Balibouse - 18.out.12/Reuters — Foto: Folha de S.Paulo

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