Brasil

    Nasci enquanto minha mãe era mantida vida em um pulmão de aço

    Em 1956, Elizabeth Mennell tinha 32 anos e uma carreira de destaque no Ministério das Relações Exteriores britânico. Ela adorava atividades ao ar livre, especialmente caminhadas e natação, e estava grávida de cinco meses de seu segundo filho. Leia mais (09/27/2026 - 10h04)

    Folha de S.Paulo
    27 de setembro de 2026 às 13:04
    Nasci enquanto minha mãe era mantida vida em um pulmão de aço
    Mulher deitada sorrindo ao lado de bebê vestido com suéter branco, ambos sobre cama com parede de tijolos ao fundo. — Foto: Folha de S.Paulo

    Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.

    Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.

    Em 1956, Elizabeth Mennell tinha 32 anos e uma carreira de destaque no Ministério das Relações Exteriores britânico. Ela adorava atividades ao ar livre, especialmente caminhadas e natação, e estava grávida de cinco meses de seu segundo filho.

    Elizabeth Mennell contraiu poliomielite quando estava grávida de cinco meses, o que fez com que precisasse dar à luz com a ajuda de ventiladores e de um pulmão de aço - Arquivo pessoal · Arquivo pessoal
    Elizabeth Mennell contraiu poliomielite quando estava grávida de cinco meses, o que fez com que precisasse dar à luz com a ajuda de ventiladores e de um pulmão de aço - Arquivo pessoal · Arquivo pessoal — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Então, um dia, contraiu poliomielite . Ficou paralisada e passou três anos internada, grande parte desse período dentro de um pulmão de aço —um cilindro metálico horizontal no qual os pacientes ficavam deitados para ajudá-los a respirar.

    A filha de Elizabeth, Susan Mennell, hoje com 70 anos e moradora de Bookham, em Surrey, na Inglaterra , disse que sua mãe "aparentemente deu à luz a mim dentro de um pulmão de aço", embora provavelmente o equipamento tenha sido aberto para o parto.

    "A poliomielite afetou as pernas e os braços dela, além dos músculos intercostais, o que significava que ela não conseguia respirar adequadamente sem ajuda. Meu irmão tinha 18 meses na época, então foi uma grande mudança para a família", explicou Susan.

    Susan Mennell nasceu saudável, apesar de a poliomielite afetar desproporcionalmente as crianças pequenas - Rosie Blunt/BBC · Rosie Blunt/BBC
    Susan Mennell nasceu saudável, apesar de a poliomielite afetar desproporcionalmente as crianças pequenas - Rosie Blunt/BBC · Rosie Blunt/BBC — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    A poliomielite era muito comum em meados do século 20, e os sintomas podiam variar desde nenhum sintoma até paralisia permanente ou morte.

    O pulmão de aço, que hoje foi substituído pelos ventiladores modernos, era usado para ajudar pacientes cujos pulmões haviam sido afetados pela paralisia.

    Um motor fazia o ar entrar e sair do cilindro, forçando os pulmões a se expandirem e absorverem ar. Quando o ar voltava a entrar, os pulmões se contraíam.

    Nas décadas de 1940 e 1950, enfermarias inteiras eram ocupadas por pulmões de aço para cuidar de pacientes com poliomielite, como esta no Hospital do Condado de Los Angeles - Getty Images · Getty Images
    Nas décadas de 1940 e 1950, enfermarias inteiras eram ocupadas por pulmões de aço para cuidar de pacientes com poliomielite, como esta no Hospital do Condado de Los Angeles - Getty Images · Getty Images — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Registros históricos sugerem que mulheres que davam à luz enquanto dependiam de um pulmão de aço eram retiradas do equipamento por alguns instantes para o parto ou tinham a parte inferior do cilindro aberta. Elas recebiam formas alternativas de ventilação para ajudá-las a respirar durante o parto.

    A poliomielite afetava especialmente crianças pequenas. Felizmente, Susan era, de modo geral, um bebê saudável.

    "Eu aparentemente só comecei a falar quando tinha uns três anos, então acharam que minhas cordas vocais poderiam ter sido afetadas", contou.

    Campanha de vacinação contra a poliomielite no mundo
    Campanha de vacinação contra a poliomielite no mundo — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    No auge da doença, nas décadas de 1940 e 1950, a poliomielite matava ou deixava mais de meio milhão de pessoas paralisadas por ano em todo o mundo.

    Elizabeth ficou permanentemente incapacitada pela doença.

    Ela nunca mais voltou a andar e não conseguia segurar os filhos, algo que seu filho pequeno achou especialmente difícil, porque "ela não era a mãe que ele conhecia", disse Susan.

    Conheça a história do personagem Zé Gotinha
    Conheça a história do personagem Zé Gotinha — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Quando a mãe estava no hospital, as crianças foram morar com a tia. Ela as incentivou a chamá-la de mãe.

    "Meu pai ia todos os dias de carro até Londres, então não teria tido muito tempo para cuidar de nós", disse Susan.

    Quando Elizabeth finalmente voltou para casa, três anos depois, a vida era muito diferente.

    Mulher idosa com cabelo grisalho na altura dos ombros sorri para a câmera em jardim com gramado seco e muro de pedras ao fundo. Há vasos com plantas e arbustos secos ao redor.
    Mulher idosa com cabelo grisalho na altura dos ombros sorri para a câmera em jardim com gramado seco e muro de pedras ao fundo. Há vasos com plantas e arbustos secos ao redor. — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    "Nossos pais passaram a lua de mel nos Alpes Suíços, fazendo caminhadas, e ela gostava de nadar. Então, era uma mulher muito saudável e em boa forma, mas a doença a atingiu e ela simplesmente teve de se adaptar a uma nova vida", disse Susan.

    "Nós tínhamos vários equipamentos para ajudá-la e ela tinha a chamada cama basculante (uma cama que se inclinava de um lado para o outro para ajudar na respiração), que usava à noite. Ela também tinha um ventilador mecânico."

    Elizabeth tinha acabado de perder a oportunidade de ser vacinada contra a poliomielite, uma vacina desenvolvida pelo médico americano Jonas Salk no início dos anos 1950 e licenciada em 1955, um ano antes de Elizabeth contrair a doença.

    Sala ampla com várias incubadoras alinhadas em fileiras, cada uma contendo um bebê. Enfermeiras vestidas com uniformes brancos cuidam dos recém-nascidos. Ambiente hospitalar com piso liso e iluminação uniforme.
    Sala ampla com várias incubadoras alinhadas em fileiras, cada uma contendo um bebê. Enfermeiras vestidas com uniformes brancos cuidam dos recém-nascidos. Ambiente hospitalar com piso liso e iluminação uniforme. — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Em 1957, o número anual de casos de poliomielite havia caído de 58 mil para 5.600 como resultado do programa de vacinação . O último caso registrado no Reino Unido foi em 1984.

    Hoje, a poliomielite foi erradicada em todos os países, com exceção de dois: Afeganistão e Paquistão .

    A vacina faz parte do calendário de vacinação infantil de rotina, mas as taxas de cobertura estão abaixo da meta de 95% estabelecida pela OMS (Organização Mundial da Saúde ).

    Imagem da matéria
    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Na Inglaterra, 90,5% das crianças estão vacinadas aos 12 meses de idade.

    O médico Patrick Murphy, pneumologista consultor do Guy's and St Thomas' Hospital, em Londres, considera "uma preocupação real" o risco de a poliomielite voltar devido à queda nas taxas de vacinação.

    "Se a nossa cobertura vacinal estiver caindo e houver migração de uma região onde as taxas de poliomielite são mais altas, existe, na verdade, a possibilidade de surgirem surtos no futuro. Por isso, manter a vacinação é... realmente importante", disse.

    Susan disse que encontrar pessoas que expressam opiniões contrárias à vacinação é algo que sente "de forma muito pessoal" e que precisa "sair da sala".

    "Eu simplesmente penso: se vocês soubessem o quanto certas doenças podem ser devastadoras", disse.

    Elizabeth muitas vezes precisava voltar ao hospital e novamente usar o pulmão de aço, principalmente quando ficava doente.

    Em vez de achar isso angustiante, Susan disse que aquilo se tornou algo muito normal, e a família dizia: "Tudo bem, mamãe está no pulmão de aço porque pegou um resfriado".

    Mas Susan disse que sua mãe era "muito positiva".

    "Nunca, em nenhum momento, ouvi minha mãe demonstrar qualquer autopiedade por causa de sua condição, mas ela construiu uma vida para si mesma, graças ao apoio do meu pai."

    A família chegou até a conseguir passar férias na Bretanha, na França.

    "Meu pai providenciou uma cama basculante para que minha mãe pudesse usá-la enquanto estivéssemos na Bretanha, e fomos de balsa —foi uma aventura e tanto. [Mas] imagino que tenha sido um pesadelo logístico para o meu pai", disse Susan.

    Susan disse que sua mãe tinha "uma compreensão muito boa das pessoas".

    "Ela era uma pessoa muito gentil, uma mulher muito perspicaz e muito inteligente. Tinha uma inteligência emocional enorme.

    "Ela realmente entendia as pessoas, porque, quando você está em uma cadeira de rodas, as pessoas tendem a ignorá-lo, falam por cima de você."

    Ciência, hábitos e prevenção numa newsletter para a sua saúde e bem-estar

    "Ela sabia interpretar muito bem as pessoas, e acho que isso acontecia porque passava muito tempo observando."

    Susan olha com admiração para o fato de seu pai, Francis, ter passado o restante do casamento dos dois cuidando de sua mãe, até a morte dela, aos 70 anos.

    "Meus pais elevaram muito o padrão, e não tenho certeza se eu conseguiria ser tão forte quanto eles", disse.

    Você já conhece as vantagens de ser assinante da Folha? Além de ter acesso a reportagens e colunas, você conta com newsletters exclusivas ( conheça aqui ). Também pode baixar nosso aplicativo gratuito na Apple Store ou na Google Play para receber alertas das principais notícias do dia. A sua assinatura nos ajuda a fazer um jornalismo independente e de qualidade. Obrigado!

    Mais de 180 reportagens e análises publicadas a cada dia. Um time com mais de 200 colunistas e blogueiros. Um jornalismo profissional que fiscaliza o poder público, veicula notícias proveitosas e inspiradoras, faz contraponto à intolerância das redes sociais e traça uma linha clara entre verdade e mentira. Quanto custa ajudar a produzir esse conteúdo?

    Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.

    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2026/09/nasci-enquanto-minha-mae-era-mantida-vida-em-um-pulmao-de-aco.shtml.

    Imagem 1
    1 / 8

    Elizabeth Mennell contraiu poliomielite quando estava grávida de cinco meses, o que fez com que precisasse dar à luz com a ajuda de ventiladores e de um pulmão de aço - Arquivo pessoal · Arquivo pessoal — Foto: Folha de S.Paulo

    Compartilhe

    Espalhe essa notícia

    Comentários(0)