Nas minhas férias no Brasil, faço de tudo, menos descansar
A minha tia Vera costuma dizer que, quando chego ao Brasil para passar férias, faço de tudo, menos descansar: trabalho, passeio, estudo, reencontro os amigos, participo das festas da família, vou ao médico, faço meus exames, viajo e ainda tento manter em dia a minha rotina de exercícios. Leia mais (08/20/2026 - 15h00)

Escritora, doutora em filosofia e literatura alemã pela University College Cork e mestre em filosofia pela Universidade de Tel Aviv
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A minha tia Vera costuma dizer que, quando chego ao Brasil para passar férias, faço de tudo, menos descansar: trabalho, passeio, estudo, reencontro os amigos, participo das festas da família, vou ao médico, faço meus exames, viajo e ainda tento manter em dia a minha rotina de exercícios.
É claro que, às vezes, não consigo fazer tudo o que gostaria. Em julho, por exemplo, estava inscrita para correr a prova de 10 km da Meia Maratona do Marco Zero, mas, depois de passar a noite dançando com a minha mãe na festa de 40 anos de casamento dos meus tios Claudia e Humberto, não houve quem me fizesse sair da cama para estar na largada às 4h da manhã.
Troquei a Maratona do Marco Zero pela corrida De Posto em Posto, cujo percurso inclui alguns dos bairros da minha infância: o bairro da Torre, onde morava a minha avó Lourdinha, a Beira Rio, onde ficava o meu colégio, bem como o bairro das Graças e a Jaqueira, onde eu costumava passear com os meus pais nos finais de semana.

Fiz também a Corrida dos Parques, com largada no parque Santana, e consegui manter a tradição de correr sozinha ao longo da PE-90, em direção à barragem de Pedra Fina, durante uma visita à fazenda dos meus tios, no município de Bom Jardim. Lá, também estive na feira, tomei uma cuba libre na barraca de lanches do Quirino e, pela primeira vez, entrei na sede do Grêmio Lítero Musical Bonjardinense, frequentado pelo meu bisavô Boaventura.
De Bom Jardim, visitei Tracunhaém com a família, onde percorremos os ateliês de arte em barro e eu finalmente conheci o mestre ceramista Mano de Bae. Ao som de Baden Powell, ficamos conversando sobre Homero, João Cabral de Melo Neto e o Engenho Trapuá, até que não resisti e acabei comprando uma de suas famosas sereias, que apelidei de Lorelei do Agreste. Já no caminho de volta para casa, avistei Toyotas coloridos, apinhados de gente igualmente colorida, ultrapassarem o nosso carro em uma estrada ladeada por monótonos canaviais.
Outro momento especial dessa minha visita a Pernambuco foi estar presente na comemoração dos cem anos da Sinagoga Israelita do Recife , ver a casa cheia, reencontrar o antropólogo Renato Athias, o escritor Jacques Ribemboim e, principalmente, dar um abraço no ator Germano Haiut, que compartilhou conosco suas recordações sobre a vida judaica no centro da cidade ao longo do século 20. Algo que ele viveu plenamente, mas que eu também cheguei a alcançar, ainda que de forma bastante diluída, através do meu pai.
Ainda estive na biblioteca da professora Tânia Kaufman, autora de extensa pesquisa sobre a presença judaica em Pernambuco. Passamos a tarde conversando sobre livros, genealogias e questões de identidade, entre uma deliciosa fatia de torta e um cafezinho. Saí de lá ao anoitecer, munida de novas leituras e inquietações sobre a maneira como nós construímos, preservamos e transmitimos a nossa própria história.
Questões que se aproximam de algumas das discussões que proponho em meu projeto de pesquisa e que tive a oportunidade de abordar hoje, na aula inaugural do semestre da pós-graduação em filosofia da Universidade Federal de Pernambuco. Deixo aqui, portanto, o meu agradecimento aos professores Fernando Nascimento, Sérgio Farias e Roberta Damasceno, pelo convite e pela acolhida, e ao Grupo de Estudo e Pesquisa sobre o Pensamento Político de Hannah Arendt, pela oportunidade de compartilhar essas ideias.
Neste final de semana, viajo para Campina Grande , mas volto para o Recife ainda no domingo para receber a minha melhor amiga, que não vejo desde a pandemia! Juntas, iremos a Pesqueira com a minha mãe e minha prima Gabriela para visitar a propriedade onde foi encontrada uma provável "mikveh" de séculos atrás.
O meu último compromisso no Recife será no dia 31, na Aliança Francesa do Derby, instituição que frequento desde a juventude, onde farei uma palestra sobre a relação entre moral e política na obra de Simone de Beauvoir.
É, acho que minha tia Vera está certa, mas como é bom aproveitar estes momentos na minha terra.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/juliana-de-albuquerque/2026/08/nas-minhas-ferias-no-brasil-faco-de-tudo-menos-descansar.shtml.

Vista aérea do Marco Zero, no Recife, durante a pandemia - Divulgação Secretaria de Defesa Social · Divulgação Secretaria de Defesa Social — Foto: Folha de S.Paulo
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