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    Não milito por nomes, mas por evidências

    A cada eleição me perguntam em quem voto. Respondo com outra pergunta: "Em que você acredita?" "Em que", não "em quem". Não acredito em nome, mas em método. Leia mais (10/14/2026 - 22h00)

    Folha de S.Paulo
    15 de outubro de 2026 às 01:00
    Não milito por nomes, mas por evidências
    Dois homens aparecem em retratos lado a lado. O da esquerda tem cabelo escuro, veste terno preto com camisa branca e está contra fundo escuro. O da direita tem cabelo e barba grisalhos, veste terno preto com camisa azul clara e gravata cinz — Foto: Folha de S.Paulo

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    Montagem com os candidatos Flávio Bolsonaro (PL) e Lula (PT) - Reuters e EPA/Shutterstock · Reuters e EPA/Shutterstock
    Montagem com os candidatos Flávio Bolsonaro (PL) e Lula (PT) - Reuters e EPA/Shutterstock · Reuters e EPA/Shutterstock — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    A cada eleição me perguntam em quem voto. Respondo com outra pergunta: "Em que você acredita?" "Em que", não "em quem". Não acredito em nome, mas em método.

    Políticas públicas devem nascer de evidência, serem medidas com dados e corrigidas quando não entregam. É o meu critério como oncologista : por maior que sejam o carinho e a empatia da consulta, o tratamento não será eficaz por minha causa, mas pela prescrição que segue a melhor evidência científica. Quem milita por nomes compra o remédio sem ler a bula.

    Porque pessoas mudam. Lula 1 teve Meirelles, Lisboa e Levy. Ortodoxia com crescimento e inflação controlada. A Esplanada do Lula 3 foi repartida entre aliados, e 18 ministros deixaram os cargos para disputar eleição — incluindo o da Fazenda , cujo trabalho ficou aquém dos citados acima. Mesmo nome, governo diferente.

    Flávio Bolsonaro e Lula no segundo turno das eleições 2026
    Flávio Bolsonaro e Lula no segundo turno das eleições 2026 — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    O Bolsa Família é exemplo do que funciona (ou funcionou). Unificou programas de FHC, condicionando-os à vacina e à escola. Resultado? Mortalidade infantil 16% menor, 64% das crianças cresceram para a independência do programa. Ponte para a dignidade. A ponte virou palanque. Dilma Rousseff anunciou reajustes em baixa popularidade e Jair Bolsonaro fez a PEC Kamikaze. A oposição aprovou. Hoje, entre os elegíveis, a cada duas novas famílias atendidas, uma deixa a força de trabalho. Quem não procura emprego não é desempregado para a estatística oficial.

    A campanha de 2022 também fez de tragédias ecológicas um cenário. Lá, os artistas cantaram para salvar a Amazônia e se calaram quando as queimadas bateram recorde em 2024 e no território yanomami, com mais mortes do que em 2022.

    Na saúde , não há meio-termo sobre o governo Bolsonaro. Sua campanha contra as vacinas custou vidas (e talvez sua reeleição). O Ministério da Saúde mudou de mãos, e a esperança de melhora na oncologia não virou indicador: 46% desses pacientes SUS não começam o tratamento em 60 dias. A fila da radioterapia aumentou em paralelo ao Orçamento de 2026, com R$ 61 bilhões a emendas alimentando o toma lá dá cá da saúde. São Paulo mostrou o caminho: a Tabela SUS Paulista complementa repasse para quem entrega procedimentos. Cirurgias oncológicas cresceram 17% no seu primeiro semestre.

    SP ainda tem milhares de pessoas sem saneamento básico
    SP ainda tem milhares de pessoas sem saneamento básico — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Ignorar evidências culmina em protecionismo pernicioso. Em 2024, ao discutir a vacina da dengue , alertei que a "soberania sanitária" concentra recursos em estatais e afasta a inovação que gera eficiência. A Butantan-DV, vacina contra a dengue, está suspensa há meses devido a eventos adversos graves e a Qdenga, importada, segue uso restrito por falta de doses. Nem a nacional nem a importada chegam à população.

    A mesma lógica vale ao saneamento . Pouco mais de 50% dos brasileiros têm esgoto. O marco legal de 2020 sofreu tentativa de boicote do governo Lula, ignorando as evidências que aprendemos com o setor elétrico. Na Argentina, a concessão do saneamento diminuiu a mortalidade infantil em 26% nas áreas mais pobres. Privatização (com contratos e metas) salva vidas.

    Não é defesa de menos Estado, mas de uma máquina mais eficiente. Educação que leve ao emprego. SUS que garanta acesso. Estado enxuto no custeio e que não atrapalhe quem quer subir...

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Quando o Simples cortou impostos e burocracia, as microempresas faturaram e contrataram mais. É, sim, a vontade do povo. Em 2017, o PT ouviu eleitores da periferia de São Paulo. Encontrou gente que quer "ser alguém" e valoriza o esforço. Vê o Estado ineficiente como adversário. A entrega convence, o discurso vazio vira voto no outro candidato. O partido recebeu o diagnóstico, mas, em 2022, preferiu a picanha (que não veio). Em que pese a estiagem, o fiscal do Lula 3 piorou o cenário econômico, levando os juros a 15%. Clima não se controla. Credibilidade fiscal, sim.

    Deixamos de ser o país que ria das sátiras do "Casseta & Planeta" para nos tornarmos a sociedade dividida entre torcidas que enxergam uma na outra o fascismo ou o comunismo. Trocamos propostas por medo. O medo dispensa evidências. Assim, políticos precisam apenas de memes, não de projetos.

    Sempre apoiarei o governo escolhido pela maioria. Mas não é compromisso com quem ocupa o Planalto e sim com o que resiste ao teste dos dados. Apoio a assistência que emancipa, o esgoto tratado que evita doença, a escola que ensina de verdade, o imposto que não pune o pobre e a saúde guiada pela ciência .

    ilustração de Daniel Bueno para as páginas do projeto editorial da Folha
    ilustração de Daniel Bueno para as páginas do projeto editorial da Folha — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Quem se afastar desse modelo terá minha crítica, seja qual for o nome na urna. TENDÊNCIAS / DEBATES Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2026/10/nao-milito-por-nomes-mas-por-evidencias.shtml.

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    Montagem com os candidatos Flávio Bolsonaro (PL) e Lula (PT) - Reuters e EPA/Shutterstock · Reuters e EPA/Shutterstock — Foto: Folha de S.Paulo

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