Não há resposta climática sem justiça social
Uma enchente pode destruir uma casa, acabar com a renda, tirar uma criança da escola e deixar uma família sem acesso a serviços básicos. Uma onda de calor pode significar risco à saúde para quem trabalha na rua ou vive em uma moradia inadequada. Leia mais (10/09/2026 - 10h00)

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Uma enchente pode destruir uma casa, acabar com a renda, tirar uma criança da escola e deixar uma família sem acesso a serviços básicos. Uma onda de calor pode significar risco à saúde para quem trabalha na rua ou vive em uma moradia inadequada.
É na ponta que a emergência climática deixa de ser um gráfico ou uma meta de redução de carbono e passa a ter nome, endereço e consequências.
Quem já vive em situação de vulnerabilidade tem menos recursos para se proteger, se adaptar e reconstruir a vida depois de um evento extremo. A crise climática chega a uma sociedade desigual e tende a aprofundar o que já existe.

O IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) mostra que os impactos climáticos atingem de maneira desproporcional populações que já enfrentam pobreza e desigualdade. O Banco Mundial estima que os choques climáticos podem levar entre 800 mil e 3 milhões de brasileiros adicionais à pobreza extrema até 2030.
Em agosto, o hub de impacto socioambiental Civi-co sediou encontros da São Paulo Climate Week , reunindo diferentes setores. As conversas reforçaram uma questão fundamental: quem está participando da construção das respostas?
Existe conhecimento sendo produzido nas universidades, estratégias nas empresas e governos e mobilizações na sociedade civil. Mas existe também um conhecimento que nem sempre chega às mesas de decisão: o de quem vive nos territórios mais vulneráveis.

Uma liderança comunitária que convive há anos com enchentes conhece o comportamento daquele território, sabe quais ruas ficam intransitáveis, quem precisa de ajuda e quais soluções já foram tentadas. Quem vive em regiões de seca desenvolve maneiras de administrar água e produção.
Não estou dizendo que o conhecimento empírico substitui a ciência . Ao contrário. Precisamos aproximá-los. O próprio IPCC reconhece a importância de combinar conhecimento científico e local nos processos de adaptação, valorizando também os saberes de territórios indígenas , quilombolas , periferias e favelas .
É nesse ponto que vejo um papel importante para a tecnologia social: primeiro incluir e, depois, colaborar em torno de soluções coletivas. Precisamos sair do modelo em que alguém desenvolve uma solução e a leva para uma comunidade e passar a construir metodologias que reconheçam diferentes conhecimentos e transformem essa diversidade em soluções aplicáveis e escaláveis.

Porque já temos especialistas, lideranças, empresas, governos, universidades, empreendedores, investidores e, sobretudo, territórios que sabem muito sobre como sobreviver às adversidades. O que falta é uma forma mais estruturada de trabalharmos juntos.
Precisamos de um pacto, uma aliança multissetorial que reconheça e fortaleça as inúmeras iniciativas que já trabalham para conectar diferentes atores. Não se trata de criar mais uma rede, mas de aproximar as que já existem, compartilhar aprendizados, potencializar recursos e evitar que boas soluções permaneçam isoladas.
Essa aliança pode aproximar quem tem conhecimento de quem tem recursos, quem desenvolve soluções de quem precisa delas e quem toma decisões de quem conhece os problemas no território.
Ao longo dos anos, no Civi-co, aprendi que encontros improváveis podem abrir caminhos que nenhum dos envolvidos enxergaria sozinho.
Uma empresa que encontra, em uma organização social, um conhecimento capaz de transformar sua estratégia; um investidor que conhece um empreendedor cuja solução nasceu de uma dor estrutural ; um pesquisador que testa seu conhecimento junto a quem conhece o território; um gestor público que encontra uma solução que já está funcionando.
Não precisamos começar do zero. Precisamos conectar melhor o que já existe. O desafio climático é ambiental, mas suas consequências são sociais. Por isso, a resposta também precisa ser construída socialmente.
A crise climática nunca foi apenas sobre o meio ambiente, sempre foi sobre a vida, principalmente a de populações que ainda não têm acesso à água, moradia segura e à comida. Na equação da sustentabilidade , não podemos ignorar os aspectos sociais ou estaremos, mais uma vez, criando soluções para os mesmos grupos.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/papo-de-responsa/2026/10/nao-ha-resposta-climatica-sem-justica-social.shtml.

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