Não há mais clima para esquerda e evangélicos dialogarem nesta geração
Evangélicos em geral não têm afinidade com a esquerda, mas Lula perdeu a oportunidade de dialogar com suas lideranças. É o que conclui meu interlocutor, pastor com abertura para votar no Partidos dos Trabalhadores e que acompanha de perto a cena política entre grandes líderes religiosos. Leia mais (09/21/2026 - 18h37)

Antropólogo e historiador, autor de 'Crentes' (Record) e 'Povo de Deus' (Geração), pesquisa cristianismo, mundo popular, mídias digitais e esportes de combate
Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.
Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.

Evangélicos em geral não têm afinidade com a esquerda, mas Lula perdeu a oportunidade de dialogar com suas lideranças. É o que conclui meu interlocutor, pastor com abertura para votar no Partidos dos Trabalhadores e que acompanha de perto a cena política entre grandes líderes religiosos.
Para detalhar as análises que ele fez, precisarei borrar —como se faz nas ciências sociais— a identidade desse interlocutor e vou chamá-lo apenas de Luís.
Luís revela sua posição política apenas quando está entre amigos próximos e familiares. Sua preferência por Lula passa por uma reflexão religiosa.

Ele argumenta que Lula não pode ser cobrado como evangélico , porque não se converteu —é um ímpio. A atitude do líder petista seria mais honesta que a de Bolsonaro, porque o ex-presidente instrumentalizou a religião.
Para Luís, igrejas já tinham uma identidade política antiesquerda no passado. "Há 30 anos ouço pessoas falando abertamente nas igrejas contra China e Cuba", ele analisa, mas antes havia pluralidade: a pessoa de esquerda não era perseguida como passou a ser desde a eleição de 2018.
Luís entende ser definitiva a ruptura entre líderes evangélicos e a esquerda. Mas poderia ter sido diferente se o PT tivesse cultivado relações —mesmo nos bastidores— desde o governo Lula 1. Bastaria o presidente ter demonstrado disponibilidade para se apresentar e escutar a liderança de igrejas influentes.
Em vez disso, Lula e o PT escolheram a saída fácil. Preferiram falar com "os pastores deles". Preferiram ficar isolados entre nomes menos conhecidos, que já se identificam com pautas da esquerda —em relação, por exemplo, a aborto e a casamento homoafetivo.
Se a interlocução tivesse acontecido, o partido teria sido capaz de se blindar de ataques de radicalizados, Luís conclui. Poderia hoje buscar essa liderança para dissolver o sentimento antiesquerda.
Agora é tarde. O território do cristianismo já está controlado por agentes bolsonaristas. Eles policiam o debate público e atacam dissidências de forma a apagá-las. A pessoa deixa de ser convidada para pregar ou se apresentar na igreja. Significa que essa pessoa morre socialmente entre evangélicos.
É um comportamento de manada que detona reputações. Esse foi o tratamento dado a qualquer nome que se pronunciou contrário a Bolsonaro nas últimas eleições . Carreiras de pastores e músicos foram arruinadas.
Apesar disso, Luís avalia que Lula tem uma bala de prata para esta eleição: proibir ou limitar o efeito das bets, vistas como destruidoras de famílias. Mas o impacto será restrito, ainda mais pelo azedamento dos ânimos após o 8 de Janeiro.
A decisão de Lula sobre bets pode convencer, mas apenas a franja de quem já está propensa a rejeitar Flávio Bolsonaro.
A redenção, Luís pondera, pode vir na geração seguinte. Políticos de esquerda como Tabata Amaral estão desbravando território ao incorporar o debate sobre fé em sua comunicação.
Fora esses novos agentes, não há espaço para diálogo com a esquerda.
Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha
LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Você já conhece as vantagens de ser assinante da Folha? Além de ter acesso a reportagens e colunas, você conta com newsletters exclusivas ( conheça aqui ). Também pode baixar nosso aplicativo gratuito na Apple Store ou na Google Play para receber alertas das principais notícias do dia. A sua assinatura nos ajuda a fazer um jornalismo independente e de qualidade. Obrigado!
Mais de 180 reportagens e análises publicadas a cada dia. Um time com mais de 200 colunistas e blogueiros. Um jornalismo profissional que fiscaliza o poder público, veicula notícias proveitosas e inspiradoras, faz contraponto à intolerância das redes sociais e traça uma linha clara entre verdade e mentira. Quanto custa ajudar a produzir esse conteúdo?
Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.
Na página Colunas da Folha você encontra opinião e crônicas de colunistas como Mônica Bergamo , Elio Gaspari , Djamila Ribeiro , Tati Bernardi , Dora Kramer , Ruy Castro , Muniz Sodré , Txai Suruí , José Simão , Thiago Amparo , Antonio Prata e muito mais.
Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/juliano-spyer/2026/09/nao-ha-mais-clima-para-esquerda-e-evangelicos-dialogarem-nesta-geracao.shtml.

Lula reza durante encontro com os bispos evangélicos Primaz Manoel Ferreira e Samuel Ferreira, além do deputado federal Cezinha de Madureira, no Palácio do Planalto - Ricardo Stuckert - 16.out.25/Presidência da República · Ricardo Stuckert — Foto: Folha de S.Paulo
Compartilhe
Espalhe essa notícia

