Brasil

    Não há mais clima para esquerda e evangélicos dialogarem nesta geração

    Evangélicos em geral não têm afinidade com a esquerda, mas Lula perdeu a oportunidade de dialogar com suas lideranças. É o que conclui meu interlocutor, pastor com abertura para votar no Partidos dos Trabalhadores e que acompanha de perto a cena política entre grandes líderes religiosos. Leia mais (09/21/2026 - 18h37)

    Folha de S.Paulo
    21 de setembro de 2026 às 21:37
    Não há mais clima para esquerda e evangélicos dialogarem nesta geração
    Sete pessoas vestindo roupas formais estão em círculo com os braços entrelaçados, em ambiente de escritório com janelas ao fundo. A maioria é masculina, com um homem de terno azul e gravata amarela no centro, e uma mulher loira à direita. — Foto: Folha de S.Paulo

    Antropólogo e historiador, autor de 'Crentes' (Record) e 'Povo de Deus' (Geração), pesquisa cristianismo, mundo popular, mídias digitais e esportes de combate

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    Lula reza durante encontro com os bispos evangélicos Primaz Manoel Ferreira e Samuel Ferreira, além do deputado federal Cezinha de Madureira, no Palácio do Planalto - Ricardo Stuckert - 16.out.25/Presidência da República · Ricardo Stuckert
    Lula reza durante encontro com os bispos evangélicos Primaz Manoel Ferreira e Samuel Ferreira, além do deputado federal Cezinha de Madureira, no Palácio do Planalto - Ricardo Stuckert - 16.out.25/Presidência da República · Ricardo Stuckert — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Evangélicos em geral não têm afinidade com a esquerda, mas Lula perdeu a oportunidade de dialogar com suas lideranças. É o que conclui meu interlocutor, pastor com abertura para votar no Partidos dos Trabalhadores e que acompanha de perto a cena política entre grandes líderes religiosos.

    Para detalhar as análises que ele fez, precisarei borrar —como se faz nas ciências sociais— a identidade desse interlocutor e vou chamá-lo apenas de Luís.

    Luís revela sua posição política apenas quando está entre amigos próximos e familiares. Sua preferência por Lula passa por uma reflexão religiosa.

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Ele argumenta que Lula não pode ser cobrado como evangélico , porque não se converteu —é um ímpio. A atitude do líder petista seria mais honesta que a de Bolsonaro, porque o ex-presidente instrumentalizou a religião.

    Para Luís, igrejas já tinham uma identidade política antiesquerda no passado. "Há 30 anos ouço pessoas falando abertamente nas igrejas contra China e Cuba", ele analisa, mas antes havia pluralidade: a pessoa de esquerda não era perseguida como passou a ser desde a eleição de 2018.

    Luís entende ser definitiva a ruptura entre líderes evangélicos e a esquerda. Mas poderia ter sido diferente se o PT tivesse cultivado relações —mesmo nos bastidores— desde o governo Lula 1. Bastaria o presidente ter demonstrado disponibilidade para se apresentar e escutar a liderança de igrejas influentes.

    Em vez disso, Lula e o PT escolheram a saída fácil. Preferiram falar com "os pastores deles". Preferiram ficar isolados entre nomes menos conhecidos, que já se identificam com pautas da esquerda —em relação, por exemplo, a aborto e a casamento homoafetivo.

    Se a interlocução tivesse acontecido, o partido teria sido capaz de se blindar de ataques de radicalizados, Luís conclui. Poderia hoje buscar essa liderança para dissolver o sentimento antiesquerda.

    Agora é tarde. O território do cristianismo já está controlado por agentes bolsonaristas. Eles policiam o debate público e atacam dissidências de forma a apagá-las. A pessoa deixa de ser convidada para pregar ou se apresentar na igreja. Significa que essa pessoa morre socialmente entre evangélicos.

    É um comportamento de manada que detona reputações. Esse foi o tratamento dado a qualquer nome que se pronunciou contrário a Bolsonaro nas últimas eleições . Carreiras de pastores e músicos foram arruinadas.

    Apesar disso, Luís avalia que Lula tem uma bala de prata para esta eleição: proibir ou limitar o efeito das bets, vistas como destruidoras de famílias. Mas o impacto será restrito, ainda mais pelo azedamento dos ânimos após o 8 de Janeiro.

    A decisão de Lula sobre bets pode convencer, mas apenas a franja de quem já está propensa a rejeitar Flávio Bolsonaro.

    A redenção, Luís pondera, pode vir na geração seguinte. Políticos de esquerda como Tabata Amaral estão desbravando território ao incorporar o debate sobre fé em sua comunicação.

    Fora esses novos agentes, não há espaço para diálogo com a esquerda.

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/juliano-spyer/2026/09/nao-ha-mais-clima-para-esquerda-e-evangelicos-dialogarem-nesta-geracao.shtml.

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    Lula reza durante encontro com os bispos evangélicos Primaz Manoel Ferreira e Samuel Ferreira, além do deputado federal Cezinha de Madureira, no Palácio do Planalto - Ricardo Stuckert - 16.out.25/Presidência da República · Ricardo Stuckert — Foto: Folha de S.Paulo

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