Não há falta de futuros, mas há falta de sentidos
"Estamos fartos", diz um dos participantes nos protestos estudantis em França . "Não há futuro para nós", diz outro. As mesmas frases poderiam ser ditas -e foram- sobre outros protestos e revoltas na história; as mesmas frases têm sido usadas para descrever as reações de eleitorados em todo o mundo, a cada vez que uma eleição corre como não era previsto. Não é impossível que os protestos deste ano na França acabem por ajudar à eleição de Marine Le Pen no próximo ano. Mas será que o lugar-comum faz sentido? Leia mais (10/06/2026 - 23h00)

Historiador, deputado na Assembleia da República de Portugal e ex-deputado no Parlamento Europeu; autor de 'Agora, Agora e Mais Agora'
Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.
Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.

"Estamos fartos", diz um dos participantes nos protestos estudantis em França . "Não há futuro para nós", diz outro. As mesmas frases poderiam ser ditas —e foram— sobre outros protestos e revoltas na história; as mesmas frases têm sido usadas para descrever as reações de eleitorados em todo o mundo, a cada vez que uma eleição corre como não era previsto. Não é impossível que os protestos deste ano na França acabem por ajudar à eleição de Marine Le Pen no próximo ano. Mas será que o lugar-comum faz sentido?
A sensação de que "nada acontece" tem sido usada como justificativa para uma tendência aceleracionista em política, principalmente à direita, mas não só, na tentativa de provocar uma transformação política e social extremada, qualquer que ela seja.
Mas olhem o mundo à nossa volta: alguém pode dizer verdadeiramente que nada acontece? Temos várias guerras em simultâneo, limpeza étnica e (por mais que alguns tentem evitar vê-lo) políticos que aceitam ou até promovem ideias de limpeza étnica e genocídio, da Ucrânia a Gaza .

O avanço tecnológico, em particular no campo da inteligência artificial, é de natureza exponencial. Tivemos pandemias, resultados inesperados em eleições e referendos, crises financeiras, golpes de Estado. Alguém pode seriamente dizer que está aborrecido porque nada acontece?
O aborrecimento pode ser genuíno, mas a razão tem de ser outra. E o mesmo se pode dizer desta sensação de "falta de futuro". Na verdade, nunca os futuros foram tantos e tão divergentes: da superabundância tecnológica ao colapso ecológico, do fim do trabalho à sociedade em rede, escolha não falta. Mas a sensação de falta de futuro é real, e não basta dizer a estes jovens: por que não se empenham numa destas versões do futuro desejável e lutam por ela?
Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha
A questão não é, portanto, a da falta. Nem falta de acontecimentos, nem falta de futuros possíveis. Mais plausível dizer que vivemos num problema de excesso: excesso de acontecimentos dramáticos e excesso de possibilidades de futuro, gerando confusão e pânico.
O problema é outro: o da falta de sentidos. Por duas razões.
A primeira é a da dessensibilização, fomentada em boa medida pelas redes sociais e pela mediação tecnológica entre humanos e acontecimentos. Não é que aconteçam poucas coisas: nós é que estamos como que entorpecidos e distantes. O sofrimento é lá longe; enquanto passamos os polegares pelas telas dos celulares, a desgraça do mundo começa por indignar, mas depois deprime e desmobiliza.
A segunda razão é a da crise de imaginação em que estamos mergulhados: ela atravessa a política progressista, a cultura e até as artes. A única imaginação que sobra é cínica e destrutiva. Democratas e progressistas ficam limitados a responder à sua ofensiva, em vez de terem tempo e espaço mental para inventar alternativas.
Discute-se muito se a pauta do campo progressista deve estar focada na narrativa ou nas questões materiais. A dicotomia é errada.
Nós podemos dar uma abundância de bens materiais às pessoas. Mas se não lhes dermos sentidos —para a democracia, para o progresso e até para a humanidade— não teremos vidas que valham a pena ser vividas. O vazio que explica a revolta começa por aí. A humanidade busca significados morais e não tem lideranças que lhos queiram dar.
LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Você já conhece as vantagens de ser assinante da Folha? Além de ter acesso a reportagens e colunas, você conta com newsletters exclusivas ( conheça aqui ). Também pode baixar nosso aplicativo gratuito na Apple Store ou na Google Play para receber alertas das principais notícias do dia. A sua assinatura nos ajuda a fazer um jornalismo independente e de qualidade. Obrigado!
Mais de 180 reportagens e análises publicadas a cada dia. Um time com mais de 200 colunistas e blogueiros. Um jornalismo profissional que fiscaliza o poder público, veicula notícias proveitosas e inspiradoras, faz contraponto à intolerância das redes sociais e traça uma linha clara entre verdade e mentira. Quanto custa ajudar a produzir esse conteúdo?
Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.
Na página Colunas da Folha você encontra opinião e crônicas de colunistas como Mônica Bergamo , Elio Gaspari , Djamila Ribeiro , Tati Bernardi , Dora Kramer , Ruy Castro , Muniz Sodré , Txai Suruí , José Simão , Thiago Amparo , Antonio Prata e muito mais.
Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/rui-tavares/2026/10/nao-ha-falta-de-futuros-mas-ha-falta-de-sentidos.shtml.

Manifestante chuta artefato durante protesto em Paris - Dimitar Dilkoff/AFP · Dimitar Dilkoff/AFP — Foto: Folha de S.Paulo
Compartilhe
Espalhe essa notícia

