Não fossem guerra e El Niño, IPCA subiria cerca de 4% em 2026
De acordo com o boletim Focus mais recente , a mediana das expectativas do "mercado" indica uma alta de cerca de 5% da inflação varejista brasileira em 2026, desacelerando para 4,2% em 2027. Leia mais (08/13/2026 - 13h30)

Doutorando em economia da FGV EESP, mestre em economia na FEA-USP, é diretor da LCA Consultores e pesquisador-associado do FGV Ibre
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De acordo com o boletim Focus mais recente , a mediana das expectativas do "mercado" indica uma alta de cerca de 5% da inflação varejista brasileira em 2026, desacelerando para 4,2% em 2027.
Em janeiro, os analistas esperavam altas do IPCA de 4,3% neste ano e de 4,1% no ano que vem. Vale lembrar que a meta de inflação é de 3%, com um intervalo de tolerância de mais ou menos 1,5 ponto percentual.
O que está por trás dessas revisões para cima? A edição mais recente do Questionário Pré-Copom —um levantamento mais detalhado do que o boletim Focus, enviado pelo BCB aos analistas nas semanas que antecedem as reuniões de política monetária— joga uma luz sobre isso.
Segundo as estimativas de consenso, o conflito no Oriente Médio iniciado no fim de fevereiro —e que ainda não foi superado completamente— agregou cerca de 0,7 ponto percentual ao IPCA deste ano.
Caso esse conflito persista e impeça que a cotação do petróleo do tipo Brent recue para cerca de US$ 80 até dezembro, os analistas apontam que esse impacto inflacionário pode chegar a 0,9 ponto percentual.
Já para 2027, embora não sejam apontadas estimativas pontuais de impacto sobre a inflação, 53% dos analistas indicam que a guerra também causará elevação no ano que vem —refletindo os diversos mecanismos de indexação, formais e informais, de preços e salários, presentes na economia brasileira.
O questionário também indagou os analistas sobre o impacto do El Niño sobre a inflação. Segundo a mediana das expectativas, esse fenômeno climático —que deverá alcançar a maior intensidade já registrada em cerca de 150 anos— poderá impactar o IPCA em 0,3 ponto percentual em 2026 e em 0,4 p.p. em 2027.
Não obstante, até o momento, os analistas incorporaram apenas parte desses efeitos às suas projeções: 0,2 p.p. neste e no próximo ano.
Portanto, à luz dos números citados acima, é possível apontar que:
Embora diversos analistas considerem que "inflação é inflação" , a literatura teórica e a prática indicam que a política monetária deve reagir de forma distinta a elevações da inflação, a depender de sua origem.
Tipicamente, no caso de choques de oferta desfavoráveis —como é o caso dos dois fatores descritos acima—, a autoridade monetária idealmente deveria acomodar a alta da inflação cheia nos intervalos de metas e reagir apenas caso esse choque primário gere deterioração da inflação esperada em horizontes mais longos, particularmente da inflação dos núcleos (até quando o BCB continuará não apresentando projeções de núcleos do IPCA?).
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Outra opção, que não exclui a possibilidade descrita acima, é alongar o horizonte relevante para a convergência à meta —algo que pode ser adotado caso o choque primário seja muito expressivo e ou haja uma sucessão de choques desfavoráveis—, uma vez que boa parte dos bancos centrais que operam no regime de metas de inflação não são "inflation nutters".
Ou seja: os BCs também se importam com a atividade econômica, preferindo ajustes mais suaves a recessões profundas para reancorar a inflação nas metas.
A prescrição acima ganha ainda mais relevância caso se considere algo que muitas vezes é ignorado por parte relevante dos analistas econômicos: a presença da chamada histerese econômica .
Dito de outro modo: desacelerações muito intensas geradas por choques de política monetária podem ter efeitos permanentes sobre o PIB, não afetando negativamente apenas o PIB cíclico mas, também, o PIB potencial.
Vou explorar essa e outras questões associadas aos vários efeitos da política monetária em uma próxima coluna.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/braulio-borges/2026/08/nao-fossem-guerra-e-el-nino-ipca-subiria-cerca-de-4-em-2026.shtml.

Fachada da sede do Banco Central, em Brasília - Pedro Ladeira/Folhapress · Pedro Ladeira/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo
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