Não fale sobre política
Faço algumas restrições a "Don't Talk About Politics", de Sarah Stein Lubrano, mas o livro é muito bom. É um banho de ciência cognitiva. Recorrendo a exemplos da literatura psicológica e da vida real, ela mostra que várias das nossas idealizações sobre política estão erradas. A esfera pública não é um "mercado de ideias" do qual sempre saem vencedores os melhores argumentos, e o cidadão não é um ator racional que se deixa persuadir por fatos e por lógica. Leia mais (09/19/2026 - 15h00)

Jornalista, foi editor de Opinião. É autor de "Pensando Bem…"
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Faço algumas restrições a "Don't Talk About Politics", de Sarah Stein Lubrano, mas o livro é muito bom. É um banho de ciência cognitiva. Recorrendo a exemplos da literatura psicológica e da vida real, ela mostra que várias das nossas idealizações sobre política estão erradas. A esfera pública não é um "mercado de ideias" do qual sempre saem vencedores os melhores argumentos, e o cidadão não é um ator racional que se deixa persuadir por fatos e por lógica.
Nossas crenças e preferências políticas têm origem em processos sociais que nem sempre receberam a devida atenção de teóricos do liberalismo. Não tenho como discordar do principal da argumentação da autora, mas penso que, no afã de decretar a morte do liberalismo –o livro tem essa pegada bem de esquerda—, ela acaba recorrendo à falácia do espantalho.
Já faz décadas que cientistas políticos deixaram de considerar o eleitor como modelo de racionalidade sem que fosse necessário sacrificar princípios do liberalismo clássico como a liberdade de expressão e a própria noção de esfera pública de Habermas, que seguem funcionando, normativamente e como aproximações teóricas. Uma ideia de esquerda vencedora, como a de que é errado discriminar homossexuais, triunfou entre outras razões porque passou um tempo sendo testada no mercado de ideias.

O que Lubrano defende então? Ela acha que o melhor modo de mudar mentalidades é criando ambientes em que as pessoas possam interagir de modo construtivo, o que lhes permite superar preconceitos e a polarização. Ela acerta em algo aí. Anos atrás li um artigo que me impressionou. Dizia que um dos motivos do aprofundamento da cisão entre congressistas democratas e republicanos nos EUA é que, com a maior facilidade de viagens aéreas, eles deixaram de levar suas famílias para morar em Washington.
Regressavam a seus estados nos fins de semana. Com isso, seus filhos deixaram de ser colegas de escola e as famílias deixaram de frequentar os mesmos churrascos de sábado. Ficou fácil se demonizarem.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/helioschwartsman/2026/09/nao-fale-sobre-politica.shtml.

Ilustração de Annette Schwartsman para a coluna de Hélio Schwartsman - Annette Schwartsman · Annette Schwartsman — Foto: Folha de S.Paulo
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