Não existe agronegócio de sucesso sem ciência forte
Há cinco décadas, o Brasil importava alimentos. Hoje, é uma potência agropecuária mundial. Essa transformação não ocorreu por acaso. Foi construída com investimentos em ciência, formação de pesquisadores e políticas públicas. Leia mais (10/14/2026 - 10h00)

O que pensam os jovens cientistas no Brasil? Por Instituto Serrapilheira
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Engenheira agrônoma, diretora da Academia Brasileira de Ciências (ABC) e conselheira da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC)
Há cinco décadas, o Brasil importava alimentos. Hoje, é uma potência agropecuária mundial. Essa transformação não ocorreu por acaso. Foi construída com investimentos em ciência, formação de pesquisadores e políticas públicas.
Um marco foi a criação da Embrapa, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, em 1973. Ao lado de universidades, institutos de pesquisa e produtores, a instituição ajudou a superar a dependência de tecnologias concebidas para o hemisfério Norte, desenvolvendo conhecimentos próprios da agricultura tropical.

A ciência viabilizou a expansão agrícola no cerrado, adaptou culturas a novas regiões, melhorou o manejo dos solos e desenvolveu sistemas produtivos. Plantio direto, integração lavoura-pecuária-floresta e bioinsumos ilustram essa transformação e a atual liderança brasileira nessas áreas.
A fixação biológica do nitrogênio na soja é emblemática. Décadas de pesquisa com microrganismos permitiram dispensar a adubação nitrogenada mineral nessa cultura. Segundo estimativas da última safra , isso representou economia de US$ 29 bilhões em fertilizantes nitrogenados, além de evitar emissões de gases de efeito estufa equivalentes às de 60 milhões de automóveis em um ano. Ciência convertida em competitividade, autonomia e sustentabilidade.
O retorno da pesquisa é concreto. Desde 1997, a Embrapa divulga um balanço social e, em 2025, apontou um lucro social de R$ 124,76 bilhões : para cada R$ 1 investido, R$ 27 retornaram à sociedade. Investir em pesquisa não é despesa, é construir riqueza e capacidade de enfrentar desafios futuros.
Não se pode, porém, viver das conquistas do passado. Mudanças climáticas, desertificação, salinização dos solos, novas pragas e doenças e a necessidade de produzir com menos água, insumos e terra exigem novas soluções. Uma tecnologia não nasce de uma safra para outra. Depende de pesquisa básica e aplicada, laboratórios, campos experimentais, equipes qualificadas e anos de validação.
Inteligência artificial, edição gênica e outras tecnologias de ponta abrem novas oportunidades, mas, sem domínio nacional, podem ampliar a dependência externa. Além disso, o compromisso precisa ir além das toneladas colhidas. A ciência também deve reduzir perdas, orientar políticas públicas, melhorar a qualidade nutricional dos alimentos e ampliar seu acesso. Para isso, precisa de investimento e integração entre diferentes áreas do conhecimento.
Investir em ciência exige continuidade e previsibilidade. Cortes interrompem pesquisas, desarticulam equipes e comprometem competências difíceis de reconstruir. Fortalecer a pesquisa pública em agropecuária precisa se tornar uma política de Estado, com recursos garantidos e visão de longo prazo.
A pesquisa pública sustenta avanços que beneficiam toda a cadeia produtiva e será crítica para viabilizar a nova visão demandada pelo mundo, de agropecuária sustentável, eficiente e competitiva. O agronegócio , beneficiário direto dessas conquistas, precisa defender e, como já ocorre em vários países, passar a participar do investimento em pesquisa pública. Trata-se de competitividade e soberania nacional.
O Brasil não pode pretender colher indefinidamente os frutos da ciência sem semear as pesquisas do amanhã. O agronegócio que hoje lidera mercados nasceu de decisões de investimento tomadas décadas atrás. O que seremos nas próximas décadas depende das decisões que tomarmos agora.
Sem ciência financiada de forma contínua, perderemos competitividade, autonomia e oportunidades de garantir segurança alimentar e nutricional para todos.
O Ciência Fundamental é editado pelo Serrapilheira, um instituto privado, sem fins lucrativos, de apoio à ciência no Brasil. Inscreva-se na newsletter do Serrapilheira para acompanhar as novidades do instituto e da coluna.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/blogs/ciencia-fundamental/2026/10/nao-existe-agronegocio-de-sucesso-sem-ciencia-forte.shtml.

Lívia Serri Francoio/Instituto Serrapilheira · Lívia Serri Francoio/Instituto Serrapilheira — Foto: Folha de S.Paulo
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