Brasil

    Não existe agronegócio de sucesso sem ciência forte

    Há cinco décadas, o Brasil importava alimentos. Hoje, é uma potência agropecuária mundial. Essa transformação não ocorreu por acaso. Foi construída com investimentos em ciência, formação de pesquisadores e políticas públicas. Leia mais (10/14/2026 - 10h00)

    Folha de S.Paulo
    14 de outubro de 2026 às 13:00
    Não existe agronegócio de sucesso sem ciência forte
    Ilustração com fundo escuro mostra linhas verdes que lembram raízes ou vasos. No canto superior direito, há um detalhe ampliado de células vegetais em verde e azul. Abaixo, três quadrados verdes exibem: uma folha estilizada, uma sequência d — Foto: Folha de S.Paulo

    O que pensam os jovens cientistas no Brasil? Por Instituto Serrapilheira

    Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.

    Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.

    Lívia Serri Francoio/Instituto Serrapilheira · Lívia Serri Francoio/Instituto Serrapilheira
    Lívia Serri Francoio/Instituto Serrapilheira · Lívia Serri Francoio/Instituto Serrapilheira — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Engenheira agrônoma, diretora da Academia Brasileira de Ciências (ABC) e conselheira da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC)

    Há cinco décadas, o Brasil importava alimentos. Hoje, é uma potência agropecuária mundial. Essa transformação não ocorreu por acaso. Foi construída com investimentos em ciência, formação de pesquisadores e políticas públicas.

    Um marco foi a criação da Embrapa, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, em 1973. Ao lado de universidades, institutos de pesquisa e produtores, a instituição ajudou a superar a dependência de tecnologias concebidas para o hemisfério Norte, desenvolvendo conhecimentos próprios da agricultura tropical.

    Mudanças no clima provocadas por desmatamento impactam produção na amazônia
    Mudanças no clima provocadas por desmatamento impactam produção na amazônia — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    A ciência viabilizou a expansão agrícola no cerrado, adaptou culturas a novas regiões, melhorou o manejo dos solos e desenvolveu sistemas produtivos. Plantio direto, integração lavoura-pecuária-floresta e bioinsumos ilustram essa transformação e a atual liderança brasileira nessas áreas.

    A fixação biológica do nitrogênio na soja é emblemática. Décadas de pesquisa com microrganismos permitiram dispensar a adubação nitrogenada mineral nessa cultura. Segundo estimativas da última safra , isso representou economia de US$ 29 bilhões em fertilizantes nitrogenados, além de evitar emissões de gases de efeito estufa equivalentes às de 60 milhões de automóveis em um ano. Ciência convertida em competitividade, autonomia e sustentabilidade.

    O retorno da pesquisa é concreto. Desde 1997, a Embrapa divulga um balanço social e, em 2025, apontou um lucro social de R$ 124,76 bilhões : para cada R$ 1 investido, R$ 27 retornaram à sociedade. Investir em pesquisa não é despesa, é construir riqueza e capacidade de enfrentar desafios futuros.

    Não se pode, porém, viver das conquistas do passado. Mudanças climáticas, desertificação, salinização dos solos, novas pragas e doenças e a necessidade de produzir com menos água, insumos e terra exigem novas soluções. Uma tecnologia não nasce de uma safra para outra. Depende de pesquisa básica e aplicada, laboratórios, campos experimentais, equipes qualificadas e anos de validação.

    Inteligência artificial, edição gênica e outras tecnologias de ponta abrem novas oportunidades, mas, sem domínio nacional, podem ampliar a dependência externa. Além disso, o compromisso precisa ir além das toneladas colhidas. A ciência também deve reduzir perdas, orientar políticas públicas, melhorar a qualidade nutricional dos alimentos e ampliar seu acesso. Para isso, precisa de investimento e integração entre diferentes áreas do conhecimento.

    Investir em ciência exige continuidade e previsibilidade. Cortes interrompem pesquisas, desarticulam equipes e comprometem competências difíceis de reconstruir. Fortalecer a pesquisa pública em agropecuária precisa se tornar uma política de Estado, com recursos garantidos e visão de longo prazo.

    A pesquisa pública sustenta avanços que beneficiam toda a cadeia produtiva e será crítica para viabilizar a nova visão demandada pelo mundo, de agropecuária sustentável, eficiente e competitiva. O agronegócio , beneficiário direto dessas conquistas, precisa defender e, como já ocorre em vários países, passar a participar do investimento em pesquisa pública. Trata-se de competitividade e soberania nacional.

    O Brasil não pode pretender colher indefinidamente os frutos da ciência sem semear as pesquisas do amanhã. O agronegócio que hoje lidera mercados nasceu de decisões de investimento tomadas décadas atrás. O que seremos nas próximas décadas depende das decisões que tomarmos agora.

    Sem ciência financiada de forma contínua, perderemos competitividade, autonomia e oportunidades de garantir segurança alimentar e nutricional para todos.

    O Ciência Fundamental é editado pelo Serrapilheira, um instituto privado, sem fins lucrativos, de apoio à ciência no Brasil. Inscreva-se na newsletter do Serrapilheira para acompanhar as novidades do instituto e da coluna.

    LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

    Você já conhece as vantagens de ser assinante da Folha? Além de ter acesso a reportagens e colunas, você conta com newsletters exclusivas ( conheça aqui ). Também pode baixar nosso aplicativo gratuito na Apple Store ou na Google Play para receber alertas das principais notícias do dia. A sua assinatura nos ajuda a fazer um jornalismo independente e de qualidade. Obrigado!

    Mais de 180 reportagens e análises publicadas a cada dia. Um time com mais de 200 colunistas e blogueiros. Um jornalismo profissional que fiscaliza o poder público, veicula notícias proveitosas e inspiradoras, faz contraponto à intolerância das redes sociais e traça uma linha clara entre verdade e mentira. Quanto custa ajudar a produzir esse conteúdo?

    Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.

    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/blogs/ciencia-fundamental/2026/10/nao-existe-agronegocio-de-sucesso-sem-ciencia-forte.shtml.

    Imagem 1
    1 / 2

    Lívia Serri Francoio/Instituto Serrapilheira · Lívia Serri Francoio/Instituto Serrapilheira — Foto: Folha de S.Paulo

    Compartilhe

    Espalhe essa notícia

    Comentários(0)