Brasil

    Não é um empréstimo qualquer

    Empréstimos já ocuparam lugar de destaque na política brasileira. Em 1992, a chamada Operação Uruguai tentou justificar a origem dos recursos que sustentavam o alto padrão de vida do então presidente Fernando Collor. A versão fracassou e virou símbolo de uma explicação que desperta mais dúvidas do que esclarecimentos. Leia mais (08/09/2026 - 22h00)

    Folha de S.Paulo
    10 de agosto de 2026 às 01:00
    Não é um empréstimo qualquer
    Dois homens de terno conversam em ambiente formal com bandeira do Brasil ao fundo. Homem à esquerda usa óculos e faz gesto com a mão direita, enquanto homem à direita observa atentamente. — Foto: Folha de S.Paulo

    Texto não assinado que expressa a opinião da Folha

    Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.

    Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.

    Marco Aurélio Santana Ribeiro, ex-chefe de gabinete do presidente, e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) - Evaristo Sá - 3.jun.26/AFP · Evaristo Sá - 3.jun.26/AFP
    Marco Aurélio Santana Ribeiro, ex-chefe de gabinete do presidente, e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) - Evaristo Sá - 3.jun.26/AFP · Evaristo Sá - 3.jun.26/AFP — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Empréstimos já ocuparam lugar de destaque na política brasileira. Em 1992, a chamada Operação Uruguai tentou justificar a origem dos recursos que sustentavam o alto padrão de vida do então presidente Fernando Collor. A versão fracassou e virou símbolo de uma explicação que desperta mais dúvidas do que esclarecimentos.

    Cada caso tem particularidades, mas a experiência requer cautela com contratos de mútuo.

    Compra e venda de imóveis também podem cumprir esse papel, como nos negócios do senador Jacques Wagner ( PT -BA): um terreno declarado por R$ 28 mil ao TSE em 2018 foi vendido por R$ 13,8 milhões, e um apartamento declarado por R$ 1,7 milhão em 2022, por R$ 10 milhões.

    Imagem da matéria
    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Permanecem, portanto, dúvidas sobre eventuais relações de Wagner com o ex-dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, a quem Flávio Bolsonaro (PL) recorreu em busca de financiamento para um filme sobre o pai, Jair.

    Foi essa cautela que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) deixou de demonstrar ao dizer que "todo mundo pega empréstimo" ao comentar o caso de seu ex-chefe de gabinete, Marco Aurélio Ribeiro, o Marcola.

    Ninguém questiona a normalidade de um empréstimo. O problema é que Marcola, então responsável pelo controle da agenda e do acesso ao gabinete presidencial, recebeu R$ 249 mil de Roberta Luchsinger , lobista que registrou dezenas de entradas no Planalto e em ministérios e é investigada pela Polícia Federal .

    ilustração de Daniel Bueno para as páginas do projeto editorial da Folha
    ilustração de Daniel Bueno para as páginas do projeto editorial da Folha — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Era esse vínculo, não o contrato entre as partes em si, que exigia firmeza do mandatário.

    É elogiável a saída de Marcola da equipe de campanha à reeleição de Lula, que mostra compreensão sobre a gravidade política do episódio. A alegação de que foi um empréstimo, já quitado, será examinada pelas autoridades.

    No plano político, porém, ela não basta. A PF investiga a atuação direta de Roberta em apurações sobre fraudes no INSS e a aproximação de outros suspeitos com o governo federal.

    A empresária também é amiga de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha , alvo de inquéritos no STF por suposto tráfico de influência —acusações que ele nega.

    Nada disso comprova favorecimento ilícito. Mas revela perigosa zona cinzenta no cerne do Poder Executivo, o que é repreensível.

    O chefe de gabinete da Presidência é o guardião dos bastidores do poder; não pode manter transações privadas com quem tem trânsito livre em Brasília e está sob escrutínio policial.

    Lula acerta ao defender a autonomia da PF. Mas a liderança do Estado não se limita ao Código Penal. Cabe ao chefe do Executivo estabelecer a fronteira entre o tolerável e o inaceitável na alta administração.

    Ao minimizar o episódio do empréstimo, Lula emite um sinal equivocado sobre os limites da ética pública. Proteger as instituições exige afastar conflitos de interesse antes que eles se convertam em casos de polícia.

    Você já conhece as vantagens de ser assinante da Folha? Além de ter acesso a reportagens e colunas, você conta com newsletters exclusivas ( conheça aqui ). Também pode baixar nosso aplicativo gratuito na Apple Store ou na Google Play para receber alertas das principais notícias do dia. A sua assinatura nos ajuda a fazer um jornalismo independente e de qualidade. Obrigado!

    Mais de 180 reportagens e análises publicadas a cada dia. Um time com mais de 200 colunistas e blogueiros. Um jornalismo profissional que fiscaliza o poder público, veicula notícias proveitosas e inspiradoras, faz contraponto à intolerância das redes sociais e traça uma linha clara entre verdade e mentira. Quanto custa ajudar a produzir esse conteúdo?

    Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.

    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2026/08/nao-e-um-emprestimo-qualquer.shtml.

    Imagem 1
    1 / 3

    Marco Aurélio Santana Ribeiro, ex-chefe de gabinete do presidente, e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) - Evaristo Sá - 3.jun.26/AFP · Evaristo Sá - 3.jun.26/AFP — Foto: Folha de S.Paulo

    Compartilhe

    Espalhe essa notícia

    Comentários(0)