Brasil

    Não é a santa que deveria estar no centro do debate eleitoral

    Segunda-feira. Abro o computador pela primeira vez após a desconexão do mundo proporcionada pelo primeiro fim de semana de sol e calor depois de um mês de dilúvio no Rio de Janeiro. Leia mais (09/29/2026 - 18h15)

    Folha de S.Paulo
    29 de setembro de 2026 às 21:15
    Não é a santa que deveria estar no centro do debate eleitoral
    Mãos seguram a imagem de Nossa Senhora Aparecida com manto azul bordado, detalhes dourados e coroa dourada no topo, em ambiente interno com arcos ao fundo. — Foto: Folha de S.Paulo

    É publicitária, escritora e produtora de conteúdo. Autora de "E Se Eu Parasse de Comprar? O Ano Que Fiquei Fora da Moda". Escreve sobre moda, consumo consciente e maternidade

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    Imagem de Nossa Senhora Aparecida durante missa na Basílica de Aparecida (SP), no ano passado - Rubens Cavallari - 12.out.25/Folhapress · Rubens Cavallari - 12.out.25/Folhapress
    Imagem de Nossa Senhora Aparecida durante missa na Basílica de Aparecida (SP), no ano passado - Rubens Cavallari - 12.out.25/Folhapress · Rubens Cavallari - 12.out.25/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Segunda-feira. Abro o computador pela primeira vez após a desconexão do mundo proporcionada pelo primeiro fim de semana de sol e calor depois de um mês de dilúvio no Rio de Janeiro.

    O site da Folha abre automaticamente assim que clico no browser. Para minha surpresa, quem ocupa o destaque do noticiário do dia não é Lula nem Flávio Bolsonaro , nem Xandão , nem KN . A protagonista das chamadas do dia na home do jornal é ninguém mais, ninguém menos do que Nossa Senhora Aparecida.

    Checo outros veículos e vejo o mesmo padrão se repetir. A menos de uma semana das eleições, só se fala na santa. A esta altura provavelmente você já sabe do imbróglio. Alguém disse que Flávio ia destronar Nossa Senhora como padroeira do Brasil , um aceno ao eleitorado evangélico do qual Flávio tanto precisa. O boato se espalhou pelas redes, e teve até ateu disposto a defender a santa se isso significasse colocar o prego final no caixão da família Bolsonaro (esta colunista incluída).

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    Foto: Folha de S.Paulo · Fonte: Folha de S.Paulo

    Flávio se defendeu, publicou vídeos negando que pretendesse retirar o título da santa, mas sua acusação à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil de ter ajudado a espalhar a história não ajudou. A campanha de Lula, por outro lado, aproveitou o bonde, com Janja publicando uma foto do presidente com a imagem de Nossa Senhora Aparecida e Alckmin compartilhando um vídeo sobre a preservação das tradições católicas.

    O boato de que Flávio estaria mirando na santa não surgiu do nada: encontrou terreno fértil numa família que há anos mistura política e religião com um discurso voltado justamente para o público evangélico.

    Em 2022, aliados de Jair Bolsonaro espalharam a fake news de que Lula fecharia todas as igrejas. Semanas atrás, Flávio disse "Quando eu for presidente, um dos meus primeiros atos será decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo", ignorando a fé de milhões de brasileiros praticantes de outras religiões e também dos milhões de brasileiros que acreditam num estado laico.

    Mas o que mais me incomoda em toda essa história é, mais uma vez, ver essa corrida eleitoral ser cooptada por assuntos que pouco impactam a vida de quem realmente deveria estar no centro do debate: a mulher comum. Aquela que é chefe de família, aquela que sofre violência em casa, aquela que cria os filhos sozinha, aquela que ganha menos do que seu colega que exerce a mesma função, aquela que tem que deixar os filhos com a vizinha para trabalhar porque não tem vaga de creche, aquela que se endividou para conseguir pagar as contas.

    Discussões, notícias e reflexões pensadas para mulheres

    Mulheres são a maioria do eleitorado, são também as mais afetadas por crises econômicas, as mais vulneráveis e, portanto, mais dependentes de políticas públicas. É pensando nessa mulher que precisamos avaliar o cenário político, que precisamos avaliar quem irá representar melhor os nossos interesses.

    E aí a resposta deveria ser óbvia: temos uma direita radical que questiona o nosso direito ao voto, que não acredita em representatividade, que apoia leis que revitimizam vítimas de estupro, que diminuem nossas lutas a "mimimi". O outro lado está longe de ser perfeito, mas trabalha dentro do campo democrático, acredita nas mudanças climáticas e acredita em políticas públicas de proteção à mulher e correção das desigualdades de gênero.

    As mulheres no Brasil precisam de um milagre, mas o campo progressista não deveria precisar de uma santa para conquistá-las.

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    Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/joanna-moura/2026/09/nao-e-a-santa-que-deveria-estar-no-centro-do-debate-eleitoral.shtml.

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    Imagem de Nossa Senhora Aparecida durante missa na Basílica de Aparecida (SP), no ano passado - Rubens Cavallari - 12.out.25/Folhapress · Rubens Cavallari - 12.out.25/Folhapress — Foto: Folha de S.Paulo

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