Na Ucrânia, noite de alarmes expõe o peso diário do conflito
Kiev, Ucrânia . O alarme toca insistentemente pela terceira vez, apontando que foi detectado mais um ataque aéreo de um míssil vindo na nossa direção. No aplicativo, a mensagem diz apenas que devemos nos dirigir ao abrigo antiaéreo mais próximo que, no nosso caso, é um bunker no terceiro subsolo do estacionamento do hotel onde estamos. Leia mais (08/25/2026 - 23h00)

Historiador, deputado na Assembleia da República de Portugal e ex-deputado no Parlamento Europeu; autor de 'Agora, Agora e Mais Agora'
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Kiev, Ucrânia . O alarme toca insistentemente pela terceira vez, apontando que foi detectado mais um ataque aéreo de um míssil vindo na nossa direção. No aplicativo, a mensagem diz apenas que devemos nos dirigir ao abrigo antiaéreo mais próximo que, no nosso caso, é um bunker no terceiro subsolo do estacionamento do hotel onde estamos.
Dezenas de pessoas descem as rampas de acesso. Quando chegamos já estão lá o presidente da Finlândia, Alexander Stubb, e o primeiro-ministro de Luxemburgo, Luc Frieden, ao qual sou apresentado por António Costa , presidente do Conselho Europeu. Por sua vez, caberá àqueles dignitários, aos diplomatas, aos muitos jornalistas que estão ali e a nós deputados (faço parte de uma delegação parlamentar) viver aquilo que passam os ucranianos todos os dias.
Depois de algum tempo, sem novidades sobre o ataque, voltamos aos nossos quartos de hotel. Mas quando passa da meia-noite soa o alarme de novo. Desta vez, são drones. Ficamos atentos a outras mensagens; um amigo promete alertar se as suas fontes britânicas e americanas avisarem que o ataque vem para o nosso lado. Adormeço.

De manhã, o relatório confirma que o ataque foi de drones e que um ou mais se chocaram contra um prédio de 14 andares nos subúrbios da capital ucraniana. Não se sabe ainda se houve mortos ou feridos.
E assim é, todos os dias e noites, há quatro anos e meio. Em várias cidades ucranianas, em pleno continente europeu, totalizando milhões de habitantes que tentam levar uma vida normal, com supermercados, transportes públicos, escolas e empregos. Os drones e mísseis matam com regularidade crescente .
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Mais de quatrocentas pessoas comuns —estou falando só de civis, não alvos militares— perderam a vida só neste último mês de julho. E a maior preocupação, neste momento, nem é a dos ataques aéreos, mas a de se prepararem para mais um inverno com temperaturas muito negativas, na ordem dos 20ºC abaixo de zero, durante o qual podem não ter eletricidade, água ou aquecimento por períodos prolongados.
Podemos falar da guerra como grande abstração geopolítica ou podemos falar das pessoas que dela são vítimas. Se falarmos do conflito como um jogo de poder, pode acontecer que numa situação estejamos do lado das vítimas e em outra do lado dos perpetradores, como aquelas pessoas que são contra Putin, mas apoiam Netanyahu (ou vice-versa). Ou podemos escolher o lado da coerência, em que uma vida inocente é uma vida inocente e um crime de guerra é um crime de guerra, seja quem for a vítima e o perpetrador.
Escolher o lado das pessoas comuns não nos impede de fazer análise geopolítica. Mas aí ela muda de figura: já não se trata de procurar o inimigo do meu inimigo e tentar ver nele um amigo. Trata-se de perceber que aquilo que está em jogo, aqui na Ucrânia como ali na Palestina , é se os países poderosos ou por eles apoiados podem atribuir a si mesmos o direito de invadir e matar, ou se ainda devemos nos unir para tentar ter um mundo de regras, diplomacia e direitos humanos.
Quando temos um mundo em que os países enormes como a Rússia e os EUA fazem as guerras que querem, a única solução é os países médios se unirem para se protegerem e salvarem a paz. E isso deixa uma escolha a países grandes como Brasil: ser o menor dos enormes ou o maior dos restantes.
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Publicado originalmente por Folha de S.Paulo. Leia a matéria completa em https://redir.folha.com.br/redir/online/emcimadahora/rss091/*https://www1.folha.uol.com.br/colunas/rui-tavares/2026/08/na-ucrania-noite-de-alarmes-expoe-o-peso-diario-do-conflito.shtml.

Pessoas se abrigam em estação de metrô em Kiev durante ataque aéreo russo, no fim de julho - Oleksii Filippov - 30.jul.26/AFP · Oleksii Filippov - 30.jul.26/AFP — Foto: Folha de S.Paulo
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